Vícios anónimos

Fomos assistir a reuniões de auto-ajuda e descobrimos dependentes do jogo, da nicotina e das emoções. Alguns perderam a família, os amigos e a carreira. Outros a dignidade. Os nomes que se seguem são todos fictícios. Para que os vícios deles se mantenham anónimos.

30 de janeiro de 2005 às 00:00
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Estão sentados à volta de uma mesa comprida a fumar cigarros atrás de cigarros. O fumo do tabaco sai em direcção à janela aberta para a noite fria. Os olhos deles não se despregam da biqueira dos sapatos, como se temessem o silêncio. São treze, número de maus presságios. Mas há muito que se deixaram de superstições. Esgotaram todos os truques e premonições na roda-viva da roleta ou nas fumarentas salas de bingo. Muitos esbanjaram fortunas, outros perderam a mulher, os filhos, o emprego e a dignidade. Azar ao jogo, ao amor, à carreira…

“Olá, eu sou o Augusto e sou um jogador anónimo”, afirma um homem com um fato de bom corte, Rolex vistoso, cabelo grisalho, irrepreensivelmente penteado. É a encarnação do ‘yuppie’ dos anos 90. O tom de voz é surpreendentemente humilde.

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“Olá Augusto”, responde o grupo em uníssono, aliviado. O timbre das vozes quebra a tensão na sala do Centro Paroquial de Carcavelos, onde se reúnem duas vezes por semana os Jogadores Anónimos. Por ironia, estamos apenas a dez quilómetros de distância do maior casino do País.

Augusto escolhe as palavras com cautela, entre mais uma baforada no cigarro. “Sempre que entrava numa sala de jogos, o meu coração alvoraçava-se. A adrenalina disparava. Os olhos brilhavam.” Numa viagem recente ao estrangeiro, a mulher dele foi jogar a um casino. Ele conseguiu reunir forças para não entrar. “Quando ela regressou, disse-me que eu estava com o ‘tal’ brilho. Ri-me. Mas nessa noite não consegui pregar olho. Tinha as batidas do coração tão rápidas como se tivesse jogado.” Acabou por adormecer embalado pela melodia das moedas a caírem das ‘slots machines’.

ÀS PORTAS DO BINGO

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Passam poucos minutos das nove da noite. A reunião vai no início. Sou uma cara nova. A minha presença faz recordar aos mais velhos a primeira vez em que participaram nesta terapia de grupo.

“Se eu tivesse vindo com a sua idade, hoje não estaria arruinado”, desabafa Carlos, que conduz a sessão naquela noite. O homem alto e demasiado magro, de olhos raiados de sangue dá-me um caderno de folhas fotocopiadas. Em direcção aos… 90 dias!, é o título. Fico a conhecer os famosos 12 Passos, uma espécie de receita faça-você-mesmo para combater o bichinho ao jogo. Não é milagrosa. É apenas necessária força de vontade.

“O que é que o trás por cá?”, pergunta-me. Respondo que sou jogador compulsivo de Bingo – uma pequena mentira para poder assistir à reunião sem causar incómodos aos presentes.

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“O bingo é para meninos. Onde se perdem fortunas é no casino”, assegura Vera, a única mulher da sala com um olhar avaliador. “Aqui somos todos iguais. Não há vícios melhores nem piores”, responde-lhe Carlos, para alívio meu.

O moderador muda de assunto e lança na mesa o tema do dia: as expectativas. “Não vale a pena tê-las demasiado altas”, conclui depois de uma leitura demorada, dividida por mais duas pessoas.

António, que acabara de debitar parte do texto, apresenta-se sem demoras e pede desculpa por ter faltado às últimas reuniões. “Por vezes, não tenho coragem”, confessa em voz sumida. Pigarreia duas vezes, antes de fazer a sua confissão: “Quanto mais perdia ao jogo, mais procurava recuperar do prejuízo: era um ciclo vicioso. Perdi a mulher e os meus filhos não querem saber de mim”.

