Vida sem passado
José Torres foi derrotado pelo mais temível dos adversários: a Alzheimer. Mas a família do Bom Gigante irá jogar com ganas até ao último minuto. Memórias de um homem que perdeu a memória.
A mão gigante estendida no ar e o assobio prolongado nos lábios enfeitiça o bando de pombos que esvoaçava em frente à marquise, em círculos erráticos. Uns poucos aproximam-se, pousando na velha antena de televisão. Os mais afoitos aventuram-se até ao parapeito de alumínio, depenicando, sem timidez, a ração de milho que Xaninho lhes distribui com afeição. Ao sentir as bicadas furiosas das aves na palma da mão ele sorri como um rapaz de 13 anos. O mesmo rapaz que numa outra tarde solarenga decidiu, num impulso, matar todos os pombos da família. Xaninho tinha-se fartado da lenga-lenga do pai sobre as malditas aves e das mil e uma restrições em jogar à bola com os amigos. Mas quando viu os animais sem vida no pombal, o miúdo mal--humorado e de bom coração desatou a chorar num rebate de consciência. O pai ficou furioso com a chacina no pombal, mas ao assistir à tristeza do filho comprou-lhe uma bola de futebol. Se era aquilo que o fazia feliz… O rapaz enxugou as lágrimas, abraçou o pai, deu uns toques no esférico e foi com ele comprar uma dúzia de pombos.
Xaninho provavelmente já não se recorda do episódio dourado da infância, mas continua a assobiar tal e qual o seu pai lhe ensinou em miúdo. Os pombos, já sem milho para comer, desaparecem nos céus da Amadora de papo cheio. Em tempos eram mais de 60 no seu pombal, hoje só restam 30. Ele regressa ao confortável sofá da sala num passo vagaroso e desequilibrado. Durante o demorado trajecto pela alcatifa, olha para a parede decorada com taças, medalhas, camisolas autografadas e fotografias onde aparece invariavelmente vestido com uns calções brancos e uma camisola vermelha. Eram os tempos de glória do Bom Gigante. A pose triunfante dos retratos emoldurados não poderia ser mais diferente deste homem de expressão vaga e cansada, cabelos brancos e costas curvadas pelo peso dos anos. O rapaz alto, lingrinhas e desajeitado, terror dos defesas-centrais, ídolo de multidões, foi derrotado pelo mais temível dos adversários: a Alzheimer. Por causa dele, não se recorda de um só golo dos 260 que marcou, mal consegue trocar duas palavras com quem mais ama, e para executar a mais rotineira das tarefas precisa do auxílio da mulher e dos quatro filhos. Aos 66 anos, José Torres está aprisionado aos desatinos do destino.
FÚRIAS AO VOLANTE
A espaçosa casa dos Torres, situada num dos bairros antigos da Amadora, é um corrupio. Durante o dia, o telefone e a campainha não param de tocar. Os cães ladram no quintal, excitados com a roda-viva de netos, amigos, namorados, sobrinhas a entrar e sair. Apesar do drama recente que se abateu sobre a família, o fatalismo ficou à porta de entrada do n.º 19. “Comecei a desconfiar que ele não estava bem há cinco anos”, lembra Alcinda, mulher de Torres há quatro décadas e três anos mais nova que o marido. Nos seus pachorrentos passeios de carro, Xaninho – alcunha que vem dos tempos de namoro – já não segurava o volante com a mesma destreza. “Tinha de lhe gritar para ele travar a tempo e não atropelar ninguém na passadeira. Deixou também de conseguir estacionar à primeira”, recorda. Torres, um paz de alma congénito, perdia as estribeiras com as chamadas de atenção da mulher: “Eu é que sei, não me digas nada!”, vociferava. Segundos depois, ele voltava ao estado normal mas o ambiente familiar gelava.
