Uma rosa com espinhos
O atual presidente do governo regional tem 55 anos e o cultivo das rosas tem-lhe saído melhor do que a política. Depois da câmara do Funchal, na qual o seu sucessor terá encontrado uma dívida superior a 100 milhões, viu-se agora chamuscado pelo “excesso de optimismo” na gestão do incêndio na Madeira. Pelo caminho, ainda um plano de pagamento de dívidas à segurança social, mas não só.
A campanha eleitoral que lhe pôs à frente a bandeja da Madeira, herdada de Alberto João Jardim, as velhinhas suspiravam por aquele homem que com barba parecia ser Jesus Cristo. Agora saiu crucificado do incêndio que fustigou a ilha. Os críticos disseram que preferiu ser orgulhosamente só, ao invés de tocar a rebate e pedir ajuda.
O que se pode dizer de Miguel Albuquerque, 55 anos, é que antes da política teve sempre jeito para as rosas. Aquelas com espinhos e as outras que, supostamente, não terão mas acabam, eventualmente, por picar. O dono da Quinta do Arco, onde estão milhares de rosas, algumas premiadas, fez três casamentos. Três rosas que lhe deram seis filhos: três deles adoptados. A primeira é sueca, a segunda durou 1 4 anos e é arquiteta; era vereadora do PS, quando ele foi eleito presidente da câmara pela primeira vez, e cuidava-lhe da ‘imagem’. A terceira e atual trabalhava num centro de idosos da câmara: "À terceira é de vez", brinca um amigo. Sorte com as rosas, ou melhor, com as raparigas giras, nunca lhe faltou. É um adepto moderado do clube Nacional. Antes de agarrar a bola da presidência, jogou ténis todos os dias. Possui pontaria e olho forte para praticar o que tanto gosta: caça desportiva. Nos estudos, não viu a raposa porque a sua memória admirável o salvou. Bom aluno, embora irrequieto, completou a primária no Colégio Lisbonense e o secundário no Liceu Jaime Moniz. A amizade entre o deputado social– -democrata Adolfo Brazão e o 3º presidente do Governo Regional da Madeira intensificou-se na época académica quando, entre 1979 e 1984, ambos frequentavam o curso de Direito da Universidade Livre, em Lisboa. Nesta fase, o desassossego estava domado: "Era um dos melhores alunos. Possuía uma grande capacidade de estudo."
Em Lisboa, evidentemente, não só se estudava. Havia farra e, claro, festas. Miguel Albuquerque vivia na casa da mãe, nos Olivais Sul. Os pais haviam-se divorciado ainda os filhos eram crianças. A mãe ainda reside em Londres e o pai morreu em Madrid, em 2014, depois de viver na Venezuela.
Miguel Albuquerque veio ao Mundo em berço de ouro. Frequentou colégios particulares até ao secundário. Cresceu em casas grandes - as Quintas Madeirenses -, com bananais e muitos animais, no centro do Funchal. Aos fins-–de-semana, por vezes, ficava com os avós paternos também na Quinta Olinda, onde havia um quarto de armas usado pelo avô paterno, apaixonado da caça, um salão de jogos, campo de badmington, campo de croquet e cavalariças.
Os avós maternos habitavam noutra quinta, e também tiveram forte influência na educação dos rapazes Albuquerque. O avô, o tenente Francisco Ernesto Machado, esteve conexo à revolta da Madeira, em 1931, contra Salazar.
A boa vida a que a maioria da rapaziada não vira a cara seria refreada pela avó Vera, que proporcionou aos netos uma educação esmerada. Chamado pelo irmão Francisco de "mano", apesar de ser protector "tentava fazer-me partidas". "Foi sempre muito determinado, pois quando se empenhava em algo lutava por ser sempre o melhor. Prova disso, quando se tornou nadador bateu inúmeros recordes, com sacrifícios de treinar duas vezes por dia às 6h da manhã e à tarde em água gelada por vezes". E Francisco prossegue: "É a falta de paciência para alguns assuntos mundanos, sobretudo quando o tema é o de dizer mal de alguém, assim como o enorme respeito pela diferença e pela vida privada das pessoas".
