Um ‘santo’ com os pés na terra
Não esqueceu as origens, a aldeia onde nasceu. o cardeal-patriarca faz no sábado 75 anos. A vida de D. José Policarpo
Na aldeia do Pego há um cardeal-patriarca. É como se morasse junto do povo daquele lugar. D. José Policarpo nasceu numa aldeia com memória e sem cafés nem mercearias, habitada por viúvas, velhos e uma meia dúzia de crianças que lá o esperam para uma missa - nas suas folgas - na Capela de S. Francisco. Ainda no dia das eleições - a 23 de Janeiro - lá esteve; e no sábado a seguir; e no outro fim-de-semana. D. José Policarpo, o mesmo que nasceu nesta aldeia da freguesia de Alvorninha (Caldas da Rainha), faz no dia 26 deste mês 75 anos - o que, por desígnio, fará com que ponha o seu lugar à disposição do Papa Bento XVI.
É um homem com uma vida que se descreve por uma só palavra bíblica: "vocação". Em Agosto passam 50 anos da sua Ordenação Sacerdotal. Recuando no tempo e de volta à aldeia do Pego: depois de fazer o exame da 4ª classe - que passou com distinção -, com 11 anos, foi a correr para casa. Fechou-se no quarto, no sótão. A mãe estranhou. E em meia hora escreveu uma carta ao prior da freguesia, José da Costa, pedindo para entrar para o seminário. Os pais não lhe fizeram oposição. E não tardou para que a notícia corresse a aldeia. "Lembro-me que eu ia levar pão quente à minha avó - cozido pela minha mãe - e, no caminho, passei pela quinta de uma tia velhota que estava sempre numa das janelas altas. Ela gostava de se meter connosco:
- Então ó Céu, o teu Parrucho vai para o seminário? - recorda Maria do Céu Policarpo, irmã do cardeal-patriarca.
- Eu não tenho nenhum irmão chamado Parrucho.
- Então o teu Zé?
- Ah, esse vai. Mas ele não é Parrucho.
A alcunha era mais do que conhecida de todos. Parrucho porque ele era "gordinho e pequeno", conta a irmã. "Não gostava que a gente lhe chamasse isso, dizia que não era o nome dele. E a gente sabia bem", acrescenta Manuel Catarino, 74 anos, ex-colega do cardeal-patriarca na Escola Primária de Frei Domingos. Catarino ficou-se pela 4ª classe, ao passo que o amigo da época prosseguiu: "Ele estudava muito e não perdia tempo. A gente gostava mais de brincar, de jogar com uma bola de trapos. Mas ele dava prioridade ao estudo, por isso é que não era grande pechincha a jogar. Eu era melhor - também perdia mais tempo".
UM INTELECTUAL
A imagem desta aldeia cola-se à de um Portugal que está sempre à espera. D. José Policarpo é um intelectual com distinção na investigação, no ensino e na Filosofia. Doutorou-se em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. "Quando eu era jovem padre" - conta aos 71 anos Carlos Paes, da Igreja de São João de Deus -, "ele estudava em Roma e fazíamos umas tertúlias teológicas sempre que ele vinha de férias. Éramos todos padres de seminário e esperávamos que nos contasse os estudos que estava a fazer e as novas perspectivas teológicas". Eram os anos a seguir ao Concílio Vaticano II, que o cardeal-patriarca viveu de perto. Daí nasceu a sua tese ‘Sinais dos Tempos - Génese Histórica da Interpretação' (1968).
"É um protótipo de um cristão do Concílio Vaticano II; um homem de viragem dos tempos dentro da Igreja e na sociedade", caracteriza o padre franciscano Vítor Melícias. "Eu e ele assistimos ao Vaticano II, ao 25 de Abril, à queda do muro de Berlim, à chegada do homem à Lua. Portanto, ele viveu sempre virado para os tempos novos".
