Vázquez Montalbán: policiais com sal e muita pimenta
Aventuras gastronómicas e eróticas de um falso cínico com um fundo humanista e sentido de humor
Manuel Vázquez Montalbán (1939-2003) foi um escritor espanhol que ganhou um lugar na história da literatura graças aos romances policiais em que, a par dos crimes, se destacam as referências culturais, políticas e, sobretudo, gastronómicas, sempre apimentadas com uma pitada de erotismo e doses generosas de ironia.
O herói destas histórias é o galego Pepe Carvalho (Montalbán era catalão), comunista desiludido que chegou a ser agente da CIA antes de se estabelecer como detetive privado em Barcelona. Carvalho é um falso cínico com um fundo humanista. Dá receitas de culinária e vive aventuras eróticas com a amante, Charo, que exerce a mais velha profissão do mundo.
Montalbán escreveu também romances políticos, como ‘Galíndez’ (Ed. Caminho) e ‘Autobiografia do General Franco’ (Ed. Caminho); sobre futebol (‘Fútbol y política’); poesia erótica (‘Ars Amandi’); e livros de gastronomia. A paixão pela boa mesa foi ao ponto de deixar em testamento a vontade de que as suas cinzas fossem espalhadas em Cala Montjoi, junto ao restaurante El Bulli, então considerado o melhor do mundo. Ganhou, entre outros, o Prémio Nacional das Letras Espanholas, pelo conjunto da sua obra. É homenageado pelo Prémio Internacional de Jornalismo Vázquez Montalbán e o Prémio Pepe Carvalho de literatura policial.
Do livro ‘Assassinato no Comité Central’, trad. Manuel de Seabra, ed. Dom Quixote
- Devagarinho.
(…) Carvalho deixou-se cair de costas com Gladys por cima e levantou-a com os braços para ver como caíam os seus cabelos, os seus seios, o seu olhar surpreendido e branco e, sem lhe dar tempo para cair em si da sua surpresa, sentou-a sobre o pénis, penetrando-a. (…) Gladys fechou os olhos, levantou a cabeça, apoiou as palmas das mãos no ventre de Carvalho e começou a subir e a descer numa ginástica perfeita, sublinhada por uma respiração reguladamente ofegante. (…) A chegada do orgasmo foi anunciada por uns quantos ofegos, algumas queixas contidas, a debilidade dos braços que se dobravam abandonados pelo cérebro e por fim o corpo de Gladys cerrou-se sobre o de Carvalho como uma tampa e uma humidade de mancha de azeite lubrificou os sexos untados.
- Que fazes? – Carvalho tinha-a apertado com força pelos braços, obrigava-a a pôr-se de gatas na cama - Que fazes? Não estarás a pensar em ir-me ao cu?
Carvalho ajudou o seu filho predileto a encontrar a entrada do feminino sexo desbotado, depois apoderou-se [dos quadris] e do cu da mulher, obrigando-os a um movimento de planetas giratórios. (…) Do rosto de Gladys, esmagado contra os lençóis, saiu um gemido rouco para oeste e a mulher escorregou para a frente, deixando o sexo roxo de Carvalho desairado, troçado por um som de separação de humidades, um ruído sonoro de despedida carnal. (…)
– Estavas esfomeado."
Do livro ‘Os Pássaros de Banguecoque’, trad. Daniel Gonçalves, ed. Asa
- Porquê?
Teve ela tempo de dizer antes da penetração. As pernas dela fraquejaram à medida que se aproximava o orgasmo e Carvalho teve de ampará-la com o braço cruzado sobre as virilhas. Quando terminou, deixou-a formar um ângulo entre o piano e o chão. Joana levantou-se com vacilações de Margot Fonteyn e, sem olhar para Carvalho, dirigiu-se para onde deixara as calcinhas e enfiou-se nelas. Carvalho conteve o impulso de ir à casa de banho e deixou-se cair junto da mulher, simulando com os dedos itinerários imaginados sobre as suas costas. Ela voltou a cabeça e, por fim, ele viu-lhe a cara, acalorada, como se dilatada por uma íntima satisfação.
- Porquê?"
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt