Uma morte executada ao segundo
A mulher tem medo do elevador e subiu a pé. Paulo Cruz chegou a casa segundos antes e foi apanhado: morto à pancada e arrastado pelo chão. Teresa nada viu nem ouviu. A Judiciária investiga.
A elegância dos saltos no soalho de madeira corta o silêncio na escadaria e abafa os dois golpes fatais no andar por cima. O medo de estar fechada leva Teresa a subir a pé. Fixa pela última vez o olhar no marido à entrada do elevador. Por segundos. Paulo Cruz chega ao 3º direito e já a mulher se faz na sua passada ao segundo piso. Vê “um vulto a passar” e não ouve o correr das grades, últimos passos, meter a chave à porta, uma voz, socorro. Nada. “Só o som parecido ao de um móvel arrastado”, garantiu aos inspectores da Polícia Judiciária (PJ). “Talvez não gritasse só para me proteger, afinal ele sabia que eu estava a subir”, acredita. E enquanto bate com a mão e o joelho na porta da casa alugada pelo casal no coração de Lisboa, na tarde do último dia 20, sábado, já o empresário de 45 anos tem um saco enfiado na cabeça. Foi assassinado à pancada do lado de dentro do apartamento. Em silêncio.
A Domingo entrou no prédio da Avenida António Augusto de Aguiar, subiu ao terceiro andar a pé e de escadas – e sabe que, enquanto Paulo demorou 28 segundos do rés-do-chão até à porta de casa, Teresa Cruz precisaria de um minuto e 14 segundos para subir os 79 degraus até ao terceiro andar. Mas, carregada de folhas, diz ter demorado mais algum tempo. Ou seja, quem enfiou um saco de plástico na cabeça do empresário agrícola, atado com um fio eléctrico – e lhe deu dois golpes fatais no crânio com um objecto contundente, teve menos de um minuto para o fazer sem que a mulher reparasse.
“O meu marido tinha quase 1,90 metros e grande estrutura física. Seria impossível que ele não resistisse”, diz-nos Teresa Cruz, 46 anos, frequentadora de festas do social. Diz não ter ouvido gritos – e, no relatório da autópsia, também consta a utilização de um spray contra o rosto de Paulo Cruz. Só que “os sprays normalmente utilizados, gás pimenta, por exemplo, causam irritação na pele e nos olhos – mas não adormecem as pessoas”, garante fonte policial. Teresa não sabe quem matou ou mandou matar o seu marido, nem tão pouco porque o fizeram, mas ainda acredita que “ele estava no sítio errado à hora errada”. E lança à Domingo a hipótese de ser “alguém que se estivesse a servir da casa [que não visitavam há seis meses: viviam num condomínio fechado no Lumiar] e ele tenha surpreendido”. Só que tanto essa hipótese como a de assalto já a PJ terá afastado, uma vez que dentro do apartamento não foram encontrados objectos pessoais – e, além de um velho sofá na sala, nada mais haveria para roubar além de materiais de construção.
O casal pouco tinha a fazer naquela casa. Teresa pensava mudar-se para ali um dia, mas as remodelações que queria fazer estavam embargadas pelo senhorio a pedido do vizinho de baixo – que pede uma indemnização de milhares de euros por garantir que as obras lhe “destruiram a casa”.
Teresa e Paulo Cruz chegaram juntos pouco passava das 17h00 e seguiram caminhos diferentes para o 3º andar – Teresa sofre de claustrofobia há cinco anos, altura em que teve um acidente de automóvel com o marido, no Alentejo, e perdeu a mão esquerda. Mas o facto de não visitarem aquele apartamento há seis meses aponta para crime premeditado. E os próprios assassinos, ou quem encomendou a morte do empresário, conheciam os passos do casal. Ou só estava prevista a chegada de Paulo, ou estão a par da fobia da sua mulher e atacaram em poucos segundos para não a envolverem – ou foi o medo de estar fechada no elevador que a salvou da morte.
Teresa desce ao rés-do-chão mal a luz se apaga e procura o marido dentro do carro e nas traseiras do prédio, de acesso às escadas de serviço, em plena Avenida Sidónio Pais. Nada. Regressa à entrada principal do prédio, o número 11, e esbarra com dois homens junto à porta de ferro, “um branco e outro negro”, o primeiro a entrar e o segundo a sair. Mas não quer levantar “falsas suspeitas”. E logo a seguir encontra Virgínia Francisco, 82 anos, porteira do prédio há mais de 60. “Perguntou-me se tinha a chave do 3º direito. Não tinha, e fomos lá acima bater. Ninguém abriu e descemos” – quando Teresa marca o 112. Chegam os bombeiros, lançam a auto-escada pela fachada do prédio e partem um vidro para entrar. Abrem a porta por dentro à PSP, mas antes deparam-se com o cadáver estendido entre o corredor e a cozinha. Já não deixam a viúva ver o corpo do marido e pouco depois chega a Brigada de Homicídios da Polícia Judiciária, em quem Teresa diz ter toda a confiança. “Os inspectores não voltaram a falar comigo, mas acredito e tenho esperança na Polícia portuguesa, uma das melhores do mundo em investigação criminal”. A PJ mantém todas as hipóteses em aberto – e “nenhuma possibilidade é excluída nestes casos”, avisa fonte policial.