A filha mais nova, Ana, 27 anos, cara chapada do pai e quase tão alta como ele, viaja também no tempo: “Quando lhe fazia as perguntas mais simples e ele não me conseguia responder, pensava que estava a gozar comigo. Ele sempre foi muito brincalhão.” Não era piada, alertaram-lhes os neurologistas. “No início pensaram tratar-se de uma depressão por ter abandonado o futebol. Como ele sempre foi muito reservado nunca sabíamos ao certo o seu estado de espírito.” As perdas de memória e as dificuldades de locomoção de José Torres agravaram-se depois de uma cirurgia à próstata. “Os médicos podem dizer que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mas ele nunca mais foi o mesmo desde então”, sentencia Ana, que ao ouvir a palavra Alzheimer pela primeira vez levou um soco na alma. “É horrível ver uma pessoa alegre e dinâmica, ficar apática, sem reacção... Ninguém está preparado para isso.” Em poucas semanas, Ana deixou de ter um pai para conversar sobre os pombos, namorados, ou assuntos menos triviais…
As tensas e estéreis reuniões de família iam desmoralizando a equipa. Nenhum deles sabia ao certo como enfrentar o problema. “O José era a base da família. Ficámos desorientados”, suspiram. Um dia, farta de lamúrias e discussões, Alcinda disse basta e colocou a braçadeira de capitão: “Estou habituada a cuidar de pessoas. Já em miúda, tomava conta de velhotes doentes. Deve ser um desígnio de Deus”. Desde então, os seus dias passaram a ser obsessivamente vividos em função do marido. Só faltou mesmo vestir o uniforme branco de enfermeira: “Li tudo sobre o Alzheimer, falei com os médicos. Tinha de ser mais forte do que nunca.”
SOFRER EM SILÊNCIO
Todas as tardes, Alcinda agarra-se ao braço de Xaninho e lá vão os dois espairecer para o jardim da Amadora como dois pombinhos apaixonados. Mas ao contrário dos velhos tempos, ela escolhe sempre o banco mais escondido, debaixo da árvore mais frondosa e sobretudo longe de olhares curiosos. Ser uma figura pública é hoje uma enorme desvantagem para o Bom Gigante. “As pessoas são cruéis. Olham para ele como se fosse um bicho raro ou então tratam-no como um coitadinho, embora haja excepções”, relata com tristeza incontida. Num dos últimos passeios, apercebeu-se que um grupo de velhotes cochichava e apontava na sua direcção. “Tiveram o descaramento de chamar os amigos para assistir ao ‘espectáculo’.” Alcinda reagiu mal e gritou-lhes umas palavras feias. Foi remédio santo. “Desapareceram dali em passo rápido”, conta a sexagenária que sonha ter um quintal maior para o proteger de ‘voyeurs’ inconvenientes. A situação financeira dos Torres, no entanto, não lhe permite grandes lirismos. “Fiz uma promessa: enquanto for viva, nunca o deixarei num lar, ou em casa deitado na cama. Quero dar-lhe uma vida alegre”, exclama enquanto acaricia o rosto comprido da sua paixão de sempre. Xaninho abana a cabeça e responde apenas com um sorriso infantil. “O Alzheimer pode não ter cura, mas ele anda estável graças ao meu carinho.” Há um mês, teve um lampejo de esperança quando o marido veio ter com ela e lhe perguntou espontaneamente, se ela estava a bordar. “Disse-lhe que sim, e ele respondeu-me com um efusivo ‘Ah’!”. À noite contou o episódio à família, mas o cepticismo já os contaminou como uma gangrena: “Os remédios só estabilizam a doença.”
Nos últimos tempos, os ouvidos de Alcinda ganharam uma capacidade extra-sensorial: um simples ranger da cama, um silêncio demasiado prolongado podem ser sinais de alerta: “Há pouco tempo falhei. Estava na cozinha e não me apercebi que ele caiu da cama e se magoou.” Em vez de se queixar, Torres voltou a deitar-se debaixo dos lençóis em silêncio. “Só reparei na ferida na cabeça mais tarde. Fiquei muito assustada e com medo que pudesse ter uma trombose.” Não é mero exagero de esposa devota. O ex-futebolista padece também de uma arritmia cardíaca. Uma ironia para quem praticou desporto toda a vida, nunca bebeu ou fumou…
Não será maldição, mas José Torres está longe de ser um homem de sorte. No mesmo ano em que se manifestavam os primeiros sintomas do Alzheimer, o magriço descobria que passara uma vida inteira enganado no futebol. Na Caixa, os únicos descontos em seu nome remontavam à adolescência, quando era aprendiz de serralheiro e ganhava um ordenado miserável. “O Benfica nunca lhe pagou a reforma. Aliás nunca lhe deu a importância que ele merecia. Nem uma singela homenagem…”, queixa-se Ana, sem lamechices exageradas, porque se houve lição que aprendeu com o seu pai foi a de não esperar demasiado das pessoas.
ET PLURIBUS UNUM
Nas imediações do Estádio da Luz não há estátuas de José Torres à vista, embora ele tenha feito parte do quinteto que mais glórias deu ao clube, nos anos 60. José Augusto, Coluna, Eusébio e Simões eram as outras estrelas vermelhas. “Não foi chegar, ver e vencer, como César”, recorda Artur Santos, ex-companheiro de equipa, que se lembra da sua chegada em 1959. “Ele vinha com uma tarefa ingrata: a de fazer esquecer José Águas.” Três anos depois, aquele avançado de fisionomia caricata, com longas pernas de alicate, a quem apelidavam de ‘45 Tromba Larga’ ou ‘Bom Gigante’ saiu do anonimato. A razão era simples, foi o melhor marcador do campeonato com 26 golos.
