Volta ao universo encantado do Natal
França, Ucrânia, Estados Unidos ou Cabo Verde. As formas de celebrar a quadra são mais que muitas, mas ninguém lhe fica indiferente. Ronda aos ritos e tradições que a tornam mágica.
Nem só de bacalhau e rabanadas vive o Natal. Os motivos, figuras e menus da quadra seguem as mais variadas tradições e preceitos dos quatro cantos do Mundo. A festa também se faz entre os condimentos alternativos, a fusão com os hábitos locais e as celebrações fora de portas.
A relação cúmplice com o stress e com o consumismo desenfreado é inegável, mas a festividade mantém o seu grau de importância um pouco por todo o Mundo. Em Portugal, o pendor religiosos e as tradições pagãs misturam--se com os costumes anglo-saxónicos, disseminados de lés a lés. O pinheiro, o presépio, as bolas e luzes, o Pai Natal e o menino Jesus dão um ar de sua graça nos lares de Norte a Sul. Os menus reciclam-se, ajustando-se ao gosto particular de cada um, os programas fora de horas crescem, mas prevalece, no entanto, o aspecto mais relevante: a festa familiar por excelência no regresso às origens, que deixa as divergências fora da mesa da Consoada.
Para muitos, a noite de 24 de Dezembro ainda se faz com uma ceia especial depois da Missa do Galo. O prato de bacalhau, geralmente cozido com legumes, para simbolizar a abstinência que se deve preservar na véspera da celebração do Natal, mantém-se uma referência. Os doces e sobremesas não são menos populares. As rabanadas, azevias, filhós de abóbora, as broas de mel e os frutos secos perfazem o cardápio, que se adequa às tradições locais.
O dia de Natal também encerra algumas tradições especiais. Várias famílias reúnem-se em torno do cabrito assado ou do peru, um costume importado de países como a Inglaterra e os Estados Unidos. E Natal nem seria Natal sem o típico Bolo Rei, consumido até ao dia de Reis. No resto do Mundo, mudam-se os tempos e costumes, mas a vontade de manter aceso o espírito de Natal sobrevive em rituais únicos.
‘FRÖHLICHE WEIHNACHTEN’
O Tannenbaum, ou Pinheiro de Natal, é o grande símbolo germânico, a par da coroa ou centro, que marca a tradição de assinalar o Advento. Suspensa ou disposta numa mesa, contém quatro velas em redor do círculo e uma quinta, maior, no meio. A primeira vela é acesa no início do Advento, quatro semanas antes do Natal. As restantes são acesas nas semanas seguintes, enquanto a do centro é acesa no dia de Natal.
Semelhante à experiência portuguesa, o momento mais importante é a consoada, quando a família nuclear se reúne para trocar presentes e entoar canções tradicionais. O Natal alemão é acompanhado pelo ‘stollen’, um pão doce, há mais de cinco séculos. Por sua vez, o dia de Natal é passado com um leque mais alargado de familiares.
ANGOLA, CABO VERDE, GUINÉ-BISSAU, MOÇAMBIQUE E S. TOMÉ E PRINCIPE
'BOAS FESTAS’
Embora os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) – Angola, Guiné-Bissau, Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe – tenham diferentes raízes culturais e políticas, têm em comum a elevada percentagem de cristãos, que cultivam as tradições natalícias levadas de Portugal pelos antigos colonos. Na véspera, celebram apenas a Missa do Galo, deixando a refeição festiva para o dia seguinte. Os caboverdianos costumam fazer um cozido, celebrando com peixe, não necessariamente bacalhau. Em todos predomina o bolo de Natal. A árvore também é um símbolo de peso. “Boas Festas” é uma das canções mais famosas de Cabo Verde, foi gravada na década de sessenta, por Luís Morais e continua a ser um dos temas mais emblemáticos do seu repertório e um dos mais tocados.
