Uma epopeia brutal
Historiador inglês revisita em livro a sangrenta aventura dos portugueses no Índico
Roger Crowley, de 64 anos, é um historiador inglês especializado na história do Mediterrâneo. Depois de ter escrito um aclamado livro sobre Veneza, ficou intrigado com o povo que determinou a decadência da ‘serena república’. E foi assim que chegou à investigação sobre o império português no Índico. O livro, lançado em dezembro no Reino Unido e EUA, chega a Portugal em março, pela editora Presença. ‘Conquistadores, Como Portugal dominou o Oceano Índico e Criou o Primeiro Império Global’, conta uma epopeia audaz e sangrenta, escrita por um autor que lê o ‘Correio da Manhã’ para melhorar os conhecimentos de português.
O ‘New York Times escreveu uma crítica muito positiva sobre o seu livro, mas o texto fala da história da chegada dos portugueses ao Oriente como um assunto desconhecido. Há de facto um desconhecimento sobre o que os portugueses fizeram há 500 anos?
Sim, fala-se muito pouco. Quando olho para trás, reparo que as traduções que existem no Reino Unido sobre as viagens dos portugueses remontam ao século XIX. Havia muito material traduzido. Vasco da Gama era bem conhecido. O que acho que aconteceu é que houve uma ascensão da figura de Colombo na América, que fez dele uma espécie de santo padroeiro da exploração dos mares. E isso fez obscurecer a história dos portugueses. Até eu admito que não sabia grande coisa sobre o tema antes de escrever este livro. Apercebi-me que aquilo que os portugueses fizeram foi perdido por causa desta apropriação italo-americana da história, a favor de Colombo. É um tema esquecido fora do mundo lusitano.
Escreveu antes vários livros sobre os conquistadores do mar e sobre a história de Veneza. Mas, ainda assim, sentiu que sabia pouco sobre a expansão marítima portuguesa?
Não estava muito familiarizado. Tenho-me focado particularmente na história do Mediterrâneo. Quando comecei a estudar os venezianos, percebi que a chegada dos portugueses ao Oceano Índico teve um grande impacto. Eles foram completamente apanhados de surpresa, por volta de 1500. Foi um ponto de viragem crítico na história mundial.
Pusemos Veneza fora do negócio…
Eles sentiram que isso ia acontecer. Foi um golpe que encolheu a importância do Mediterrâneo. Os venezianos perceberam que o seu modelo de negócio estava em risco.
Fala do estabelecimento do Império Português no Oriente como uma história muito violenta…
É uma história sangrenta. A minha primeira intenção foi escrever um livro que abrangesse desde a tomada de Ceuta pelos portugueses, em 1415, até à batalha de Alcácer Quibir, onde morre o rei D. Sebastião [em 1578]. Mas percebi que era uma história demasiado vasta. Havia demasiados factos. Por isso decidi concentrar-me no período crítico desde o rei D. João II até à morte de D. Manuel I, porque foi o período em que Portugal se apropriou do Oceano Índico. Foi um tempo de guerra, de guerra extremamente violenta. Num sentido, algumas pessoas em Portugal podem sentir que eu apresento o Império Português como sendo cruel, sangrento e desprovido de escrúpulos. Mas este foi um período em que os portugueses se tentavam estabelecer e isso fez-se pela guerra. As coisas que aconteceram depois têm muito mais a ver com comércio e com a globalização. Mas os portugueses tiveram de lutar para entrar neste novo mundo. É uma história brutal, mas é também uma história formidável. Foi precisa uma habilidade incrível para estabelecer um império.
O que fez os portugueses triunfar num meio que desconheciam?
Eles chegaram com canhões e foram os primeiros a usá-los no Índico. Mas foi preciso juntar muita habilidade e muita capacidade de aprender depressa. Os portugueses tiveram de aprender a política, a linguagem, os costumes e culturas. A curiosidade também foi uma arma de guerra. Os três grandes homens deste período, que são Vasco da Gama, Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque, eram homens extraordinários. Certamente que eram brutais, mas eram também muito inteligentes. Albuquerque é o grande homem desta época. Era movido por um espírito de cruzada, mas era sensato e extremamente inteligente. E é preciso sublinhar a coragem. Nunca houve mais do que dois milhares de portugueses no Índico, mas eles foram capazes de controlá-lo quase por inteiro durante um certo período. É um feito extraordinário.