Na Europa, começou a dar nas vistas depois da final contra a Fiorentina, num torneio em Cadiz. Com o resultado emperrado num 3-3, o treinador Lajos Czeiler manda entrar José Torres a 30 minutos do fim. O rapaz de Torres Novas estava com fome de bola e lá marcou quatro golos. “Esse jovem gigante que não tem físico de futebolista, será falado por toda a Europa”, declarou o mítico Bela Guttmann, o mesmo homem que augurou que o Benfica, sem ele, não iria ganhar mais finais europeias. Acertou nas duas profecias. No ano seguinte, Torres foi o herói da meia--final da Taça dos Campeões, em Praga, contra o Dukla. Reza a lenda que, antes do jogo, a polícia checa contratou prostitutas para desorientar os portugueses. Sem resultado. Na final, em Wembley, diante do Milan, o Benfica soçobrou, mas o avançado impressionou os jornalistas do ‘L’Equipe’ e ‘France Football’: “Ele é a nova vedeta do surpreendente futebol português”, escreveram.
Nas 12 temporadas em que morou na Luz, marcou 152 golos em 169 jogos, foi campeão nacional por nove vezes e esteve presente em três finais da Taça dos Campeões (todas perdidas). “Embora não fosse tecnicamente perfeito, para ele parecia ser muito fácil marcar golos”, lembra Artur Santos, dirigente do Benfica e um dos poucos a manter o contacto com a família Torres. “Os passes eram do Cavem e do José Augusto. Ele só tinha de dizer sim à bola.” Alcinda nunca via os jogos do marido no estádio. Sofria por ele no silêncio da casa da Amadora. “Ele preferia não misturar o clube com a família”, lembra. “E não falava dos problemas do futebol.” Numa das raras ocasiões em que foi esperá-lo ao aeroporto estava grávida do primeiro filho, José. Não era para menos: os Magriços tinham conquistado o 3.º lugar no Mundial de 1966 em Inglaterra. “Fiquei durante horas à espera dele, em pé, porque o avião se atrasou. Mas valeu a pena.” Torres atingira o céu. O país inteiro estava fascinado com os feitos do Bom Gigante e da Pantera Negra.
DO SONHO AO PESADELO
O futebol, desporto feito de carreiras fulgurantes mas meteóricas, esquece depressa os seus mitos. Com 36 anos nas pernas, José Torres já não joga debaixo das luzes da ribalta, mas no modesto campo do Estoril-Praia. Ao contrário de muitos craques da sua geração, ele teima em não arrumar as botas. O salário no Benfica nunca foi principesco e, para além da columbofilia e da serralharia, Torres não sabia fazer outra coisa que não fosse dar pontapés numa bola. Curiosamente, são os tempos mais alegres da carreira. “Fui buscá-lo ao Setúbal, onde marcava ainda muitos golos”, recorda João Lachever, então responsável pelo departamento de futebol dos canarinhos. A elevada estatura continua a ser o seu trunfo. Não para marcar golos, mas para mandar na defesa, como trinco. “Era fenomenal. Ninguém passava por ele.”
As poses de vedeta nunca foram a sua imagem de marca. Uma vez, depois de um jogo contra o Sporting de Braga, a equipa vinha para Lisboa no velhinho autocarro do clube, como de costume. Chovia copiosamente. No início da viagem, o pára-brisas partiu-se. Como não havia um sobressalente, os jogadores ataram-lhe uma guita para remediar. Durante o resto da viagem, José Torres, de um lado e o guarda-redes Manuel Abrantes, do outro, puxavam o cordel, afastando a água que caía a cântaros dos céus. “Se não fossem eles, o motorista nem sequer teria arrancado, tal era a chuva”, recorda Lachever. Nas últimas épocas no Estoril, o Bom Gigante vestiu a braçadeira de treinador em ‘part-time. A ‘full-time’, treinou mais tarde o Estrela da Amadora, o Varzim e a Selecção Nacional. Durante a missão quase impossível de levar a equipa das quinas ao Mundial de 1986, fez um repto aos portugueses: “Deixem-me sonhar.” Poucos acreditavam em milagres, até que Carlos Manuel, com um pontapé histórico, marcou um golo à poderosa selecção alemã, no último jogo de apuramento. Portugal lá viajou até ao México. O pesadelo estava prestes a começar. “O meu pai nunca me revelou muito sobre Saltilho, mas para ele foi um grande trauma”, revela José, o filho mais velho de Torres. “Sabíamos que o Silva Resende – então Presidente da Federação Portuguesa de Futebol – não queria dar mais dinheiro aos jogadores. Ele nunca cumprimentava os atletas, nunca ia ao relvado...” Torres é apanhado no meio do fogo cruzado entre atletas e dirigentes e regressa a Portugal como carrasco: “A derrota da selecção foi causada pelos problemas de dinheiro? Não sei. O futebol é uma caixa de surpresas…”, suspira José enigmático. Depois do imbróglio de Saltilho, o Bom Gigante ainda treinou o Boavista, mas passou mais tempo a viver do subsídio de desemprego do que do salário de treinador. Rapidamente se desencantou com o mundo da bola.