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Ele esforça-se por manter a abstinência há dois anos, mas quando tem um dia para esquecer apetece-lhe mandar as promessas às urtigas. “Não se cura um vício destes. Apenas se pode domá-lo. É uma luta constante.”

Confessa que na semana anterior, depois de uma discussão acesa com o patrão, deu por si a estacionar no parque de um bingo em Lisboa. “Estive quase a sair do carro, mas fiz marcha-atrás e só parei em casa, onde passei o resto da noite a ler um livro.”

UM DIA DE CADA VEZ

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Vestida de preto, como uma personagem de tragédia, Vera confessa continuar agarrada ao jogo: “Esta semana fiz borrada atrás de borrada. Ainda ontem estive no Casino da Figueira da Foz. Ganhei e perdi dinheiro. Mas não me senti bem em nenhuma das situações.” Percebe-se que provém de famílias abastadas, mas o dinheiro está a escoar-se-lhe por entre os dedos. “Ainda não tive de vender nada. Mas falta pouco”.

Ela enche o cinzeiro de beatas, com as mãos trémulas. “Cheguei ao fundo do poço. Mesmo que largue o jogo, sinto-me tão fragilizada que entro noutro vício: o álcool ou os comprimidos.”

Jacinto, um dos mais novos, interrompe-a – embora nestas reuniões seja proibido entrar em diálogo ou fazer juízos de valor: “Porque é que não arranja um passatempo?”, sugere.

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O discurso mais dramático da noite fica guardado para o fim. Diogo, um típico betinho da linha, de olheiras, cabelo desgrenhado e camisa em desalinho, está noutra Irmandade, mas decidiu assistir esta noite à reunião dos JA.

“Só penso no prazer e não meço as consequências. Se vir um cinzeiro cheio de beatas e me apetecer mandá-lo para o chão, faço-o sem pestanejar.” A vida dele não é muito diferente de uma estrela de rock decadente.

“Abuso do álcool e das drogas, tal como a minha companheira. Perdi a conta do número de vezes que fui despedido. Se não fosse a minha filha, já tinha estoirado os miolos.” As palavras são cuspidas com raiva. Só um caloroso “obrigado Diogo”, consegue voltar a descomprimir o ambiente.

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No final, damos abraços, alguns com tal entusiasmo que quase me esmigalham os ossos. Ainda oiço na minha cabeça as saudações efusivas de despedida: “Mais 24”. Ou seja: “Mais um dia de abstinência”.

EMOÇÃO E CORAÇÃO

Na tarde seguinte, dou por mim sentado numa cadeira desconfortável no átrio fresco da capela dos Jerónimos, perto da casa mortuária. Ao meu lado, duas senhoras idosas e uma ‘teenager’ tagarelam sobre o tempo, a ciática e os preços. Na outra ponta, um homem de bigode fininho, olhar ausente, nem parece ouvi-las.

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Estamos à espera de entrar na reunião dos Emocionais Anónimos (EA), um dos grupos de auto-ajuda menos conhecidos e dos mais recentes (nasceram em 1971, no Minnesotta). “Por vezes, aparecem mais de dez pessoas. Noutras reuniões, somos apenas três ou quatro”, explica Madalena, uma sexagenária com um penteado acabado de sair do cabeleireiro.

O que se discute ali? Essencialmente, as carências afectivas. “É sempre bom ver aqui mais um homem. Vocês parecem avessos a confissões do coração.” Madalena vai falando enquanto nos dirigimos a uma sala com um crucifixo pendurado na parede e alguns quadros bíblicos. “Concedei-me Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar”, oram os participantes em uníssono.

O ritual é o mesmo dos Jogadores Anónimos: lêem-se os doze passos, discute-se o tema do dia – que hoje é o medo – e, por fim, cada um dos membros da irmandade faz a sua partilha. Ninguém é obrigado a falar e não há tempo limite em cada discurso. As regras, criadas nos Estados Unidos para os Alcoólicos Anónimos, são seguidas religiosamente.

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“Olá, sou o Hugo e sou um dependente emocional…” Mais uma pequena mentira para poder passar disfarçado. Só respirei de alívio quando ouvi a tradicional frase: “Obrigado, Hugo”. A minha história tinha todos os clichés de uma novela mexicana…. Era a minha vez de ouvir os meus companheiros.

