"Uma mina fez-nos voar 20 metros"

Andámos três dias à procura do avião que se tinha despenhado.

09 de agosto de 2015 às 10:00
Foto: D.R.
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Com 21 anos ingressei na vida militar. Embarquei em Vendas Novas e fui para Tavira, para o curso de Sargentos Milicianos, em setembro de 1964. Em janeiro do ano seguinte fui para Mafra, onde fiz a especialidade, e três meses depois fui para o RI 15 de Tomar para formar Batalhão. A minha companhia, a 1478, foi destacada para Moçambique. Embarcámos no navio ‘Pátria’ a 8 de outubro de 1965, com paragens em Luanda, Lourenço Marques e Beira. Desembarcámos em Nacala a 1 de novembro, indo depois de comboio até Catur e, finalmente, de viatura, até Vila Cabral.

Aí, estacionámos uns dias para fazer patrulhamento em redor da cidade, antes de sermos colocados em Maniamba, onde fomos ocupar umas instalações destinadas à maternidade. Passado pouco tempo tivemos uma baixa: um camarada perdeu a perna devido ao rebentamento de uma mina antipessoal.

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Em Maniamba, havia dois destacamentos: no Bandece e no Gião. Neste último, não havia nada. Só terra e céu. Tivemos de construir abrigos debaixo do chão onde passámos a viver, comer e dormir. Foi aí que sofremos vários ataques porque a Frelimo não queria que ocupássemos a posição. Para chegar a Gião, rebentámos tantas minas que já não havia pneus sobresselentes para as viaturas.

Quando estávamos a construir uma nova ponte sobre o Rio Gião, morreram-nos dois camaradas: um ao pisar uma mina quando ia buscar água ao rio; outro o enfermeiro que, indo acudi-lo, pisou outra mina. Morreram os dois. Os corpos tiveram de ir numa Berliet durante 60 km, porque o pessoal da Força Aérea daquela altura se recusava a transportar os mortos.

TRATADO POR UM NEGRO

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Recebemos uma mensagem. Era preciso que um grupo de combate saísse às dez da noite para o mato para encontrar um avião que tinha andado a bombardear a zona e que se tinha despenhado. A missão calhou ao meu pelotão. Andámos três dias à procura, já sem rações de combate nem tabaco, com emboscadas pelo caminho. Demos com ele, mas o piloto era cadáver.

Mais tarde, eu e oito camaradas meus fomos vítimas de uma mina colocada na estrada perto do destacamento do Bandece. O Unimog onde seguíamos passou por cima de uma mina, o que fez com que a viatura voasse uns 20 metros e o pessoal que seguia lá dentro cuspido e atirado para o ar. Todos exceto o condutor, que, por o Unimog ter capota, ficou lá dentro, só com a cabeça de fora e a gritar para que o fôssemos buscar. Foi aí que um soldado, ao chegar ao pé de mim, me disse que eu estava cheio de sangue na cabeça. Fomos todos levados para o aquartelamento em Maniamba, para sermos transportados de avioneta para Vila Cabral.

Em Maniamba, estava um casal de enfermeiros de cor, a quem presto a minha homenagem. O Sr. Ismael observou-me, disse-me que eu tinha dois vasos cortados e perguntou-me se autorizava que os suturasse. Disse que sim, que confiava nele, e ao chegar ao hospital de Vila Cabral os médicos disseram-me que não teriam feito melhor trabalho.

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Passado um ano, fomos colocados em Meponda (Porto Arroio), junto ao Lago Niassa, zona de guerrilha onde estivemos seis meses. Seguimos para Mecubúri, com três destacamentos. Aqui estivemos até ao fim da nossa missão, tendo regressado à metrópole no navio ‘Vera Cruz’.

Mário Freitas da Silva

Comissão: Moçambique 1965-1967

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Força: Companhia de Caçadores 1478

Atualidade: Aos 72 anos, vive em Vendas Novas. Está reformado, é casado e tem duas filhas e quatro netos

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