Uma revolução à civil

A Domingo juntou os aspirantes que saíram de Santarém para abrir caminho a Salgueiro Maia

22 de abril de 2012 às 15:00
Uma revolução à civil Foto: Mariline Alves
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Raiava a manhã em Lisboa quando, ali para os lados do Campo Grande, um carro civil parou ao lado do Ford Escort branco onde seguiam três militares sem farda. Aproveitando o sinal vermelho, o condutor abeirou--se dos três e disse-lhes: "Não se metam por aí que parece que andam uns militares aos tiros."

Depois reparou que no banco de trás seguia um homem com um rádio enorme, e uma não mais pequena antena a sair pela janela. "Ficou tão assustado que se enfiou no carro e acelerou dali para fora, passou o vermelho e nunca mais o vimos", lembra João Mota de Oliveira, um dos três ocupantes do veículo. A aventura que partilhou com os então aspirantes Augusto Calado de Oliveira e António Laranjeira estava prestes a conhecer um glorioso epílogo – a paragem seguinte foi o Terreiro do Paço, onde o Ford abriu caminho à coluna militar que o capitão Salgueiro Maia trazia de Santarém. Naquela manhã de 25 de Abril de 1974, a revolução estava na rua.

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ÀS ESCONDIDAS DA PIDE

Foi por serem os dois primeiros classificados do curso de Cavalaria que os aspirantes milicianos João Mota de Oliveira e Augusto Calado de Oliveira estavam na Escola Prática de Cavalaria de Santarém em Abril de 1974. "Todos os camaradas tinham sido mobilizados para a guerra, nós seríamos os próximos", lembra Augusto, que era adjunto do comando da unidade de Cavalaria e trabalhava no gabinete do capitão Salgueiro Maia.

Desde a tentativa de golpe de 16 de Março – em que os militares revoltosos falharam o ataque a Lisboa a partir das Caldas da Rainha – que se sabia que algo estaria para acontecer.

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Mas os dois colegas de curso e de unidade só foram avisados por Salgueiro Maia de qual seria a tarefa a cumprir por volta de 23 de Abril. "A nossa missão era sair de Santarém à frente da coluna militar e passar à porta das unidades que ficavam no caminho. Levávamos um rádio para comunicar algum movimento hostil. Se houvesse problema, as ordens que tínhamos era para avisarmos a coluna e acelerarmos dali para fora", lembra Calado de Oliveira.

Combinaram que iam vestidos à civil, no carro pessoal do capitão Assunção, um Ford Escort branco. "Na véspera, municiámos o carro. Além do rádio tínhamos granadas, pistolas e uma metralhadora UZI", conta Mota Oliveira.

HESITAÇÃO NAS PORTAGENS

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Quando os Emissores Associados de Lisboa passaram a canção ‘E depois do Adeus’, de Paulo de Carvalho, às 22h55 – a primeira senha que sinalizava o início da ‘Operação Fim do Regime’, os militares estavam fora do quartel: "Tínhamos instruções para sair, porque a PIDE ia desconfiar se houvesse muita gente na EPC", explica Calado de Oliveira. Às 00h20, a Rádio Renascença emite ‘Grândola, Vila Morena’, de Zeca Afonso. O golpe era imparável.

Perto das 03h, os três militares entram na Escola Prática de Cavalaria, vestidos à civil. Saem pouco depois no carro de Calado de Oliveira. "Ainda falámos com os ‘pides’ à saída. Não desconfiaram de nada", conta Laranjeira. Os três ‘batedores’ foram buscar o Escort ao Vale da Asseca e fizeram-se ao caminho, em direcção a Lisboa. Mota Oliveira agarrava-se ao rádio e as comunicações constantes não davam tempo para grandes conversas entre os três. Mas havia boa disposição: "Como o carro só tinha duas portas, dissemos ao Mota que se houvesse problema nós fugíamos e ele ficava preso no banco de trás", lembra Augusto. Nas portagens de Sacavém houve uma hesitação: os sinais das portagens ficaram vermelhos. Estava um funcionário numa passagem de serviço a fazer-lhes sinal. Ouviram a recomendação do portageiro: "Pirem-se daqui depressa que vem aí uma coluna militar."

LISBOA PELA MADRUGADA

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Chegaram a Lisboa pelas 05h30. Já com a coluna colada a eles, conduziram até ao Terreiro do Paço. Durante aquele longo dia, João e Augusto desdobraram-se em viagens pela cidade, mas ainda conseguiram ir a casa dos pais, avisar da revolução. Ao fim do dia, os três voltaram a Santarém no mesmo Ford Escort. Intacto, para alívio do capitão Assunção.


ESTAVA ‘TUDO NORMAL’ NO ÚLTIMO DIA DO ESTADO NOVO

A 24 de Abril de 1974 o Sporting jogava em Magdeburgo, na RDA, para a Taça das Taças. O encontro estava marcado para as 18h00, com transmissão na RTP, e os jornais da época anunciavam que "em caso de vitória cada sportinguista receberá 35 contos".