Já nos anos a seguir a 1970, D. José assumiu um papel preponderante na formação do clero e dos leigos em geral. "Enquanto responsável pelo Seminário dos Olivais [reitor nomeado pelo cardeal Cerejeira e licenciado em Filosofia e Teologia no Seminário Maior de Cristo-Rei, lá nos Olivais], numa altura que se seguiu à grande crise das vocações dos anos 70, coube-lhe um papel importantíssimo na definição das linhas orientadoras dos novos padres, do novo clero, que no fundo se inseriria na sociedade democrática portuguesa" - recorda o professor Marcelo Rebelo de Sousa.
A IRMÃ PÁRA-QUEDISTA
A sede de conhecimento de D. José Policarpo era imensa. Depois de seguir para o Seminário de Santarém, após a 4ª classe - acompanhado pelos pais, de burro até à Benedita e depois de carreira - o jovem seminarista mergulhou nos estudos. A irmã Maria do Céu visitava-o frequentemente:
- Entrar tu não podes - dizia-lhe o irmão, três anos mais velho, para impedi-la de ir ao seu quarto no seminário.
- Mas não posso porquê? Tenho duas pernas e dois pés como tu!?
Então lá ia ela atrás dele até à cela. Era um quarto pequeno, tinha uma cama, uma secretária, um roupeiro e um armário para livros. "Sempre gostou muito de ler" - recorda Maria do Céu. "Enquanto eu não ganhei não o ajudava, mas quando comecei a ganhar - e razoavelmente bem -, ajudava com muitas coisas que os pais não podiam. Livros. Ofereci-lhe a capa de seminarista". Maria do Céu foi das primeiras enfermeiras pára-quedistas em Portugal. Esteve na Guerra do Ultramar, em Angola, entre 1961 e 1963, a prestar auxílio às tropas portuguesas.
Os pais, um casal de agricultores, tiveram 12 filhos. Três morreram na infância. E dois já faleceram nos anos 80. Restam sete, dos quais D. José é o mais velho. O pai era rendeiro de uma parte da Quinta do Pego, por ser afilhado de uma das herdeiras. Só contratava ajuda para apanhar azeitona ou para a vindima. "Vínhamos da escola e ajudávamos. Todos os filhos trabalhavam aquelas terras, até ele [D. José] quando estava de férias, embora o meu pai não gostasse muito de o ver por lá".
José Policarpo, o pai, falecido em Outubro de 1987, brincava com os filhos, contava anedotas ao serão, cantava à desgarrada com eles, mais os seus irmãos e os cunhados. A mãe, que cuidava da família, faleceu em Setembro de 1994. Foi D. José Policarpo que, na tristeza, fez as missas fúnebres. Mas também foi ele que, na alegria, casou os irmãos.
SER OU NÃO SER PAPA
"O contributo de D. José Policarpo é típico de um homem corajoso e profundo, com uma fé que vem das raízes, da fonte, mas que ao mesmo tempo encara a sociedade de uma forma muito sensível e reflexiva. Veio para o Seminário de Almada com 14 anos [onde acabou os estudos secundários] e voltou cá recentemente para uma conferência comemorativa dos 75 anos do Seminário e foi impressionante a sensibilidade com que escreveu sobre esta casa", recorda o padre Rodrigo Mendes, responsável pelo Seminário de Almada. "Ele é capaz de se situar na história com humildade e sem pretensiosismo, como mostrou com o bom humor com que encarou a hipótese de vir a ser Papa. É claramente aquilo que Jesus disse dos Bispos: ‘São sucessores dos pescadores e não dos imperadores'".
D. José contribuiu para o prestígio de Portugal lá fora e chegou a ser considerado como um ‘papabile', até porque era um dos bispos mais antigos - ordenado em 1978 -, recorda Marcelo Rebelo de Sousa. A revista francesa ‘Paris-Match', o jornal americano ‘National Catholic Reporter' e o espanhol ‘El País' chegaram a colocá-lo como um dos favoritos para a sucessão de João Paulo II, em 2005. Internacionalmente, D. José era muito bem visto e conhecido como o ‘padre das pontes' - porque estabeleceu ligações entre os vários continentes. "Manteve sempre boas relações com os nossos irmãos dos países lusófonos, sobretudo com os africanos", acrescenta o professor Marcelo.
