Vencedores da medida XXL

Ser obeso é como carregar um fardo igual ao peso em excesso no corpo. Vive-se a angústia das limitações. Muitas vezes, só a banda gástrica ou o ‘bypass’ devolvem a felicidade.

25 de fevereiro de 2007 às 00:00
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Décadas de uma vida amputadas pelo esti-gma da obesidade; outra metade – numa insofismável alegria, mesmo narcísica – é consagrada à descoberta de um corpo novo. Magro; normal; belo; saudável. A viragem começa no estômago de obesos graves e mórbidos através da cirurgia bariátrica (colocação da banda gástrica ou do ‘bypass’). A cirurgia estética encerra o ciclo de mudança.

Uma das pacientes do Hospital de São Francisco Xavier, Lisboa, pesava 192 quilos e media apenas 1,56 metros de altura; há dois anos que dormia sentada; não conseguia fazer a sua própria higiene íntima – ajudava-a a filha; já não trabalhava; sofria de hipertensão e problemas respiratórios como apneia do sono. No limite das suas forças, declarou, por carta, já não aguentar mais aquela condição de vida. “Esteve à espera até que fosse comprada uma marqueza de operação que suportasse o peso”, recorda o cirurgião Edgar Rosa. Estava-se em 2004.

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A doente perdeu 74 quilos em 18 meses. “Aderiu tão bem ao procedimento que o filho faz agora a dieta dela (sem ter sido operado) e de cento e tal quilos já passou para 90”, revela o médico, emocionado. “E tratei uma família inteira apenas operando um. Sinto-me feliz.”

Segundo o especialista, uma intervenção bariátrica encerra “um conjunto de técnicas executadas cirurgicamente com vista à redução de peso”. Primeiro será identificada a causa básica da obesidade e, excluídas patologias impeditivas à operação, o paciente recebe indicação médica da técnica a usar – que pode ser de três tipos: restritiva, como a banda gástrica, que reduz o volume de alimentos ingeridos não alterando a absorção; procedimentos mistos, que incluem restrição e má absorção, como o ‘bypass’ gástrico, em que se altera o percurso dos alimentos para o intestino com restrição no volume ingerido; e outras técnicas mais complexas em que a componente de má absorção é mais pronunciada.

Graças ao ‘bypass’ Ivo Mariano perdeu os complexos de ser mais uma alma “incompreendida” dentro de um corpo de 141 quilos. Obesidade mórbida, portanto. “Se as pessoas dizem mais alguma vez que estou gordo, respondo mal.” A constatação era inútil para o professor de Informática em Lisboa – e natural de Montargil. “Sentia-me como se não fosse aceite.” Só que o corpo pesava; a auto-estima arrasava-o; não cabia nas cadeiras, nem cruzava as pernas sentado; era impossível baixar-se para apertar os sapatos; correr, nem pensar. E a vida sexual? “Um pouco complicada. A pessoa às vezes quer, mas não é capaz. O corpo não deixa” – relata à Domingo.

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“Quando se é gordo é complicado com as namoradas. Mas conheci a minha ex-namorada aos 18 anos.” Ivo já era obeso. “Tinha a auto-estima em baixo e pensava: “Se a deixo, não arranjo outra. Ela tratava-me mal.” Doido por pão, açúcares e bolos, comer ia além do pecado e da culpabilização. Sucediam-se as dietas milagrosas que nunca resultavam. A angústia persistia; o peso aumentava.

“A obesidade é uma doença muito grave. Eu, pessoalmente, só consegui ultrapassar com a ajuda de terceiros”, conta o professor, de 29 anos, para quem, por exemplo, deixar de fumar foi uma mera questão de mentalização. A operação de colocação do ‘bypass’ foi agendada para 29 de Novembro 2005. Três meses antes, Ivo engordou dez quilos. Por pouco, o nervosismo comprometia a cirurgia. O próprio questionava todos os dias a sua decisão: “Emagrecer, só mudando a cabeça. Como não posso, muda-se outro tipo de coisas. O estômago. Depois a cabeça tem que ir atrás. E sofre-se.”