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O dia foi tão normal que passou despercebido a quem o viveu. Naquela quarta-feira, Miguel Caetano tinha 38 anos. Levantou-se, não muito cedo, saiu de casa para o trabalho, "como sempre". Licenciado em Direito, casado e pai de oito rapazes, exercia profissão liberal "para manter a independência" face à figura do Pai, Marcelo Caetano, o último presidente do Conselho.

"Foi um dia normal, fui trabalhar, não me lembro onde almocei, e depois fui para casa jantar. Morava na avenida Rainha Dona Amélia, no Lumiar, uma zona nova da cidade de Lisboa. Nessa altura trabalhava em profissão liberal, era técnico de planeamento e estava a fazer dois trabalhos grandes, integrava uma equipa que fazia a revisão do plano director da área metropolitana de Lisboa e outra que tratava do planeamento turístico da serra da Estrela. Tudo isso acabou."

Os jornais dessa quarta-feira noticiavam que o Conselho de Ministros iniciara "o estudo de providências sobre a situação do funcionalismo" e seguiam atentamente a campanha eleitoral em França, disputada por Giscard D’Estaing e Mitterrand. Nessa noite, o Teatro Nacional de São Carlos, na capital, recebia, às 21h15, a ópera ‘La Traviata’; no Teatro Maria Vitória, às 20h45 e às 23h00, Salvador, Ivone Silva e Mariema levavam à cena a revista ‘Ver, ouvir e – calar!...’ e para o cinema Tivoli estava anunciada a exibição do filme ‘A Golpada’, com Paul Newman e Robert Redford. Os anúncios de emprego pediam "cozinheiras para casa de categoria em Cascais".

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SERÕES EM FAMÍLIA

Marcelo Caetano era um homem de família. Viúvo, mantinha ligação estreita com os quatro filhos, três homens e uma mulher. Tentava demarcar-se da figura celibatária do seu antecessor António de Oliveira Salazar, posando para as revistas da época na casa de Verão, no Linhó, ao lado dos muitos netos. Por viver ainda em casa do pai, Ana Maria Caetano, a filha mais nova do último líder do Estado Novo, assumia o papel de primeira-dama. Durante a doença da mãe, Teresa de Barros, passou a acompanhar o pai em actos oficiais. Com a morte da progenitora, o papel continuou, naturalmente. "Nunca substituí a minha mãe, mas quando era preciso uma figura feminina eu ia. Fiz isso com muito gosto e aprendi imenso, conheci pessoas interessantíssimas", admite hoje.

A 24 de Abril de 1974, Ana Maria Caetano, então com 36 anos, viveu sem registo o dia que marcou o fim de uma época. "Fui trabalhar, tinha já o colégio [Grão Vasco] e era terapeuta da fala no Estado, no Centro de Saúde Infantil. E a minha vida nesse dia foi normal."

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Nessa data estava programada uma visita do chefe de Estado à freguesia de Chãos do concelho de Ferreira do Zêzere e " a TAP inaugurava dois computadores que passavam a fazer as reservas dos bilhetes".

Enquanto isso, pela calada, nesse 24 de Abril de 1974, um grupo de militares comandados por Otelo Saraiva de Carvalho instalava secretamente o posto de comando do movimento golpista no quartel da Pontinha, em Lisboa. Ao final da tarde, os portugueses assistiam à derrota (por 1-2) do Sporting frente ao Magdeburgo. E, em casa, Ana Maria Caetano jantava com o pai e as duas tias solteiras que também moravam na vivenda da rua Duarte Lobo, em Alvalade. Uma troca de palavras e sessões de leitura aconchegavam o serão da família Caetano.

AS SENHAS DE ABRIL

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Entretanto, à 22h55 é transmitida a canção ‘E Depois do Adeus’, na voz de Paulo de Carvalho, pelos Emissores Associados de Lisboa. Estava dado o primeiro sinal para a tomada de posições das tropas que preparavam a primeira fase do golpe de estado. Às 00h20, quem saiu da ópera no Teatro S. Carlos e seguiu de táxi pela cidade estranhou ouvir ‘Grândola, Vila Morena’, a canção proibida de José Afonso, no programa ‘Limite’ da Rádio Renascença. Mas com essa segunda senha no ar iniciavam-se as operações militares que iriam derrubar o regime e alterar a História do País.

Ana Maria Caetano recorda ao pormenor as horas da mudança. "Tinha recebido um primeiro telefonema que passei ao meu pai. Ouvi as motas, apercebi-me de o meu pai ter saído. Mas como quando foi o golpe das Caldas [a 16 de Março] ele também saiu e depois voltou, não fiquei preocupada".