‘GELUKKIG NIEUWJAAR’
O Natal chega mais cedo para os holandeses, cujo ponto alto das celebrações acontece no dia 5 de Dezembro, véspera do dia de São Nicolau. Por esta ocasião, o famoso Pai Natal cede o seu lugar a uma personagem chamada ‘Sinterklaas’, que entrega os presentes às crianças. A identidade da pessoa que realmente oferece as prendas não é conhecida. Para os adultos, a festa inclui a troca de piadas, partidas, poemas sobre a família e amigos, uma mão-cheia de massapão e chocolate quente. Tocar à campainha de uma casa e fugir a sete pés é apenas uma das muitas tropelias que um vizinho holandês lhe pode fazer.
‘FELIZ NAVIDAD’
A festa religiosa começa a 8 de Dezembro, dia da Imaculada Conceição, mas as crianças têm que esperar pelos presentes, até dia seis de Janeiro. Várias comunidades emigradas no estrangeiro rendem-se à troca de prendas da noite da consoada para que os mais pequenos possam brincar com alguns dos presentes novos antes do regresso às aulas. Outra das tradições vividas intensamente é a aposta na grande lotaria do Natal, ‘El Gordo’.
Milhões de espanhóis suspiram por muitos outros milhões de euros. A sorte anda à roda no dia 22 de Dezembro. Na véspera de Natal, as famílias reúnem-se em torno de pratos de peixe, seguidos de carne. A tradição da véspera, ‘Nochebuena’ é totalmente familiar. O menu é muito variado. As sobremesas, em geral, são torrões e tortas, alguns doces de origem árabe com amêndoas e mel. À meia-noite, os católicos praticantes, dirigem-se à igreja para a tradicional Missa do Galo. Na Catalunha, a grande festa é o dia seguinte, de Santo Estêvão.
‘KALA CHRISTOUYENNA’ OU ‘EFTIHISMENA CHRISTOUGENNA’
Apesar da Páscoa ser mais importante para a Igreja Ortodoxa, em toda a costa do Mar Egeu, o Natal e o Ano Novo são comemorados com muitas superstições. O Pai Natal não é tão famoso como São Nicolau, santo padroeiro dos marinheiros e navegantes. As famílias decoram pequenos barcos de madeira com velas e colocam-nos nas janelas de suas casas em substituição da árvore. Na noite da véspera os meninos pequenos entoam canções tradicionais e vão de casa em casa. Assa-se vedette, uma pastelaria oval que se oferece aos amigos e vizinhos num sentimento de divisão.
‘FELIZ NATAL’
Os festejos de Natal acontecem no pico do calor. No Rio de Janeiro existe a tradição de se montar uma árvore flutuante na Lagoa Rodrigo de Freitas. Cidades pitorescas como Campos de Jordão em São Paulo e Gramado e Canela na Serra Gaúcha enfeitam-se de forma a dar um sabor europeu ao Natal brasileiro. A noite de 24 é movimentada, já que o costume da Missa do Galo mantém-se. Os presépios são parte integrante da decoração.
Na Baía, no dia 24, as famílias mobilizam-se para montarem a lapinha, como é conhecido o presépio natalício. A ceia é em geral o ponto alto da noite sempre rica dentro das posses de cada clã. O bumba-meu-boi, o boi-boi-calemba, as cheganças, as marujadas ou fandangos, as congadas, os congos e os reisados são algumas das tradições populares inscritas nas festas.
‘SHENG TAN KUAI LOH’
A festa é tomada de empréstimo do Ocidente, já que a maioria da população não é cristã. O aspecto natalício mais saliente durante esta temporada são os exteriores. A decoração dos centros comerciais e residências é visível em alguns pontos, prevalecendo as típicas lanternas de papel. Com a incursão da China no grande mercado das comemorações natalícias, os enfeites de cariz ocidental foram conquistando adeptos. Não estranhe se entrar na casa de um chinês e deparar com algum ornamento. De resto, nas lojas e restaurantes fora do seu país de origem a rendição aos costumes anglo-saxónicos é visível.
‘JOYEUX NOËL’
Feirinhas natalícias, concertos nas igrejas e a espera do famoso Père Noël são algumas das tradições. Na Alsacia e Lorena estão arraigadas as tradições de origem germânica. O Natal começa a 6 de Dezembro, mas já se respira desde 25 de Novembro, Dia de St. Catarina. No Sul, as tradições têm sabor mediterrâneo. Ainda é comum adornar as casas com presépios, chamados ‘crêche’, mas também as árvores de Natal estão presentes.