Por felicidade: “Basicamente, nasci outra vez”, dispara Ivo Mariano quando se recorda de ver, lentamente, o peso a baixar até aos 93 quilos – pesados na última semana. “No início, vê-se o peso a cair por aí abaixo. Passados nove meses, perde-se mas em menor quantidade.” O pior é mudar os hábitos alimentares. “É este o meu único sofrimento: ter que comer lentamente para que já vá tudo líquido para o estômago.” Embora já não pratique desporto, regularmente, há alguns anos, Ivo pode ceder à vontade de chutar uma bola e correr atrás dela em qualquer jardim; pode ver-se ao espelho e agarrar-se aos desejos da vaidade com qualquer peça de roupa; pode respirar ou, simplesmente, sentar-se e cruzar as pernas e apertar os sapatos.

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O objectivo é chegar aos 77 quilos e dizer, alto e em bom som: “Tenho uma vida normal”. E é o que dirá no final deste ano, sem complicações. Uma vez que a elasticidade de um corpo volumoso não acompanha o emagrecimento, a pele em excesso descai – na barriga, braços, pernas ou na cara. Ir à praia? “É um bocado complicado. Não é por mim, será aos olhos dos outros... lá está a auto-estima outra vez. Penso que a cirurgia estética é o mal necessário para resolver o resto do problema” – analisa Ivo Mariano.

O cirurgião Miguel Andrade explica que “os doentes se sentiam mal com o corpo que tinham antes da operação e, depois, começam a questionar-se por ainda não se sentirem bem” com a nova imagem. O corpo fica disforme. Daí a importância da cirurgia plástica reconstrutiva (ou estética) – imprescindível em 95 por cento dos casos, adianta o cirurgião especialista nesta área. Um dos problemas: “Nos hospitais estatais, até agora, não há custos associados a estas intervenções, o problema são as listas de espera.” Só no Hospital de São Francisco Xavier, em Novembro do ano passado, 120 doentes aguardavam vez.

E estas, “em geral, são pessoas com grandes traumas do ponto de vista das relações, mesmo no dia-a-dia, por serem apontadas como obesas. Na maioria, as mulheres têm o estigma mais entranhado.” Um ano ou ano e meio depois do peso estabilizado, pode iniciar-se a remodelação corporal, “que implica diversas cirurgias: face, pescoço, mamas, abdómen, coxas”. Mais uma vez, frequente em mulheres na casa dos 30 anos, com um vasto historial clínico de recurso a médicos, para resolver diversos tipos de doenças.

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“Se a pessoa estiver motivada, todo o pós-operatório é melhor tolerado. Mas sente-se sempre o corpo esticado, apertado, não se consegue ir à casa de banho sozinho ou tomar duche”, descreve Miguel Andrade. “Em geral as pessoas querem resolver as coisas depressa. Acabam uma cirurgia e já pensam – e perguntam – quando será a próxima.”

Patrícia Barbeitos, de 37 anos, admite que as cicatrizes a deixem marcada para sempre. Admite, mas não se importa. Perdeu 33 quilos; já não pesa 103. “Gostava de poder ajudar todas as pessoas gordas. Sei como se sentem e custa-me que muitas não tenham hipótese de fazer o que fiz. Iam mudar muita coisa nelas.” Mas a vida desta advogada lisboeta já teve dias mergulhados em lágrimas amargas; angústia; depressão.

“Psicologicamente sentia-me ‘abaixo de zero’; autoconfiança completamente abalada; não deixava de trabalhar mas ficava muito no meu gabinete; em casa, se os meus amigos me queriam ver tinham que lá ir.” O estado de espírito de Patrícia balançava entre o radicalismo de dietas – “Tallon, inclusive, que depois engordei o dobro; nutricionistas convencionais, que dão resultados imediatos, mas pouco duradouros” – e um marasmo de sentimentos que a faziam “comer comida a sério, e comia horrores: bifanas ou tirava a sopa fria do frigorífico.” Claro que depois se notava na sua figura. “Ainda por cima tenho uma gordura andróide – tipo homem. Chama muito a atenção.”