Joana, a bonita ‘teenager’, conta a relação tensa com o namorado que está prestes a terminar. Luísa, a empresária, recorda a infância infeliz com pais severos, que nunca foi ultrapassada. Manuela foi internada num hospício mas continua a ter visões semelhantes às de um filme de terror. Maria é uma mãe que se confessa manipuladora em desavenças constantes com as filhas. Paulo confessa não entender as diatribes da sua mulher, que ora se mostra apaixonada, como no dia seguinte desaparece sem deixar rasto. Madalena, a mais velha, diz ter vivido um casamento desastroso, em que ela não tinha coragem de fazer frente ao marido. “Dizia que sim a tudo. Quando ele morreu decidi ser uma pessoa diferente.”

LINHA S.O.S.

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As partilhas oscilam entre o tom melodramático, o cómico e o enfático. A audiência ri, troca olhares cúmplices, suspira e há quem feche os olhos sorrateiramente quando algumas das histórias é demasiado monótona.

Ao contrário da reunião de Jogadores Anónimos, por estas bandas ninguém se priva de comentar os desenvolvimentos afectivos de cada um: “Então já tiveste coragem de lhe contar que não o amas de verdade?”. Ou, “Porque é que não te impões? Assim, ela nunca te vai ter respeito”. E ainda: “Sai de casa e ganha a tua independência”.

A parte mais alegre fica reservada para o fim. Damos as mãos e fazemos um cântico religioso. Por momentos, parece estarmos entre acólitos de uma seita. A diferença é que não há desmaios ensaiados, padres de retórica fácil, nem a dízima.

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Nos grupos de auto-ajuda é proibida a ajuda financeira. No entanto, depois da reunião, é passada uma bolsinha de mão em mão, onde cada um é livre de fazer uma contribuição simbólica.

Fiz menção de retirar uns trocos do bolso das calças mas Madalena avisa-me que quem se estreia na irmandade não tem de pagar nada. Respirei de alívio, porque as moedas que tinha mal davam para o táxi.

Antes de sairmos, ela tirou-me o caderno das mãos e rabiscou uns números. “É para me ligar sempre que precisar. Se se sentir sozinho ou angustiado, desabafe connosco.”

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A bela ‘teenager’ – bem vistas as coisas, talvez já tenha mais de vinte anos – acabava de me dar o número do seu telemóvel. E, antes que eu tivesse tido tempo para reagir, põe-me na mão um molho de folhas A-4 com as doze promessas dos Emocionais Anónimos:

“Descobrimos uma nova liberdade e uma nova felicidade. A nossa relação com as outras pessoas melhora. Deixamos de agir por interesse próprio.” Seria assim tão fácil? Bem, pelo menos já tinha o número de uma rapariga bonita.

PESADELO DOS CIGARROS

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Um avião sobrevoa o Campo Grande. O ruído dos motores não deixa ouvir as palavras de José, que me tenta explicar há vários minutos porque não perde uma reunião dos Nicotino-Dependentes Anónimos (NDA): “Para mim isto é óptimo. Não se paga nada e posso resolver os problemas com o tabaco”. Vai desfiando a história da sua vida enquanto esperamos que cheguem mais pessoas defronte do portão do majestoso Colégio São Vicente Paulo.

José está desempregado e ocupa o seu tempo em cursos de formação de informática. Ultrapassou uma depressão, fintou problemas familiares e largou o vício, a custo.

“Ainda usei pensos de nicotina e outras terapias de substituição, mas deitei tudo fora por superstição. Fui uma vez a um psicólogo, mas não me serviu de nada. Descobri então estas reuniões e sinto-me um homem renascido das cinzas.” Fico impressionado com o seu discurso triunfante, a fazer lembrar aqueles depoimentos de pessoas que publicitam produtos milagrosos. “O mais difícil é admitir que temos um problema. Depois é tudo mais fácil…”.