Outra vantagem é a sua grande abertura religiosa. "Acho que no cardeal-patriarca se conjugam três factores. Em primeiro lugar a sua própria pessoa, é um homem do seu tempo, um homem aberto, inteligente, culto. Por outro lado a situação de abertura política de Portugal e a própria abertura do Vaticano às outras religiões" -, diz Esther Mucznick, da comunidade judaica. Porém, em Janeiro de 2009, D. José causou polémica: advertiu as jovens portuguesas que casar com muçulmanos poderia ser um "monte de sarilhos".
Para ser Papa, dizia-se que D. José Policarpo tinha contra ele o facto de fumar bastante, mais de um maço por dia. "E acho que ele se habituou a fumar já depois de padre. Sempre refilei, mas ele responde-me: ‘Cada vez que me dizes isso são mais cinco anos que eu não deixo de fumar' - conta a irmã Maria do Céu.
A poucos dias de fazer 75 anos, D. José apenas sofre de um problema de saúde: erisipelas, que são inflamações agudas dos tecidos das pernas.
ETERNO SPORTINGUISTA
Foi nos corredores da Universidade Católica Portuguesa que o padre Carreira das Neves, professor jubilado, mais conviveu com D. José Policarpo - o reitor entre 1988 e 96. Ali partilharam muitas refeições - "D. José gosta muito de comer e é apreciador de um bom vinho" -, anedotas e conversas sobre futebol - do Sporting, o seu clube. "Mas é sobretudo um homem arguto. A sua tese defende que Deus fala-nos não só pelas Sagradas Escrituras mas também pela História", diz o padre.
Por outro lado, D. José estabeleceu com a política uma relação de equilíbrio: "Soube manter as devidas distâncias e as necessárias aproximações", defende o padre José Maia, que conheceu D. José Policarpo através da Fundação Evangelização e Culturas, pela qual é responsável.
Nas relações políticas, o ex-ministro do Trabalho e da Segurança Social Bagão Félix considera que D. José "gosta de dar a sua opinião mas que nunca assume uma posição de supremacia". Já Marcelo Rebelo de Sousa considera-o "muito dialogante embora tenha ideias que, em alguns aspectos, são mais próximas de um socialismo cristão do que de um conservadorismo cristão". Foi sobretudo a sua capacidade de se relacionar com os sectores católicos e não católicos, de todo o espectro político, que permitiu, no final da década de 90, que a Igreja se aproximasse do poder político. O que culminou com a revisão da Concordata em 2004.
"Vejo nele um homem de Igreja, alguém muito encontrado consigo mesmo, que ajuda a delinear caminhos abertos e claros para a Igreja. Está acima de qualquer etiqueta ou estereótipo de conservador ou progressista, nem de direita nem de esquerda" - caracteriza o padre Miguel Almeida, director do Centro Universitário Padre António Vieira e ex-aluno de D. José na Católica. Aliás, o cardeal--patriarca sempre manteve uma posição vincada contra a legalização do aborto e contra o casamento homossexual.
A preocupação de D. José Policarpo com a juventude é assinalada por António José Sarmento, director do Colégio Planalto. "É uma personalidade de elevada craveira intelectual e sempre teve grande ligação com as escolas e com a educação. Quando consagrou o altar do colégio, no ano lectivo de 2006/2007, salientou o grande papel educativo da escola e a ligação entre as famílias e, rapidamente, criou uma conversa muito interessante com os alunos e surpreendeu pela sua simplicidade. Fez questão de alertar os estudantes para que não ficassem com 'as coisas que a fé lhes dá para eles e o seu grupinho'. Esta abertura à cultura, à sociedade, ao diálogo, é algo que se nota muito no seu trabalho. Não fazer da Igreja uma casa fechada."
A HERDADE DE 14 QUARTOS
Patriarca de Lisboa desde Março de 1998, por morte de D. António Ribeiro (de quem era braço-direito) o cardeal D. José da Cruz Policarpo ascendeu a líder da Igreja Católica no País. Veste-se em Roma: veio de lá a batina de cor púrpura que usa nas cerimónias oficiais importantes; e também a habitual veste talar preta com avivados e faixa púrpura. Mas também não é raro vê-lo de calções na aldeia do Pego. É lá que a família tem uma quinta com perto de um hectare de terreno e uma casa com 14 quartos e seis casas de banho.
Manuel Mendes, um construtor civil da aldeia de Moinhos Novos (Benedita), iniciou há 17 anos as obras de transformação da pequena casa, de três quartos e uma sala, dos pais do cardeal-patriarca. Dois anos depois nascia a piscina: "Foi tudo inventado por ele e por mim, não mete ali nada de arquitectura. Ele de obras sabe tudo", explica o empreiteiro. "Só a piscina e toda a área envolvente, há 15 anos, terão custado uns seis mil contos [o equivalente hoje a 30 mil euros]. O desnível do terreno era muito grande e por isso foi muito difícil fazer a obra".
Maria do Rosário, 69 anos, a prima direita que toma conta da quinta, diz que "a piscina foi construída para o bispo [D. José], que gosta de estar lá ao sol. E às vezes jogam ali [ténis] os novos padres que vêm aí para reuniões, e vão à piscina". O court de ténis foi outra obra que o cardeal-patriarca fez nascer nas terras da família. E, para além dos irmãos, sobrinhos e sobrinhos-netos, os padres aproveitam aquele silêncio apaziguador da herdade - avaliada em mais de 2,5 milhões de euros. Até o cardeal D. António Ribeiro lá jantou. D. José sempre gostou do convívio com os seus pares. "Durante anos passámos férias juntos na serra da Estrela, ele gostava de nadar nas lagoas", conta o padre Carlos Paes.
Joaquim Pina trata das terras cultiváveis. Ele, o filho e o cunhado. Umas macieiras, pereiras e a horta. Mas a sua história na família Policarpo ficou escrita nos anos 80: "O pai dele, quem o salvou da morte fui eu e mais outro rapaz", garante Joaquim. Resgataram-no da morte nas águas geladas de Inverno no rio que cruza a aldeia.
D. José Policarpo saiu miúdo da aldeia do Pego, mas é para lá sempre que volta: à casa em que nasceu com a sua "vocação" de Patriarca do País.
FIGURA DE PROA NO ARRANQUE DA TVI
Presente na Rádio Renascença, detida pelo Patriarcado, "D. José Policarpo teve um papel importantíssimo no arranque da TVI", no início dos anos 90, recorda Marcelo Rebelo de Sousa.
"Foi, de certa maneira, o encarregado pelo cardeal-patriarca da altura, D. António Ribeiro, de presidir aos destinos da TVI, à montagem do projecto, à angariação do financiamento e, nesse sentido, fez tudo o que estava ao seu alcance, numa altura muito difícil, pois a concorrência com RTP e SIC era muito complicada. D. José Policarpo foi muito importante para a Igreja manter uma posição na TVI, sem que se dissesse que a estação era um instrumento totalmente dependente da Igreja, antes acolhendo uma liberdade de expressão e um pluralismo de ideias muito apreciável", frisa o professor.
Ribeiro e Castro, ex-director de Informação da TVI, acompanhou a fundação do canal, quando "D. José Policarpo era presidente do conselho geral, com funções de orientação e fiscalização", e conta que a "sua saída do projecto deveu-se apenas à evolução da empresa que, ainda na fase de inspiração cristã, alterou os órgãos de gestão". O deputado do CDS-PP retém da imagem de D. José "uma pessoa empenhada".