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Na rua, os olhares cruzavam-na de alto a baixo, estilo incriminatório. “Coitada, com uma cara tão gira porque é que se deixou ficar assim”, ouvia. Porquê? “A obesidade é a forma mais comum de má-nutrição no mundo ocidental, é uma doença crónica de armazenamento de gordura, sendo multifactorial na sua génese, geneticamente relacionada, ameaçadora da vida humana, com elevado significado médico, psicológico, social, físico e económico”, caracteriza a Sociedade Portuguesa de Cirurgia da Obesidade (SPCO).

“Quando a minha auto-estima ficou em baixo, se eu não gostava de me ver, ninguém mais gostaria de me olhar também”, recorda, com mágoa, a advogada. “A sociedade tem um padrão definido para o que não é normal. Tenho ideia de que se fosse a uma entrevista de trabalho, se calhar seria recusada. Tem também muito a ver com a própria pessoa por não se sentir bem consigo e deixar transparecê-lo.”

Cansada do corpo, tomou o incentivo da mãe como bóia de salvação: “Filha, sou tua mãe e hei-de gostar de ti assim sempre. Só me custa que sejas uma lutadora e fiques assim, sem fazer nada” Se em casa da família se falava de gordura sem quaisquer pruridos, já outras pessoas tinham algum receio. “Apaparicavam-me um bocado, mas tenho a certeza que era só para não magoar.” E a coragem tomou-lhe a rédea das decisões. Foi ao médico; colocou uma banda gástrica; e, meses depois, a primeira vez que Patrícia se olhou ao espelho depois da cirurgia bariátrica não conteve o sorriso. Era uma mulher nova.

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Através do Índice de Massa Corporal (IMC) determina-se o grau de obesidade. Na maioria dos casos a obesidade está associada a problemas no Sistema Endócrino e Metabólico – como Diabetes Mellitus, no aparelho cardiovascular – hipertensão e insuficiência cardíaca são alguns dos exemplos –, no aparelho reprodutor – como a infertilidade, incontinência urinária –, e alterações socioeconómicas várias como a depressão, isolamento, discriminação educativa, laboral e social.

Mas o aumento constante da obesidade “não se explica apenas pelos factores de risco conhecidos” e aos quais está associado o sedentarismo e a falta de práticas desportivas. Segundo o El Mundo Salud, um grupo de investigadores presentes na reunião anual da Associação Norte-americana Para o Progresso da Ciência, em São Francisco, na Califórnia, EUA, defende que a obesidade poderá ser “uma condição programada” nos primeiros anos de vida, principalmente na gravidez.

A SPCO acrescenta que “a prevalência no nosso País para a obesidade é estimada em 13% para o sexo masculino e 15% para o sexo feminino”. A Organização Mundial de Saúde alerta que a obesidade atingiu na Europa, nos últimos 20 anos, “proporções epidémicas” e, caso não seja combatida, em 2010 afectará 20% dos adultos e 10% dos jovens e crianças. Os custos ultrapassam-nos: Mais de 6% dos gastos na saúde tratam a obesidade em adultos.

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“O alvo da cirurgia bariátrica não é o obeso, são as doenças associadas à obesidade”, frisa o cirurgião Edgar Rosa. “Não estamos à procura de formosura corporal.” E se com a intervenção se reduz o peso mas não se retiram as peles excedentárias, flácidas, sobra o problema da auto-estima.

A taxa de sucesso associada ao ‘bypass’ anda à volta dos 68 a 70% de peso em excesso perdido. A banda gástrica, quando aplicada ao doente certo, atinge uma taxa de sucesso sobreponível, enquadra o médico do São Francisco Xavier. Mais tarde, o doente deve redobrar a atenção aos alimentos que pode consumir. “O sucesso da cirurgia vai depender muito da conivência com a dietista e o psicólogo”, conclui.