Teresa Cruz mantém a casa onde vivia com o marido e o filho de sete anos, no condomínio ‘Jardins do Lumiar’, em Lisboa, mas adianta que, agora, a sua vida “vai ser muito mais complicada financeiramente”. Foi bancária 20 anos mas reformou-se após o grave acidente que sofreu – o seu elevado nível de vida dependia muito de Paulo Cruz. E o engenheiro agrónomo seria, de facto, um homem “empreendedor” e “extremamente ambicioso”, como é recordado à Domingo por pessoas que com ele privaram ao longo dos anos – sucesso que lhe foi valeu “alguns anticorpos”.
A socialite nega que o marido tivesse dívidas ou inimigos, pelo menos que ela soubesse, mas sempre vai adiantando que, “numa empresa com 200 pessoas como a Campotec, é normal que criasse inimizades e certas pessoas não gostassem dele”. Paulo era há dez anos accionista e administrador da empresa de distribuição e exportação hortícola, sedeada em Torres Vedras, onde o caracterizam mais pela sua “frieza e distância”. Horácio Ferreira, da ANOP, a associação de agricultores a que Paulo Cruz presidia, prefere ressalvar apenas o “normal relacionamento” profissional. Mas o alerta para as dívidas do empresário chegou logo no início da semana passada, com a actual moradora da sua anterior casa, em Carnaxide, a acenar à reportagem do Correio da Manhã com um dossier repleto de cobranças, que lhe chegam desde 1997. “Não sei nem quero saber no que ele andava metido”, disse uma jovem que durante anos não teve descanso. Recorda todas as pessoas que lhe bateram à porta por causa dos negócios de Paulo Cruz – e só quer agora esquecer o inferno que passou “por ter comprado aquela casa”.
Teresa diz que pode não saber tudo o que diga respeito ao primeiro casamento do marido, admite que “essa senhora até pode ter recebido uns postais das Finanças” e confirma que o apartamento de Carnaxide servia de sede a uma empresa de Paulo Cruz. Só nega as várias acusações de “dívidas em lojas” e de viver de “esquemas com cheques pré-datados” que lhe são feitas por fontes próximas contactadas pela Domingo. E defende-se como sendo “uma pessoa com as suas dificuldades, mas íntegra, que acaba de perder o marido”.
A socialite, que durante anos foi vista em festas e outros eventos ao lado de rostos conhecidos como José Castelo Branco ou os cabeleireiros Duarte Menezes e João Chaves, garante que era “muito apaixonada e feliz” com o empresário. Econtraria assim os testemunhos que davam o fim do seu casamento como “certo” e para breve – uma vez que o marido “tinha a clara intenção de se divorciar”.
Teresa Cruz defende o seu casamento e não alimenta “calúnias”. O marido adorava jogar à bola com o filho de sete anos no jardim da casa de férias em Alvor, no Algarve – e era “um homem de família”. Benfiquista ferrenho, formou-se em engenharia pelo Instituto Superior de Agronomia e vivia do campo, à volta do qual giravam a maior parte dos seus negócios. Paulo Cruz era “um excelente pianista”, confidencia a mulher, e tinha encontro marcado com os amigos uma vez por semana. O grupo entretinha-se entre um jantar com provas de vinho e horas seguidas de música, quase sempre na garagem de um deles. Era sempre às quartas-feiras, o mesmo dia em que teve lugar o seu funeral.
As primeiras 24 horas a seguir ao crime “são decisivas para a investigação”, diz-nos o criminologista e antigo agente da PJ Francisco Moita Flores. “Na recolha de vestígios e pelos primeiros depoimentos. É muito importante observar as reacções ao choque inicial, porque, à partida, a morte tem efeito devastador”. A PJ já está a trabalhar com base em suspeitas. Sobre os executantes, que fugiram escadas abaixo sem deixar rasto – mas, sobretudo, e o mandante.
CAMPOTEC: PIONEIRISMO NO OESTE
Com 98 associados e mais de 90 trabalhadores, a Campotec – Comercialização e Consultadoria de Hortofrutícolas, SA –, a 15 km de Torres Vedras, dedica-se desde 1994 ao comércio de fruta, batata, legumes e produtos de quarta gama (embalados, lavados e prontos a consumir). Com uma área total de 20 mil m2, destaca-se na conserva e labora de pêra rocha, comercializando 25 mil toneladas de produtos.
