Uma vida a galope de orelha em orelha

Rui Fernandes monta a cavalo do triunfo que lhe tem sorrido em Espanha. Regressou a Lisboa, ao renovado Campo Pequeno, depois de mais um brilharete na Real Maestranza de Sevilha

21 de maio de 2006 às 00:00
Uma vida a galope de orelha em orelha Foto: Tiago Sousa Dias
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Há uma luz que nunca se apaga. A do quarto 418 do Hotel Colón, em Sevilha, porto de abrigo da ‘afición’ na capital da Andaluzia. Uma candeia para contrariar avessas, que é superstição, ritual, talismã. As lâmpadas ficam acesas como o ambiente de ‘fiesta’, onde só os desfechos oscilam, entre as ‘luces’ do triunfo e o negrume da desdita.

O hábito que antecede a saída rumo à arena faz o cavaleiro. Rui Fernandes. Na última manhã de Abril, a de um domingo, alumiam a parelha de leques, inertes sobre o móvel de entrada, as páginas frescas do ‘La Razón’, o jornal que traz as novas sevilhanas, em plena Feira de Abril, e faz luzir o anel de ouro que nunca se despede do dedo do jovem de 26 anos, uma “oferta de miúdo que já faz parte de mim”.

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O relógio já se adiantou das 10:30 e em menos de hora e meia esperam-no na Real Maestranza – uma das catedrais do toureio mundial – na corrida de ‘rejoneo matinal’, palco exclusivo para cavaleiros lusos e espanhóis, naquele que é um dos últimos cartuchos dos festejos, e de onde saiu em ombros no ano passado.

“Nunca uso roupa interior”, apressa-se a dizer, enrubescido, justificando o assomo à porta da casa de banho já com os calções e as meias brancas enfiadas, suspensos pelo conjunto de ligas. A economia de tempo não contempla constrangimentos adicionais durante a preparação da indumentária especial de corrida. Que o diga o pequeno-almoço, um frugal prato de frutas e um café engolidos num ápice, a custo, tal o afunilamento da garganta pelo nervoso miudinho.

De uma assentada, o tronco perde de vista o nu para envergar uma camisa alva. “Às vezes são cremes ou pretas”, discrimina Rui, com com os olhos azuis raiados de sangue a reclamar mais umas horas entre lençóis e o cabelo louro a agitar entre farripas. De uma assentada, calça as botas pretas adornadas pelas esporas e lança-se numa sequência rápida de alongamentos para aquecer os músculos. A “alma da quadrilha”, nome carinhoso com que a comitiva presenteia o antigo bandarilheiro Antonio Sanchéz, pai da célebre matadora espanhola Cristina Sanchéz, desdobra-se em manobras ágeis. É o líder do grupo numeroso que chegou de Portugal na noite da véspera e de pronto fez transitar para o tampo da mesa da ceia as conversas sobre touros e cavalos. “Cada um fala do que sabe”, é a sentença avisada de quem percebe destas lides.

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Inácio e João Branco, dois aficionados e amigos de Rui, secundam as ajudas. No aposento, exíguo, não há espaço nem serenidade para mais ‘penetras’.

na mesa encostada à parede uma fileira de terços e imagens convocam-no para as orações da praxe. O retrato da Santa da Ladeira centraliza a devoção sobre o altar improvisado onde jazem lembranças da avó e outras oferendas que foi amealhando.

O quarto mergulha no silêncio. “Sou um bocadinho crente, não de frequentar a Igreja, mas temos que acreditar em algo quando arriscamos tanto a nossa vida. Buscamos uma ajuda, protecção”, explica Rui, desentrelaçando as mãos e regressando ao frenesim dos últimos acertos enquanto mira o seu tricórnio. “Só eu é que mexo nele”, explica, beijando o artifício confiado à cabeça dos cavaleiros.

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Sem mais delongas, António veste-lhe a longa casaca verde-petróleo. Duas palmadas vigorosas nos ombros acompanham o derradeiro desejo: “suerte, campéon!”. “As casacas predilectas são as que vão fazendo parte da história do triunfo”, justifica João. Mas a preferida de Rui está em exposição, inacessível. “Já não a visto, era pérola, bordada a ouro e negro. Usei-a na minha alternativa, a 6 de Agosto de 1998”.

A data exacta sai-lhe sem pestanejos, como o local: o Campo Pequeno, em Lisboa, onde regressou na última quinta-feira para a reinauguração oficial da mais emblemática praça lusa. “Ainda dá tempo para fumar um cigarro”, é a constatação que lhe sai da boca entaramelada pelo nervosismo. O grupo sai de rompante e deixa o quarto ao abandono. O interruptor permanece intocável.