Como se explica o sucesso da expansão no Oriente?
Um dos segredos é a extraordinária habilidade de navegação dos portugueses. Eles podiam velejar pelo oceano e controlá-lo de uma forma que mais ninguém conseguia. Eles perceberam muito rapidamente que eram tão poucos que nunca poderiam ter um território baseado na presença territorial. Criaram um novo modelo de império, baseado no poder naval e no controlo de fortes. Perceberam quais eram os sítios mais importantes do Índico : Goa, o Golfo de Ormuz, Malaca, Aden, o Leste de África. Ao aprenderem quais os sítios a controlar, não precisavam de ter muitas terras, mas sim de dominar os pontos cruciais do comércio. Havia qualquer coisa de extraordinário na mentalidade destas pessoas. Os portugueses deste período apreciavam sobre tudo uma boa luta. De estar num forte cercado de mil guerreiros hindus ou muçulmanos e lutar até à vitória. De certa forma, istro tem a ver com facto de Portugal ser um país pobre, colocado no extremo do mundo mediterrânico. Não tinham nada a perder e o Índico era uma oportunidade de enriquecer. Havia também o espírito de cruzada, de espalhar a fé cristã, eles estavam preparados para lutar corajosamente contra grandes magotes de gente para ganhar uma posição neste novo mundo.
Portugal era um país pouco sofisticado, pouco educado. Como se explica esta mentalidade de criar um império longínquo?
Era um país pobre em muitos aspetos. O Renascimento tinha passado ao lado do país. Mas os portugueses eram muito sofisticados na arte de navegar. Portugal tem uma longa costa Atlântica e estava à frente de toda a gente na tecnologia naval, na habilidade de navegar com orientação, de fazer mapas. No final do século XV, vinham pessoas de toda a Europa para ver o que os portugueses estavam a fazer. Não sou um especialista na história de Portugal, mas outra razão para este sucesso é que a localização do país no extremo da Europa tornou-o muito mais aberto ao resto do mundo. Nas áreas em que os portugueses tinham mais fraquezas, como era a do comércio, eles receberam pessoas de grandes centros europeus, sobretudo de Itália. Veio gente de Génova ou de Milão para estar envolvida na expansão. A tecnologia dos canhões veio da Alemanha e da Flandres, os portugueses foram espertos o suficiente para juntar pessoas com diferentes conhecimentos que vinham de fora. No início da expansão, dependeram do conhecimento dos judeus sobre cartografia e matemática e receberam muitos vindos de Castela, de onde tinham sido expulsos. Foram capazes de juntar, conhecimento, informação e recursos técnicos de fora do país
O Império Português no Oriente durou cerca de um século, até à chegada dos holandeses e dos britânicos ao Oriente. Era inevitável que Portugal perdesse o controlo de um império tão longínquo?
Provavelmente seria inevitável. Os portugueses criaram um império muito vasto. Foi o primeiro império global, que ia desde o Brasil até à China e ao Japão. Era inevitável que outros usassem o conhecimento que os portugueses trouxeram. Eles tentaram com muita determinação manter as posições, mas era difícil. Faltou ao país uma classe de comerciantes forte, que suportasse o Império. Navegaram muito bem para controlar o comércio das especiarias, mas o dinheiro que entrou em Portugal desapareceu em projetos de construção, na riqueza da cidade de Lisboa e, em grande parte, foi desviado para os países da Europa do Norte. Os holandeses tinham muitas vantagens e uma delas é que não tinham qualquer intenção de converter as pessoas ao cristianismo. Isso foi, em muitos casos uma barreira para os portugueses, certamente no Japão ou na China.
Faltou a Portugal uma estrutura em casa para lidar com a riqueza conquista no Oriente?
Sim, o dinheiro parece ter desaparecido. Faltou construir uma infraestrutura. Faltou uma classe média empreendedora. O que se construiu em 100 anos foi um monopólio real. O rei tentou controlar toda a riqueza e falhou, porque as pessoas estavam muito mais interessadas na sua riqueza privada do quem dar os seus lucros ao rei. O modelo de monopólio do rei falhou. Os holandeses baseavam-se em grandes alianças privadas e tiveram mais sucesso em dominar a economia do comércio de especiarias. No longo prazo, os portugueses estavam espalhados de uma forma demasiado ténue para conseguirem manter as suas possessões. Era um plano demasiado ambicioso.