Em 2004, a administração de Paulo Cruz, José Burnay, Luís Trindade e Jorge Soares, recebeu a visita do então ministro da Agricultura, Costa Neves e da sua homóloga alemã que a considerou “um bom exemplo”, apesar das críticas devido a descargas ilegais.
MULHER DA VÍTIMA COM VIDA INTENSA
Teresa Pereira da Cruz é uma habitué nos cabeleireiros lisboetas de João Chaves e Duarte Menezes, de quem é amiga, e presença em vários eventos sociais da capital. É considerada “muito simpática e amável”, apesar de se “esforçar por não dar muito nas vistas”. Dizem-nos que “era raro aparecer com o marido” e nas noites de Lisboa também não é muito “dada a festas” – com excepção das organizadas por José Castelo Branco, às quais “fazia questão de não faltar”. E o próprio confirma que Paulo Chaves, inclusive, foi “duas ou três” vezes jantar a sua casa com a mulher. E tudo porque José Castelo Branco é “muito amigo do enteado dele”, José David, de 20 anos, filho do primeiro casamento de Teresa. Recorda “um senhor muito simpático e educado” que “já não via há quase três anos”. E a mulher, adianta Castelo Branco, “é uma grande amiga”, embora ressalve que não têm “muita intimidade”. E no último dia 24 de Janeiro, quarta-feira, fez questão de marcar presença no funeral do empresário.
Castelo Branco e José David conheceram-se “há mais de quatro anos num desfile de moda em Paris, tinha ele 16”, e o filho mais velho de Teresa Cruz é hoje estagiário na revista ‘Vogue’ norte-americana, em Nova Iorque. E foi aí que a família Cruz se reuniu no último Natal, também com a presença do filho comum de Paulo e Teresa, com apenas sete anos, aluno do Colégio Planalto, em Lisboa. A representação da marca de velas ‘Keneth Turner’ em Portugal foi um dos negócios do casal nos últimos anos, até que Paulo Cruz “desistiu” e Teresa foi para Nova Iorque com o filho mais velho. É conhecida a forte relação que mantém com David, ao ponto de terem amigos em comum: o jovem de 20 anos já foi por mais de uma vez visto em público a passear os cães do cabeleireiro.
Teresa Pereira da Cruz voltou dos Estados Unidos para a pacata vida familiar no condomínio ‘Jardins do Lumiar’, em Lisboa, onde garante que mantinha uma relação “perfeitamente normal com o marido”. E é aí que depois da brutal morte do empresário, no último dia 20, quarta-feira, continua a viver com o filho mais novo.
PERCURSO DE PAULO E TERESA DESDE QUE CHEGARAM AO PRÉDIO ATÉ À MORTE DO EMPRESÁRIO:
1 - ESTACIONAMENTO
O número 11 da avenida tem cinco andares, entre habitações, uma revista e escritórios de advogados. O entra e sai é constante e a porta da rua está sempre aberta. Paulo e Teresa Cruz passam a entrada juntos e só se separam no hall do prédio, também com entrada para a casa da porteira, Virgínia Francisco.
2 - ENTRADA
O empresário Paulo Cruz e a mulher, Teresa, estacionam o carro na Avenida António Augusto de Aguiar, pelas 17h00 de 20 de Janeiro. Seis meses depois estão de visita à casa que alugaram por cerca de dois mil euros por mês, mas que está vazia e as obras paradas. Por imposição do vizinho de baixo.
3 - PAULO CRUZ DEMOROU 28S. DE ELEVADOR
Teresa Cruz vê pela última vez o marido à entrada do elevador, antes de este correr as grades, deixar a porta fechar e marcar o terceiro andar. Paulo sobe sozinho. São 28 segundos até ao elevador parar. O empresário corre novamente as grades e prepara-se para abrir a porta de casa enquanto espera pela mulher.
4 - TERESA CRUZ DEMOROU 1M.14S. PELAS ESCADAS
Teresa sofre de claustrofobia, medo de estar fechada, e não anda de elevador. Só com a porteira, que leva uma chave especial e pode abrir a porta por dentro em caso de emergência. Sobe a pé os 79 degraus de madeira e não deve demorar mais de um minuto e 14 segundos. Não ouve quaisquer barulhos pelo caminho.
5 - O CRIME
Paulo Cruz sai do elevador e resta a dúvida se foi logo atacado ou se o esperavam dentro de casa, quando meteu a chave à porta. Enquanto a mulher subia as escadas, enfiaram-lhe um saco de plástico na cabeça e espancaram-no até à morte, com vários golpes na cabeça.
6 - A FUGA
Quem matou o empresário terá depois fugido pelas escadas de serviço do prédio, de acesso à Avenida Sidónio Pais. É uma escada estreita de mármore, com 61 degraus, que permite uma saída discreta e sem confrontos com a mulher da vítima ou outros moradores.
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