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Ao fim de meia hora de espera, só aparecem mais duas pessoas: Ana e Paulo. Apesar de existirem dois milhões de fumadores em Portugal, não parecem ser muitos os que têm real vontade em largar o vício. “Ou têm vergonha ou não acreditam na auto-ajuda”, justifica Paulo, ex-fumador com demasiadas recaídas.

As nossas vozes fazem eco num salão grande demais para quatro pessoas, que cheira a incenso, humidade, cera de velas. Estamos todos entretidos a olhar para o tecto alto, enquanto Ana vai preparando um chá, que substitui o cigarrinho das outras reuniões de auto-ajuda. Deixou a porta aberta na esperança que surja mais alguém. Em vão.

“Vamos fazer um minuto de silêncio para meditar sobre a razão porque nos encontramos aqui”, declara. Ana confessa não estar habituada a conduzir as reuniões. Lê os textos da praxe à pressa e sem a formalidade dos outros grupos. Salta à vista o seu desconforto.

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“Devem falar primeiro os que já largaram o vício”, refere, enquanto distribui copos de plástico para o chá. João repete, ‘ipsis verbis’, a história que contou há poucos minutos antes de entrarmos.

Paulo, o nicotino-dependente que se segue, fala de costas muito curvadas e olhar distante. “Ainda fumo, mas tento afastar os cigarros dos meus pensamentos”, afirma numa voz demasiado baixa e entaramelada. “Custa-me muito porque não vivo com ninguém. Tenho demasiados tempos mortos.” Ele passa os dias em casa a ver televisão, não gosta de fazer desporto e continua a saltitar de emprego em emprego, sem êxito.

“Há poucos dias voltei a encontrar-me com familiares e amigos, mas alguns desceram mais fundo do que eu. Meteram-se nas drogas duras.” O tom é desencantado, como se nada já o emocionasse. Desconfio que o problema dele não é o tabaco, mas algo bem mais profundo e indefinível.

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BEM-VINDO AO CLUBE

Ana não compra um maço de tabaco há três anos. “Fumava 50 cigarros por dia e pesava 47 quilos. Depois de largar o vício engordei 15 quilos.”

A vida dela mudou radicalmente e não foi apenas pela gordura extra. “Voltei a sentir os cheiros, os sabores. Por outro lado, senti uma vaga tristeza e nunca mais tive a mesma rentabilidade no trabalho.” Para compensar a abstinência, inscrevem-se em tudo o que eram desportos pós-laborais. “Experimentei de tudo: desde a natação e ioga até às danças brasileiras. Faz-me transpirar bastante e saio de lá com alto astral.”

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Os sinos da igreja de São Vicente Paulo, que anunciam as nove da noite, fazem-na recordar os primeiros tempos nas sessões dos Nicotino-Dependentes Anónimos. “Hoje sou a pessoa mais antiga deste grupo e sinto-me responsável por todas as pessoas que passam por aqui.”

Ana revela que nestas mesmas cadeiras onde estamos sentados, esteve um fumador em estado terminal que acabou por morrer de cancro. “Senti uma grande dor, como se perdesse alguém da minha família.” A história impressiona Paulo, que pede para interrompê-la. “Não podes. Tens de esperar pelo fim. Aí sim, podemos conversar.” Regras são regras.

Depois da partilha da Ana, recebo uma ficha cor-de-laranja, semelhante às dos casinos, com a inscrição ‘Wellcome’, a letras douradas. “Cada cor representa o número de dias que resistimos à compulsão de um cigarrinho.” A partir de agora passava a ser membro oficial do clube.

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“E se a pessoa voltar a fumar, o que lhe acontece?”, pergunta Paulo. “É simples. É obrigada a devolver todas as fichas e volta à estaca zero”, responde-lhe Ana sem hesitar.

A reunião termina com os abraços da praxe, embora estes sejam mais frouxos e com a bolsinha das moedas a circular de mão em mão. Nenhum dos dois homens dá dinheiro. “Não temos”, justificam. Ana é a única doadora. “As nossas contas estão com saldo negativo. É preciso pagar a renda, o telemóvel, as colheres e o saco de chá”, explica, pouco antes de apagar a luz.