CHEGADA A SEVILHA

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Quando o grupo aterra no lobby do hotel, a vida, os atavios, os vícios de ‘civil’ há muito que ficaram para trás. O ambiente é especial, porque “Sevilha é Sevilha”, comenta-se. Falem com eles. Despertos, eufóricos, a assombrar com as suas ‘luces’ os rostos dos hóspedes que despregam os olhares dos jornais e os ouvidos das conversas quando evacuam o elevador e se lançam para o interior do monovolume preto com os nomes ‘Rui Fernandes’ inscritos a branco, estacionado à porta do Colón.

António assume os comandos e acelera rumo à Praça, a menos de dez minutos de caminho. Rui só tem uma preocupação: “Chegar cedo para estar perto dos cavalos e aquecer-lhes os músculos”. As montadas são ‘nossas’, porque afinal “não há cavalos como os lusitanos!”, sustenta Rui. As farpas estão prestes a ser lançadas. Os anseios e prognósticos são arrumados na gaveta à porta do cenário de pernoita. “Só conhecemos os hotéis e as praças de touros, mal vimos a cidade. É assim a nossa vida”, diz José Alexandre, o apoderado do cavaleiro, o agente que acompanha as principais manobras.

Nas imediações da Real Maestranza o ambiente fervilha, entre bancas de vendedores e pedidos de autógrafos às vedetas taurinas. Paredes meias com as ‘calles’ onde no Verão o mercúrio desafia a marca dos 40º, as flores abrilhantam os penteados das senhoras, muitas com o exuberante traje flameco, e as lapelas dos homens. Há perfume e doses extra de maquilhagem no ar, e correrias em salto alto sobre calçada atapetada de feno e poeira. A multidão de aficionados entope a artéria que circunda a praça em carreiro. Rui salta para a garupa de um dos nove cavalos que trouxe de Portugal. São muitos “porque os touros são como os melões, só depois de saírem se sabe como são, e o cavalo tem que adaptar-se ao touro”, elucidara já a quadrilha.

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O cavaleiro é auxiliado pelo seu moço de espadas, o mesmo que lhe distribuirá as bandarilhas a partir da trincheira da praça. É ele o responsável por toda a logística em deslocações a Espanha, hotéis e viagens, uma espécie de homem-sombra que lhe vai seguindo os trotes e galopes durante a meia hora de aquecimentos.

Perde-se a dupla de vista à medida que se misturam com as gentes que procuram o ingresso nos bolsos e malas e as filas se agigantam nas portas de entrada. Os protagonistas da corrida refugiam-se no interior da Real Maestranza, por um acesso vedado aos olhares das 14 mil almas que se preparam para esgotar as bancadas e galerias. O espectáculo vai começar.

A pontualidade é britânica, mas a extensa península de leques coloridos que as mãos abanam próximo dos rostos afogueados não deixa dúvidas da moldura ibérica. ‘Y viva España!’ parece escutar-se em cada recanto, enquanto o som dos abanicos entrecorta o silêncio que a orquestra poucas vezes interrompe. Ao meio-dia, o alinhamento de rejoneadores abre a sessão de cortesias, com a tradicional volta à praça.

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Rui é o segundo do cardápio onde se encontram os nomes dos espanhóis António Domecq, Leonardo Hernández filho, Andy Cartagena; o luso-espanhol Diego Ventura e os portugueses João Moura Caetano e João Moura filho. Vinte minutos volvidos, Rui Fernandes entra na arena. O primeiro ferro cravado tem as cores do pavilhão da pátria. Uma bandeira de Portugal é desfraldada e passeada em redor da praça perante o olhar ensimesmado de um touro desembolado, com os cornos desprotegidos, à grande e à espanhola.

O PRIMEIRO LUGAR

Às 12:40, o cheiro do perigo gela a praça. Numa fracção de segundos, num volteio mal gizado aproveitado pelo embate do touro, o cavalo vacila e fractura uma perna. O cavaleiro tomba na arena, a escassos metros de um par de chifres em riste. As mãos do público, com as pulsações em suspenso a temer o pior, encobrem os olhos aflitos e tapam as bocas que largam ‘ais!’. Interjeições que felizmente se vêm a revelar infundadas, sob o signo da felicidade de quem tinha um cavalo russo chamado ‘Maravilha’ que o touro não matou na praça por sorte, mas que não se viria a livrar do abate, à distância da lente do público. O animal é recolhido com a ajuda dos que de pronto se lançaram à arena.

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Um pesar inédito que Rui manifestaria no final da corrida. “Estou triste. Nunca me tinha acontecido, ficou debilitado, são coisas que acontecem, temos que seguir em frente. Superei as dificuldades e impus uma morte digna ao touro. Recuperado da aflição, e sem mazelas do susto, desaparece pela porta do cavalo e regressa à arena no espaço de minutos, no lombo de um novo ‘amigo’, confiante. Rendidos ao curso da faena, chovem aplausos de pé. O triunfo chega em passos de veludo com a última estucada.