Qual foi o impacto deste império na Europa?
Os portugueses trouxeram muita coisa à Europa. Novos produtos, novos gostos, novos alimentos. Permitiram às pessoas aperceberem-se de um mundo para lá da Europa. Muito do que os portugueses escreveram foi traduzido nas línguas europeias, que começaram a ver peças de arte da China, do Japão, de África. Os portugueses expandiram a ideia de um mundo para lá da Europa. Houve um avanço cultural e científico. Pela primeira vez, a Europa começou a ver-se a si própria através dos olhos de outras pessoas. As pessoas estavam fascinadas pelo Oriente e Lisboa, durante 100 anos, era o sítio a ir para conhecer o mundo. Era ali que tudo estava a acontecer. Perdemos muito disso, porque grande parte da Lisboa histórica desapareceu no terramoto do século XVIII. Mas era uma cidade global.
Vai haver edição portuguesa?
Sim, a edição portuguesa vai ser publicada em Março, pela editora Presença. Vai ser interessante ver qual a reação ao livro no mundo português. Quando comecei, fiquei surpreendido por haver tão pouco material escrito sobre este tema fora de Portugal. Estou certo de que as pessoas vão ler o livro de formas diferentes. Eu vejo-o como uma história brutal, mas também de um espírito empreendedor e de desafio.
Teme a reação de historiadores e académicos portugueses?
Um amigo português enviou-me um artigo muito crítico de um colunista que não gostou nada do livro. Sei que Portugal olha para os Descobrimentos como uma mágoa histórica de que os seus feitos não sejam conhecidos, como deviam ser. Para alguém de fora escrever sobre o assunto é preciso cuidado. Esta é a vossa Idade dourada, não é?
Sim, esta época histórica ainda é vista como parte do ‘tesouro nacional’…
Percebo que as pessoas se sintam orgulhosas. Mas olhamos para trás e percebemos que as pessoas de há 500 anos não são como as pessoas de hoje. A nossa mentalidade é diferente. Estou certo de que a expansão portuguesa foi o início da dominação do Ocidente sobre o mundo. Os portugueses fizeram o primeiro império global, começaram aquilo que agora estamos a ver. Houve coisas más e coisas boas. Em certo momento, o Oceano Índico e todo o território marítimo até à China era controlado pelos portugueses.
Diz que podiam ter sido os chineses a fazer esta ponte entre civilizações. O que os levou a deixar os mares?
Sim, os chineses foram para casa e afundaram-se na Grande Muralha da China. É uma história formidável, eles tinham grandes recursos e tinham uma grande frota para investigar o Índico, mas desistiram. Os portuguese apareceram com uns poucos de barco pequenos e abriram o mundo, ligando todos. Isso é o grande feito pelo qual o povo português tem o direito de sentir um grande orgulho. Se se comparar os feitos de navegação de Vasco da Gama com os de Colombo, percebemos que os 93 dias que Gama passou sem ir a terra na primeira viagem até à Índia foi um feito extraordinário. E ainda há muita coisa sobre isto que não sabemos.
Sentiu nos leitores britânicos e americanos interesse em querer saber mais sobre a expansão portuguesa?
Muitas pessoas me disseram que não sabiam absolutamente nada sobre o tema. Particularmente na América, onde esta expansão não é conhecida. Senti curiosidade das pessoas em querer saber mais. Eu acho tudo isto fascinante, saber que os portugueses estiveram em sítios tão remotos como o Tibete, o Butão ou o Japão. Terão sido talvez, as primeiras pessoas a ver a Austrália. Este livro tem despertado o interesse sobre um assunto que estava esquecido. Noto que há cada vez mais pessoas que vão a Lisboa e que voltam surpreendidas e deliciadas.
Tem vindo em Portugal?
Já estive bastantes vezes, acho sempre o país surpreendente. Voltarei em Abril para o lançamento do livro. Há uma coisa curiosa, descobri que os ingleses podem reclamar Vasco da Gama como sendo um dos seus. O seu bisavô era inglês. Frederick Sudley, que viu o seu nome transformado em Sodré, veio de Inglaterra para combater pelos portugueses, provavelmente participou na batalha de Aljubarrota. Casou com uma portuguesa e ficou a viver em Portugal. Vasco da Gama é seu bisneto.
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