A revolução não foi surpresa num país marcado pela ditadura e pela guerra de África. "Sabíamos que as coisas não estavam bem desde esse tempo. Mas o meu pai tinha uma maneira de estar que herdei. Não nos assustamos, não fazemos alarido de coisas que podem vir a acontecer, não sofremos de antemão. Quando foi o golpe das Caldas ouvi que ele saiu, mas só pensava ‘tenho de ir dormir porque amanhã vou trabalhar’ e a minha ideia foi sempre essa. De manhã fui para o meu trabalho e quando voltei ele estava no escritório."

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OS TELEFONEMAS

Na noite de 24 para 25 de Abril foi diferente. Dias antes, em conversa informal, a mulher do ministro Silva Cunha dava um recado a Ana Maria. "‘Diga ao pai que está tudo bem, que temos tudo controlado’. Não estava", recorda a terapeuta.

Na casa de Alvalade "havia uma central telefónica, que à noite, para não se incomodar ninguém, ficava ligada para o meu quarto", conta a filha de Marcelo Caetano. "E recebi o telefonema de um ministro, que perguntou se o meu pai estava em casa. Eu não sabia, mas fui ver. Liguei para os vários sítios onde ele podia encontrar-se, o quarto, a biblioteca, o escritório. Ele não respondeu, achei esquisito, levantei-me e fui ver que não estava em casa. Perguntei o que se passava e o tal ministro mandou-me ouvir as notícias na rádio."

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A partir daí choveram os telefonemas. Os irmãos mais velhos vão ao encontro de Ana.

Miguel Caetano, que na juventude integrara associações estudantis e era simpatizante de políticas distintas das do pai, soube das notícias por um amigo. "Telefonaram-me a avisar do que se estava a passar. Disseram-me que havia um golpe na rua, que o meu pai estava no Carmo, fui imediatamente ligar a telefonia. Só voltei a ver o meu pai duas vezes, foi nesse Verão de 74, já no Brasil, eum ano antes dele morrer, em 1980."


LICENÇA DE TRÊS DIAS DE FÉRIAS ENCOBRIA ACÇÃO DOS REVOLTOSOS

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João Mota de Oliveira guarda o documento que lhe servia de álibi naquela madrugada. Para precaver a intercepção por forças hostis, aos três militares foram passadas licenças de férias em Lisboa. O documento revela bem a mentalidade da época: a licença proibia os militares de frequentar zonas como o Bairro Alto, a Mouraria ou o Intendente, tidas como zonas de boémia.

ORFEU REEDITA TEMAS DE ZECA AFONSO

Desde dia 9 de Abril, a editora Orfeu está a lançar a reedição da obra de José Afonso, cantor que deu voz à segunda senha da revolução de Abril. Foi ao som de ‘Grândola, Vila Morena’ que, a 25 de Abril de 1974, as tropas portuguesas receberam ordem para avançar e os sons da revolução voltam agora em 11 reedições, com restauro sonoro e remasterização digital a 24 bits.

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Os dois primeiros CD desta colecção, ‘Cantares do andarilho’ (original de 1968) e ‘Contos velhos, rumos novos’ (1969), estão já no mercado. Na segunda quinzena de Maio sairão ‘Traz outro amigo também’ (1970), ‘Cantigas do Maio’ (1971) – que inclui o tema ‘Grândola, Vila Morena’ e ‘Eu vou ser como a toupeira’ (1972).

Em Outubro, a Orfeu vai ainda reeditar ‘Venham mais cinco’ (1973), ‘Coro dos tribunais’ (1974) e ‘Com as minhas tamanquinhas’ (1976). Em 2013 serão editados os últimos três CD: ‘Enquanto há força’ (1978), ‘Fura fura’ (1979) e ‘Fados de Coimbra’ (1981).

NOTAS

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POLÍCIA

Calado de Oliveira ingressou na PJ. Chegou a chefiar a PJ de Setúbal. Tem 59 anos e está reformado.

TÉCNICO

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João Mota de Oliveira é técnico do Instituto Tecnológico e Militar. Tem 59 anos e está ainda no activo.

EMPRESÁRIO

Aos 62 anos, António Laranjeira dirige uma empresa de prestação de serviços criada por si. Vive e trabalha em Lisboa.

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PERCURSO

O Ford Escort abriu caminho à coluna de Salgueiro Maia desde Santarém até ao Terreiro do Paço e depois ao largo do Carmo.

O LIVRO

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Em Fevereiro de 1974, Spínola, vice-chefe das Forças Armadas, lança o livro ‘Portugal e o Futuro’.

DEMISSÃO

A defesa de uma Comunidade de Estados em África leva à suspensão de Spínola e do general Costa Gomes.

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GOLPE

A 16 de Março falha o golpe das Caldas: sem apoios, o movimento do Regimento das Caldas da Rainha volta para o quartel.

CONVERSA

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A 28 de Março, Marcelo Caetano, na sua última ‘Conversa em Família’, na RTP, subestima o sucedido nas Caldas.

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