E se no século XIX estas eram decoradas com frutas genuínas, especialmente maçãs, em 1858, devido à má colheita, os mestres vidreiros de Moselle, criaram a moda das bolas de cristal. Como bons apreciadores da melhor cozinha, os franceses preparam com requinte a ceia de Natal. É típico comer patê de fígado de ganso, e peru assado. Como sobremesa, serve-se ‘la bûche de Noël’ (o célebre tronco).
‘BUON NATALE’
O Presépio é feito em muitas casas, principalmente no Sul. Segundo a tradição, isso retoma o tempo de São Francisco. A ceia de Natal é repleta de pratos que variam de região para região. Os doces típicos das festas são o panetone, o pandoro e o torrone. Quando acaba a ceia, as pessoas esperam a meia-noite jogando cartas, até o momento em que poderão abrir os presentes e ir à missa. A Befana é uma velhinha representada como uma bruxa que vai de casa em casa na noite do dia 5 de Janeiro para distribuir os presentes. As crianças deixam as meias penduradas nas lareiras para que a bruxa deixe chocolatinhos para aqueles que foram bons durante o ano ou carvão para quem se portou mal.
‘HAPPY CHRISTMAS’
Inglaterra é famosa pelos cartões de Natal, que remontam a 1845. O mais original costume natalício é o ‘mumming’. Na Idade Média, pessoas conhecidas por mummers, usavam roupas e máscaras para representar peças que em algumas cidades são mantidas até hoje. O Pai Natal, ou Father Christmas, faz a sua aparição na noite de Natal e deixa os presentes para as crianças em meias (Christmas Stocking) ou em fronhas (Christmas Pillowcase). No dia 25, serve-se um pudim de frutas cristalizadas e bolo de passas. Dia 26 é Boxing Day, costume dos mais pequenos recolherem donativos e abrirem as caixas quando estão cheias. E há 150 anos que os crackers estão ao lado de cada prato na noite de Natal.
‘Z RIZDVOM KRYSTOVYM’ OU ‘VESELOGO RIZDVA’
Sviata Vechera ou Santa Ceia é a principal tradição da véspera de Natal. Outro hábito é a toalha com motivos que lembram a manjedoura. Quando as crianças avistam a primeira estrela no céu, que simboliza o sinal para os três Reis Magos, é o sinal para começarem a Ceia. Nas comunidades rurais, é costume colocar no alto da porta de entrada ramos de trigo simbolizando a fartura e as boas colheitas, num gesto de graças. No fim da Ceia, a família canta canções festivas, geralmente a Kolyadky, a mais conhecida na Ucrânia.
‘MERRY CHRISTMAS’
É umas das referências do Natal em todo o Mundo, consagrado no imaginário colectivo. Nas casas norte-americanas, a decoração com lâmpadas coloridas, bonecos de neve, velas vermelhas e grinaldas feitas de plantas verdes completam o ambiente natalício. A figura do Pai Natal dá o mote.
Na véspera de Natal os vizinhos reúnem-se para cantar ‘Christmas Carols’ (canções de Natal). As crianças penduram meias na lareira e na manhã do dia 25 de Dezembro abrem os presentes. Algumas refeições incluem Popovers (leves bolinhos assados), peru, puré de batatas, molho de ‘cranberries’ e vários outros pratos à base de vagens ou abóboras. Bolachas e tortas são degustadas como sobremesas.
Uma bebida popular das festas é o ‘eggnog’, feito com ovos, leite, açúcar e, algumas vezes, rum. Na Nova Inglaterra, um prato tradicional é o ‘Lumberjack pie’, feito com uma massa de puré de batatas e recheado com carnes, cebola e canela. No começo de Dezembro, em Nova Iorque, é possível assistir à Tree-Lighting Cerimony, quando a gigantesca árvore de Natal do Rockfeller Center é acesa.
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