A RESPOSTA À GRANDE DÚVIDA SOBRE A RESIGNAÇÃO: HABEMUS PATRIARCA ATÉ 2013
No próximo dia 28, o primeiro dia útil após a celebração, no sábado, do seu 75º aniversário, o patriarca de Lisboa, cardeal presbítero D. José da Cruz Policarpo, vai, conforme aconselha o artigo 401 do Código do Direito Canónico, enviar ao Santo Padre a carta de resignação. Quer isto dizer que o bispo de Lisboa coloca nas mãos de Bento XVI a sua substituição na liderança da diocese, uma vez que atingiu a chamada idade canónica da reforma. A partir desse dia, D. José fica a aguardar notícias de Roma, ou seja, à espera de que o Papa aceite a sua resignação.
Tratando-se do prelado de uma das mais importantes dioceses da Europa, com o título de patriarca (o que acontece apenas em três dioceses do Mundo: Veneza, Lisboa e Goa) e, ainda por cima, cardeal da Santa Igreja, o mais certo é que o Papa protele por, pelo menos, mais dois anos a resposta à missiva de D. José.
Mas há mais. A juntar às suas reconhecidas qualidades humanas, cristãs e intelectuais, D. Policarpo goza de boa saúde, pelo que a substituição não se impõe a curto prazo. Quase todos os bispos da Conferência Episcopal Portuguesa são da opinião de que D. José será o patriarca de Lisboa pelo menos até finais de 2013, assegurando que só nessa altura as instâncias da Igreja equacionarão a nomeação do sucessor. Há mesmo prelados que sustentam que, "se Deus lhe der vida e saúde", D. José Policarpo não abandonará as funções antes de completar os 78 anos.
SERVO DE DEUS
Sobre estas matérias, o cardeal-patriarca não se pronuncia, referindo apenas que é "um servo da Igreja e de Deus" e que estará sempre, como até aqui, disponível para as "missões" que lhe forem confiadas.
No entanto, convém ter em atenção que a sucessão de D. Policarpo pouco depende dos bispos portugueses. A ordenação de novos bispos ou a colocação de novos titulares nas dioceses obedece a um processo complexo, muito blindado, em que determinadas pessoas, clérigos ou não, são chamadas a propor três nomes à Nunciatura Apostólica, que, depois de um primeiro estudo, acompanhado de recomendações, encaminha o processo para a Congregação dos Bispos, o dicastério da Santa Sé responsável pela nomeação dos prelados em todo o Mundo.
E se nos casos de ordenações episcopais ou nomeação de titulares os trâmites podem demorar entre seis meses e dois anos, é natural que, tratando-se do patriarca de Lisboa, o processo seja ainda mais delicado e a demora ainda maior. Recorde-se que o cardeal Manuel Cerejeira, ainda de boa saúde, pediu resignação a Paulo VI em 1966 e o Papa só lha concedeu aos 80 anos, em 1971.
Mesmo que a Igreja atire para o futuro, o debate sobre a sucessão de D. Policarpo, como patriarca de Lisboa e futuro cardeal (privilégio concedido por Bula Pontifícia em 1716), começa já no final deste mês.
A SUCESSÃO
Quanto a nomes, há uns que vão sendo mais badalados do que outros, embora, nestas coisas, se corra sempre o risco de atirar ao lado. Se há matérias em que a Igreja Católica é imprevisível, esta é uma delas. Atente-se ao que aconteceu na diocese de Viseu, em meados de 2006, quando, de forma inesperada, D. António Marto foi nomeado bispo de Leiria-Fátima. Ao falar-se da sucessão, toda a gente apontou, como habitualmente, para o conjunto dos auxiliares das dioceses de Braga, Porto e Lisboa. Surpresa das surpresas, o eleito foi D. Ilídio Leandro, um, até então, pároco da diocese.