O empresário algarvio Paulo China, de 50 anos, prefere que sejam apontadas baterias para a obesidade infantil. Embora não seja clínico, o anfitrião do ‘jet set’ nos seus bares e esplanadas, sabe do que fala. Pesava 200 quilos até que, há dois anos, António Sérgio, presidente da SPCO, o operou. Colocou-lhe uma banda gástrica que reduziu a marca da balança para metade.

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1. Flacidez - A cirurgia estética vai remover as peles excedentárias, flácidas, logo que o peso do doente esteja estabilizado.

2. Abdómen - A pele é cortada na região abaixo do abdómen para se poder retirar a pele excedentária.

3. Excesso - Depois de descolar a pele abdominal, esta é esticada para se apurar o excedente, que mais tarde será cortado de modo a restituir as formas do corpo.

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4. Reconstrução - Depois do corte da pele excedentária, a região abdominal é costurada, tal como o umbigo que terá de ser recolocado no seu lugar original.

5. Silhueta - O corpo, depois de costurada a região operada, ganha uma forma definida e imperceptível do emagrecimento. Só se notam os pontos.

PAULO CHINA, EMPRESÁRIO

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FORA 100 KG

“Sabe o que é perder 100 quilos? É o mesmo que estar a carregar todos os dias um saco de batatas de 100 quilos.” Paulo China, conhecido empresário algarvio, há dois anos pesava 200 quilos e perdeu metade, através da colocação de uma banda gástrica. “A obesidade é das piores doenças que o ser humano pode ter. Porque temos mais outras sete ou oito doenças” – respiratórias, cardíacas, circulatórias.

EDGAR ROSA, CIRURGIÃO GERAL

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A OPERAÇÃO

O médico cirurgião do Hospital de São Francisco Xavier, em Lisboa, explica que a cirurgia bariátrica (para tratamento de doentes obesos, superobesos e obesos mórbidos) é precedida de diversas consultas para que seja estudado o historial médico do doente, para despistar possíveis impedimentos à operação e para se determinar o tipo de cirurgia a realizar.

MIGUEL ANDRADE, CIRURGIÃO PLÁSTICO

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RECONSTRUÇÃO

O médico especialista em cirurgia plástica reconstrutiva e estética do Hospital de São Francisco Xavier, em Lisboa, explica que este tipo de intervenção – face, pescoço, mamas, abdómen e coxas – só tem início depois de estabilizado o peso do doente. São operações que implicam, de preferência, o internamento em unidades hospitalares. E não se destinam a uma busca pela formosura corporal, são um complemento ao tratamento da obesidade para restituir a auto-estima e o bem-estar ao doente.

Nome e idade: Ivo Mariano, 29 anos

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Profissão: Professor de Informática

Peso (antes da cirurgia): 141 quilos

Altura: 1,76 metros

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IMC (antes): 45,5 (obesidade mórbida)

Cirurgia: ‘bypass’ (29 de Novembro de 2005)

Peso actual: 93 quilos (objectivo 77 quilos)

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IMC actual: 30 (sobrepeso)

Ivo testou todas as dietas milagrosas. Em vão. Os seus 141 quilos de peso roubavam-lhe a autonomia até para se baixar, apertar os sapatos, ou simplesmente sentar-se numa cadeira confortavelmente. Engordava, nem sabia porquê. “Não tenho ainda resposta. Se eu comesse a ponto de me fazer mal, mas não – mesmo nas análises tinha todos os níveis controlados.” Nada resultava e, sendo impossível mudar os hábitos, decidiu mudar o estômago. Fez a cirurgia do ‘bypass’ gástrico e perdeu, em 18 meses, 48 quilos. “Basicamente, nasci outra vez.” Continua sem praticar desporto, mas já não tem desculpa. Agora pode correr e jogar à bola.

Nome e idade: Patrícia Barbeitos, 37 anos

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Profissão: Advogada

Peso (antes da cirurgia): 103 quilos

Altura: 1,67 metros

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IMC (antes): 36,9 (obesidade moderada)

Cirurgia: banda gástrica (29 de Março 2004)

Peso actual: 70 quilos

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IMC actual: 25,1 (normal)

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