Utopia bucólica pode ser vivida em tendas na estepe
As botas compradas no mercado negro de Ulan Bator são a minha salvação quando dou por mim enterrada até aos joelhos na neve, tentando desatolar a carrinha onde viajo com um casal de americanos e o condutor. Não se vê vivalma, ou sinais de civilização, condição única da estepe, imensa planície recortada pelos picos azuis de montanhas distantes. Há já umas horas que abandonámos a paisagem salpicada por gers ocasionais, onde famílias nómadas pastam gado – cabras, ovelhas, vacas, cavalos e iaques peludos com ar pachorrento – percorrendo solitariamente trilhos invisíveis em direcção ao acampamento da família Tsema, nossa anfitriã esta noite.<br/><br/>
Depois do esforço sobre-humano, empurrando a carrinha ora para trás, ora para a frente, lá descobrimos uma zona de neve mais sólida e é por aí que seguimos, festejando a conquista como crianças histéricas e recebendo em troca o doce a que temos direito, neste caso uns shots de vodka que funcionam como injecções de adrenalina no corpo enregelado. É do trabalho conjunto, explica-nos Baira, o condutor, que se faz a sobrevivência nestas paragens inóspitas. Terra de pastores que honram há milénios os códigos e os costumes da transumância, nos quais as leis fundamentais são a solidariedade e a hospitalidade, uma porta sempre aberta para os viajantes.
É uma porta aberta e muitos sorrisos o que nos espera no interior de uma das tendas onde o clã Tsema passa o Inverno. O calor intenso espalhado pelo forno de lenha, que crepita ao centro, deixa-nos com rosetas na cara. Sinto-me como se tivesse entrado num minúsculo circo, imagem potenciada pelo recheio despojado, cujas cores me lembram móveis alentejanos.
Feitas as apresentações, que incluem duas crias de cabra e de ovelha recém--nascidas, a matriarca toma conta de nós, servindo-nos chá salgado e um festim de carnes que não acaba. Apesar de saborosas, sinto a gordura espirrar-me da boca e não resisto a cuspir, instintivamente, o leite de camelo que me dão a provar. Enquanto riem, ensinam-me que tenho de tocar com o dedo no cuspo e levá-lo à testa, perante o ar atónito dos americanos que, por sua vez, também cospem. 'Três cuspinhos para a tua alma' diria o meu avô Gameiro, que certamente apreciaria tanto como eu o som dos rebanhos a regressarem ao curral, a Lua cheia a levantar no horizonte, a sensação de tempo parado, o silêncio quebrado aqui e ali pelo uivo longínquo dos lobos.
É COMO ANDAR DE BICICLETA
Depois de dizer que sei ordenhar, assumo, definitivamente o papel de palhaço pobre neste diminuto circo humano. E não vale de nada dizer que há já trinta anos não ponho as mãos numa teta de vaca. Em círculo à minha volta, olham encantados para o leite espumoso a cair no balde. Olho eu também para o milagre, perante o ar condescendente da ‘mamma’ que sentencia: 'Vês? É como andar de bicicleta'.
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