No Patriarcado de Lisboa, a História do último século diz que quem sucede ao patriarca é um auxiliar. D. Manuel Gonçalves Cerejeira, que era auxiliar, sucedeu, em 1929, a D. António Mendes Belo; D. António Ribeiro, que em 1971 sucedeu ao cardeal Cerejeira, também era auxiliar; e D. José Policarpo, que foi vinte anos auxiliar de D. António Ribeiro, foi quem lhe sucedeu. Neste caso, não houve qualquer dúvida na sucessão, uma vez que D. António Ribeiro ficara gravemente doente em 1997 e D. Policarpo foi nomeado arcebispo coadjutor do patriarca de Lisboa, com direito a sucessão.
Assim, considerando as razões da História, a que a Igreja, como se sabe, nunca é indiferente, o nome a ter em conta é o de D. Carlos Azevedo. Tem 58 anos, é doutorado em História da Igreja e é bispo auxiliar de Lisboa desde Fevereiro de 2005. Ganhou notoriedade nacional enquanto secretário e porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, no triénio 2005-2008 e tem-se afirmado, enquanto presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, como uma voz de referência no combate à pobreza e na luta contra as desigualdades sociais, agravadas pela crise financeira.
Atendendo, uma vez mais, à tradição histórica, o caminho de D. Carlos Azevedo na sucessão a D. José Policarpo terá ficado livre em 2007, com a nomeação de D. Manuel Clemente para bispo do Porto.
Mas, apesar de liderar uma das grandes dioceses do País, consideradas, como Lisboa, Braga, Évora ou Coimbra, como fim de linha, o nome do agora prelado portuense continua a ser um dos mais referidos como provável sucessor de D. José Policarpo. E com mais insistência depois do Prémio Pessoa ganho no ano passado. Natural de Torres Vedras, só foi ordenado padre aos 32 anos, uma vez que, quando entrou para o seminário, já era licenciado em História. Começou mais tarde, é certo, mas a ascensão foi quase meteórica. Doutorou-se em Teologia Histórica em 1992 e foi nomeado bispo auxiliar de Lisboa em 1999. Tem 63 anos, é considerado um dos grandes intelectuais da Igreja Portuguesa e lidera uma das maiores dioceses do País, pelo que se trata de um nome a ter em conta.
Sabendo-se que a Nunciatura Apostólica há-de enviar para a Via da Conciliazione, em Roma, três nomes, as vozes que vão abordando a temática não têm dúvidas de que no envelope diplomático seguirá o nome de D. António Marto, bispo de Leiria- Fátima.
Nascido em Chaves em 1947 (tem 63 anos), cedo se revelou um estudante de excepção, pelo que foi mandado para Roma (onde se ordenou sacerdote) quando era ainda seminarista. Estudou seis anos na Pontifícia Universidade Gregoriana, onde se doutorou em Teologia Sistemática. Nesse período foi aluno do então cardeal Joseph Ratzinger, cimentando uma amizade com o actual Papa Bento XVI que ainda hoje se mantém.
No ano 2000 foi nomeado bispo auxiliar de Braga e, em 2004, bispo titular da diocese de Viseu, onde permaneceu apenas dois anos. É que, menos de um ano depois de ter tomado posse da Cátedra de S. Pedro, Bento XVI nomeou-o bispo de Leiria-Fátima, uma diocese de enorme importância estratégica para a Igreja. Há quem assegure que a surpreendente colocação de D. António Marto em Fátima aconteceu por indicação do próprio Papa, conhecedor das qualidades ao seu antigo aluno.
Finalmente, há que ter em conta o facto de estar marcada, para o início de Maio próximo, a eleição do próximo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, com a contagem de espingardas a ser feita, tudo indica, precisamente entre D. Manuel Clemente e D. António Marto. O que sair vitorioso pode somar pontos na corrida à sucessão de D. José Policarpo. Mas será uma corrida de fundo, com meta a muito longo prazo.
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