É o momento em que se apeia do dorso do cavalo, que se esquiva da arena pela porta entreaberta, e o cavaleiro rodeia o touro com um efusivo teatro de gestos até à morte do animal. Célere, um dos critérios fundamentais para coroar a actuação com êxito. Consensual e soberana, a assistência resgata lenços brancos da algibeira sem regatear acenos.

É um sinal de agrado para quem preside à corrida, que acolhe a deliberação popular e manda cortar as duas orelhas do touro para o cavaleiro. Depois da tempestade, novo coro de palmas. No final da corrida, Rui dá a volta à arena, triunfante e em ombros, com mais uma despedida em grande da Real Maestranza. A saída pela Porta dos Príncipes não se repetiu. Manda o recente regulamento que à empresa se junte o corte do rabo do único touro lidado para granjear semelhante honra. Nada que esmoreça a alegria de Rui Fernandes, que se despede dos aficionados no primeiro lugar do ‘escalafón’, o ‘ranking’ dos toureiros. Uma marca que lhe arranca um sorriso rasgado. De orelha a orelha.

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UM FERRO LONGO NUMA CURTA PASSAGEM POR PORTUGAL

“A geografia taurina portuguesa é pequena, esgota-se em 100 quilómetros. Em Espanha, é enorme”. O apoderado José Alexandre, marido da matadora espanhola Cristina Sanchéz, representante de Rui Fernandes há seis anos, faz a ponte com a realidade. Esta é apenas uma das diferenças entre uma lide em Portugal e outra no país de ‘nuestros hermanos’, onde a arte de Marialva e as corridas tradicionais à portuguesa, de volta à remodelada Praça do Campo Pequeno, depois de meia dúzia de anos em obras, se transformam em ‘corridas de rejoneo’.

Aqui, os ‘rejones’ correspondem às bandarilhas, que possuem um ferro semelhante ao de um rojão, e as actuações são finalizadas com a morte do touro na arena. Nesta passagem por Portugal, com o regresso ao cenário da sua alternativa, em 1998, fez parte de um cartel inaugural onde se destacaram os veteranos António Ribeiro Telles e João Moura. As malas já estão prontas para nova viagem. É do outro lado da fronteira que Rui Fernandes joga grande parte da temporada taurina, à semelhança de outros nomes lusos, como o veterano Moura e o descendente João Moura filho. “Faz 50 a 60 corridas por ano, em média. Apenas sete ou oito em Portugal. No activo, actualmente, o Rui é o toureiro com maior projecção”, defende o apoderado.

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“Em Sevilha, é o único toureiro a cavalo que saiu pela Porta do Príncipe no ano passado”, distingue. Quanto aos números da festa, “um espectáculo como o de Sevilha ronda os 125 mil euros de despesas. O Rui pode ganhar cerca de 15 mil euros”, explica o agente, empolgado com o balanço da última época.

Em 2005 realizou 47 corridas e cortou 59 orelhas, acompanhado dos bandarilheiros Nuno Oliveira, Pedro Muñiz e João Prates Belmonte. Na actual temporada, de Abril a Setembro, triunfou nos dois primeiros certames espanhóis, em Valência e Castellon. No dia 27, as atenções estarão voltadas para Las Ventas, a monumental praça madrilena, onde actua na famosa feira de San Isidro.

DA CAPARICA PARA O MUNDO

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A GRANDE PAIXÃO PELOS CAVALOS DE RUI 'PAI' E RUI 'FILHO'

A ligação de pai Rui e filho Rui aos cavalos vem de longe, e de uma terra apartada das tradições taurinas. O menino-bonito do toureio a cavalo, com uma legião de fãs que lhe dedicam blogues e fóruns na Internet, nasceu na Charneca da Caparica, onde o pai sempre criou cavalos. Rui começou a tourear aos 14 anos.

Não passa um dia sem montar. “Tinha amigos bandarilheiros, criei relações com este meio. Não gostava da escola e não há nada melhor do que ter uma profissão de que se possa desfrutar”, confessa Rui, para quem os ventos têm soprado de feição, apesar da disciplina exigida. Uma disciplina que não ensombra os hábitos de qualquer jovem comum. “Faço de tudo. Como e bebo de tudo, faço algum exercício. Não sou nenhum bicho, gosto de ir ao cinema, à discoteca”.

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Para quem está de fora, de coração na boca, as emoções estão à flor da pele. O pai, que não é excepção, é regra, ensaia comentários orgulhosos. “Sofro tanto ou mais do que ele. Ele é um miúdo espectacular, ambicioso mas sem ser ambicioso em demasia. Acho que é preciso nascer com algo que Deus nos dá”, remata.

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