As dívidas
Algarve e Porto Santo são os destinos favoritos do presidente. As viagens para o estrangeiro bastam-lhe as de Estado. Nacionalista de coração, gosta de comida italiana, é tido como leal e sincero, antipatiza com burocracias, deseja que os assuntos sejam despachados de forma rápida. Impaciente, e muito. Se o assunto tem o azar de se desviar da direcção que Miguel Albuquerque projectara, não faz cerimónia e, quem não ‘aguenta a bebida’, dá sóbrio valentes gritos a quem quer que se seja. É teimoso. Da direcção do grupo parlamentar social-democrata, reforça Jaime Filipe Ramos: "É muito teimoso. Para aquilo que acredita tem a teimosia necessária". E tem algo que lhe oferta popularidade: "Uma boa identificação com o dia-a-–dia da população. Sabe dialogar e ouvir". E sabe nadar, Miguel Albuquerque. E como sabe. Aos 15 anos sagrou-se campeão da Madeira na modalidade de natação crawl. Fora de água, há o piano, que toca desde novo: "Tínhamos um em casa e sempre ouvimos muita música. A nossa mãe vivia em Londres e enviava-nos sempre os LP’s com os ‘Top of the Pops’ de cada mês. Tentava-mos imitar essas músicas no piano", lembra o irmão, Francisco Albuquerque, enólogo de notoriedade internacional. Miguel Albuquerque chegou a integrar uma banda que se juntava em bares e hotéis funchalenses.
Márcio Nóbrega, proprietário do Scat Funchal Music Club, convidou, em tempos, ‘Velhos Hotéis’ para actuar: "Uma boa banda, e tal como acontece com todas as bandas que vêm ao Scat, a casa encheu". O reportório musical, como nos faz saber Luís Nunes, guitarra-baixo do grupo, concentra-se "essencialmente na música portuguesa e na música popular brasileira. Também algum gosto pelo jazz... E standards...".
Mas, desde que Miguel Albuquerque começou a campanha eleitoral, nunca mais, sequer, houve um ensaio. As notas musicais durante os 19 anos em que chefiou a Câmara Municipal do Funchal mudaram de tom - terá deixado uma dívida de 100 milhões, segundo o seu sucessor.
Quadro do PSD que remonta à Juventude Social– -Democrata, liderou a JSD– Madeira, na década de 80, na mesmíssima altura em que Pedro Passos Coelho era líder nacional da Jota. Apoiou Mário Soares e disse não a Freitas do Amaral nas benditas eleições de 1986. Alberto João Jardim reprovou tal atitude. Teria ainda hipóteses de reprovar outras posições: em Novembro de 2012, Miguel Albuquerque perdeu por escassos votos para Jardim, que nunca lhe absolveu a ofensa. A desarmonia entre os dois já acontecera com o apoio que dera ao amigo Pedro Passos Coelho à liderança do partido, contrariando a estima de Jardim por Paulo Rangel.
O jardim do homem nascido no Funchal no quarto dia de Maio de 1961 dispõe de outra dimensão. São rosas, senhores. Miguel Filipe Machado de Albuquerque é membro da Royal National Rose Society, da The World Federation of Rose Societies e da American Rose Society. Está ligado a um roseiral na freguesia do Arco de São Jorge, no norte da ilha, onde vive uma colecção com cerca de 17 mil roseiras de mais de 1700 espécies (o quarto maior roseiral da Europa).
E são as rosas que o endividam – as duas sociedades da Quinta do Arco, onde está o famoso roseiral e que inclui uma unidade hoteleira, tiveram definido um plano de pagamento das dívidas, admitiu já o próprio.
Foi o deputado José Manuel Coelho que levantou a lebre em Julho de 2015, na Assembleia Legislativa da Madeira, quando questionou Albuquerque sobre dívidas de 117 mil euros à Segurança Social, 45 mil euros à Empresa da Electricidade e 215 mil euros ao Fundo do Turismo. Albuquerque escudou-se então em facto indesmentível mas que, porém, lhe era completamente alheio. Dívida maior tinha a Madeira. "Miguel Albuquerque não é grosseiro como Jardim, deu uma aragem boa à ilha e tornou a Assembleia mais respeitosa", diz um socialista.
Já Guilherme Silva sentou-se na cadeira de deputado pelo Círculo Eleitoral da Madeira de 1987, até Albuquerque subir ao cargo máximo; e ficou de fora. Não faz mal: "Os partidos precisam de renovação. E a sucessão não era fácil: uma liderança forte e longa de Alberto João Jardim. Miguel Albuquerque tem todo o direito de escolher quem bem entender para deputado".
Sobre o presidente já Hélder Spínola, o doutor em Biologia Molecular que em 2014 acabou por ser retirado, e à força, da bancada do Governo Regional, não precisa de investigar o que pensa: "A vida dele é a política. Não é um político de craveira intelectual, embora tente transparecer. Não é um pensador profundo. É mais plástico (no sentido da imagem e de se moldar) do que ideológico".
Da oposição, aterra esta visão: "Miguel Albuquerque não é, digamos, um estadista. É superficial na abordagem do assunto. Que se veja o que aconteceu". Vemos, nos incêndios que fustigaram a Madeira: "Disse que a coisa estava controlada. E não estava". Valha–lhe Cristiano Ronaldo, que depois do incêndio lhe telefonou para lavrar a maior das solidariedades.
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