Já é noite escura quando saímos da instituição religiosa. Para além da ficha, trago na mão quatro panfletos de cores berrantes. Entre as 53 dicas para deixar de fumar há uma que salta à vista: “O seu hálito não cheira mais como um cinzeiro. Os seus dedos não estão mais manchados de nicotina. A sua pele tem uma cor mais saudável. A sua atitude consigo mesmo é melhor, porque está realmente a cuidar de si.” Contra factos não há argumentos.

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Os Alcoólicos Anónimos foram o grupo pioneiro de auto-ajuda. Nasceram em 1935, nos EUA, quando um corretor da Bolsa e um cirurgião de Ohio, ambos alcoólicos, descobriram que, ao partilhar as suas experiências, conseguiam controlar a sua compulsão para beber. A partir dessa experiência comum, fundaram os AA, numa tentativa de ajudarem outros alcoólicos e de se manterem sóbrios. A aplicação do programa na prática criou-lhe os contornos, definiu passos e tradições. Assim, nasceu uma irmandade que se espalhou rapidamente pelo mundo e conseguiu recuperar mais alcoólicos do que qualquer outra. Nos anos 50, no Estado de Minnesota (EUA), surgiu um modelo de tratamento para o alcoolismo completamente inovador, que enfatizava o crescimento espiritual e a dignidade do indivíduo e incluía, entre outros componentes, a filosofia dos 12 Passos. Hoje, os AA têm mais de 100 mil grupos, espalhados por 150 países, com mais de dois milhões de membros.

(AA Portugal, Tel: 21 716 29 69, www.aaportugal.org Neste site, encontram-se os locais e horários das reuniões em todo o país).

Para além dos Alcoólicos Anónimos e dos Narcóticos Anónimos, existem outros grupos de auto-ajuda, menos populares mas igualmente importantes para quem tem problemas com o tabaco, jogo, comida ou emoções.

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Nestas reuniões gratuitas, o anonimato de quem as frequenta é sagrado.

Jogadores Anónimos - Segundas e Quintas, 21h15, Centro Comunitário de Carcavelos.

Nicotino-dependentes anónimos - Quartas, 20h00, Colégio São Vicente Paulo, Campo Grande.

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Emocionais anónimos - Segundas, 17h45, Centro Paroquial dos Jerónimos.

Adidos à comida anónimos - Segundas, 19h00, Igreja das Furnas de Sete-Rios / Quintas, 18h30, Igreja de Fátima, na Avenida de Berna.

PERGUNTAS A... JOAQUIM M. CARRILHO ( PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DA MEDICINA DE ADIÇÃO)

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A adição é uma doença?

No início é um acto comportamental. Depois, a certa altura, dão-se alterações cerebrais que provocam o estado de dependência e a pessoa fica doente. É uma doença de comportamento.

Não. É uma doença que, sendo tratável, não deixa de ser crónica. O processo é semelhante às doenças de foro oncológico, em que há sempre um determinado risco de recaída.

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Quais são as taxas de sucesso do Modelo Minnesota seguido pelos grupos de auto-ajuda?

São muito superiores aos obtidos por adictos que não fizeram tratamento ou foram sujeitos a tratamentos com outros métodos. Na minha experiência clínica, noto nestes doentes uma qualidade de recuperação muito superior em termos de lidar com a vida. São pessoas muito mais harmónicas e menos enviesadas.

Porque funciona tão bem o programa dos doze passos?

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Porque há uma partilha de valores entre os adictos. Poder ouvir a história de uma pessoa que esteve no fundo do poço, e que veio a recuperar, é um grande sinal de esperança para os mais novos. Os grupos de auto-ajuda de doze passos são um exemplo de solidariedade real.

O anonimato é essencial?

É. Por um lado, para não quebrar o elo de grupo. A criação de lideranças pode ser perigoso e servir de desmotivação entre os membros. Recorde-se que um dos fundadores dos Alcoólicos Anónimos nos Estados Unidos recaiu ao fim de 20 anos. Por outro, serve para não haver estigmas sociais. Todos são iguais.

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