VIAGENS NA MINHA TERRA
Sentado em frente ao televisor, que transmite um filme qualquer, Xaninho vê as imagens a desfilar pelo ecrã, sem nexo. Podiam ser o enredo da sua vida recente, não fosse o argumento demasiado previsível. Espalhados no sofá, os amarelecidos jornais desportivos, que coleccionou com afã, contam as suas aventuras na primeira pessoa. “Aviões, nunca mais!”, afirmou numa entrevista, onde recordava uma atribulada viagem a Luanda, em que os motores do Super-Constelation falharam no ar. O pânico foi tal que Ângelo, o fogoso médio-esquerdo da Luz, saiu numa cadeira de rodas: “Não vou de avião para lado nenhum. Nem para Madrid ou Paris. Prefiro ir a pé”, rematava.
Fosse ou não pelo receio dos aviões, Torres nunca viajava para muito longe com a família. “Passávamos férias na Nazaré, nunca no estrangeiro”, conta Alcinda. “Mas divertíamo-nos à mesma.” Foi naquela estância balnear, em voga nos anos 60, que os dois se conheceram. Depois de uma troca de olhares e salpicos na água salgada, ela teve direito à pergunta da praxe: “Queres namorar comigo?”. Alcinda nunca lhe respondeu. “Ele tinha uns olhos bonitos, grandes e alegres”, diz com ternura.
Seguiu-se um casamento na Igreja dos Anjos, com pompa e muitos convidados VIP. “Compareceram mais de 200 pessoas, entre elas o Eusébio e o Coluna. Fomos até escoltados pela polícia.” O casamento parecia um conto de fadas, mas nem sempre de tom cor-de-rosa: “Ele ausentava-se muito tempo, por causa dos jogos no estrangeiro. Embora não fosse pessoa de farras, ficava preocupada. Afinal, ele é homem. Mas tinha confiança nele…”.
A amizade com João Lachever trouxe ventos de mudança nos hábitos enraizados do clã Torres: “Comigo, começaram a passear para todo o lado. Éramos grandes compinchas”, revela o ex-dirigente do Estoril com nostalgia. “Sinto saudades desses tempos.” Há um ano que Lachever não vê o Bom Gigante. Não tem coragem. “A Alcinda contou-me que sou o único amigo de quem se recorda. Se nos encontrarmos, vou chorar”.
Na sua casa da Amadora, Xaninho deixa-se adormecer em frente ao televisor, alheio ao drama do companheiro de viagens. Embora não tenha ido passear ao jardim, está visivelmente cansado. Já não ouve o arrulhar dos pombos que povoam a janela da marquise. As aves aguardam pelo seu assobio e seguiram em bando até ao pombal. Em vão. Ele já dorme a sono solto.
O MISTÉRIO DE ALZHEIMER
Alzheimer é uma doença degenerativa do cérebro, sem causa conhecida e sem cura. Afecta sobretudo idosos. Os sintomas aparecem lentamente: a pessoa perde a memória recente e não encontra palavras para se expressar. Com o tempo é afectada a capacidade cognitiva, laboral e social, até o doente perder a sua autonomia. “A doença pode arrastar-se durante anos”, afirma Maria do Rosário Reis, Presidente da Associação Portuguesa de Familiares e Amigos de Doentes de Alzheimer. “Em Portugal, estima-se que haja 70 mil doentes.” Em 2001, testou-se uma vacina, mas a experiência foi cancelada. Um estudo recente demonstrou que alguns doentes testados reagiram bem à vacina. “O interesse na vacina mantém-se”, defende a neurologista Ângela Valença. Por enquanto só existem medicamentos para estabilizar a doença. Mas são muito caros. Uma embalagem custa 100 euros e não chega para um mês.
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