"Woodstock mudou a nossa alma"
O festival que foi um marco da contracultura deixou marcas no coração de muita gente. Também no deste radialista. Mesmo se, há quarenta anos, por cá a música era outra.
- Onde é que estava no dia 15 de Agosto de 1969?
- Estava quase de certeza absoluta de férias e quase de certeza absoluta na Figueira da Foz. Tinha 18 anos, ia fazer 19 nesse ano. E provavelmente estava a trabalhar em termos de pura camaradagem numa boîte, como se dizia na época, denominada ‘Pessidónio’, a segunda mais bonita que existia no País, a mais bonita era a Dono. Urraca no Porto. Eu era amigo do dono, Rui Montargil, irmão do médico que me pôs no mundo, Nuno Montargil.
- Fazia ideia do que se estava a passar a 130 quilómetros de Nova Iorque?
- Não, nessa altura as notícias eram escassas e filtradas - poucas em número e, em termos de conteúdo, muito reduzidas, completamente cortadas. O que se sabia é que havia um festival com os grandes nomes da música anglo-americana da época, os que estavam em ascensão. Eu, ainda não por razões profissionais mas de proximidade do meio radiofónico, já sabia, por exemplo, quem era o Joe Cocker, por cá então absolutamente desconhecido, e já tinha ouvido o disco dos Crosby, Stills & Nash, que se estrearam no festival de Woodstock.
- Estrearam-se e ‘desdobraram-se’, não foi?
- É uma história curiosa. Os Crosby, Stills & Nash estreiam-se em palco e duplamente porque a meio da actuação nasce um novo grupo, Crosby, Stills, Nash & Young: a dada altura, para aí à sétima ou oitava canção, o Steven Stills anuncia que vai chamar ao palco o novo elemento do trio e que o trio deixava de ser trio e passava a ser quarteto.
- Poucos deviam conhecer essas bandas em Portugal. Passavam na rádio? Quem é que ouvia?
- Um nicho... No meu caso, já me relacionada com malta da rádio, mas malta diferenciada. Estas bandas quase não passavam na rádio. Passavam no ‘Em Órbita’ – nós sempre dissemos que era um programa muito ouvido [risos] mas, na altura, não havia maneira de conhecer as audiências. Hoje não hesito em dizer que era muito ouvido por um nicho, um grupo de pessoas, uns milhares, absolutamente residual.
- O que é que se ouvia em Portugal?
- Havia um top oficial feito com base nas vendas de três discotecas de Lisboa, uma do Porto, uma creio que de Bragança e outra de Beja. Não era o top da indústria, mas era o único termómetro que existia para sabermos o que era mais vendido em Portugal. E aí vê-se que o que se vendia, ao nível da música portuguesa, era fado, Calvário, Madalena, Simone e Artur Garcia. Também se vendia música italiana e francesa, nomeadamente Adamo, Rita Pavone e Richard Anthony - Sylvie Vartan e Jonhy Hallyday menos. Os Beatles? Vendia-se, sim senhora, aqui como em todo o lado, e depois havia grupos britânicos como os Hollies, do qual provinha o Graham Nash, e outros grupos efémeros.
- Porque é que Woodstock não foi só um festival com os grandes nomes da música anglo-americana de então?
- Porque naquele Verão de 1969 conjugaram-se circunstâncias absolutamente únicas: a guerra do Vietname estava no auge e a contestação à guerra também – era, na época, o que marcava a política norte-americana e, a bem dizer, como sempre, a política internacional. Até 1969 nunca tinha havido tantas baixas. Começava também a falar-se de utilização de armas nucleares no Vietname. Aquilo estava a ferver. Depois era Verão, Agosto, e o local escolhido era privilegiado porque ficava a 130 quilómetros de Nova Iorque, mesmo na época com razoáveis bons acessos, e era absolutamente paradisíaco.
- Como é que a paradisíaca Bethel se transformou em zona de calamidade?
- Foi zona de calamidade, mesmo antes do temporal. Os organizadores previam a possibilidade de chegarem às 200 mil pessoas, venderam 186 mil bilhetes, havia bilhetes pré-comprados, com desconto, e no local eram comprados a outro preço. Mas apareceram 500 mil pessoas! As outras 320 mil não compraram bilhete. Aquilo deu um prejuízo brutal, também por causa da chuva, do orçamento mal feito, a utilização de helicópteros... a dada altura tiveram de recorrer a helicópteros para pôr lá os músicos. Os promotores pensavam que iam transportar os músicos à vontade, mas não foi possível... mesmo assim houve músicos que falharam. Houve pelo menos uma banda que não chegou a tempo de tocar porque foi de automóvel e aquilo deu um engarrafamento enorme.
- Mas não há notícia de grandes distúrbios...
- O que é engraçado é que, embora tenha sido considerada zona de calamidade pública, naquelas condições só morreram duas pessoas, uma rapariga que estava a dormir e foi atropelada por um tractor - a história está contada assim em todos os livros de memórias sobre Woodstock mas é estranho, o que é que o tractor andava ali a fazer? Enfim.. - e outro com uma congestão no banho. É extraordinário dentro das circunstâncias em que aconteceu. Numa terreola com seis mil habitantes reuniram-se 500 mil pessoas.
- Como é que surgiu a ideia de fazer um festival?
- A ideia era lançar um estúdio... Dois jovens com dinheiro publicaram um anúncio no Wall Street Journal e no New York Times: estavam interessados em ideias para aplicações financeiras interessantes. E houve dois tipos, sem saberem um do outro, um que trabalhava em discos, no escritório da Capital em Nova Iorque, e outro promotor de concertos sem ligação fixa a uma empresa, que concorreram com uma ideia comum – a construção de um estúdio de gravação polivalente onde pudessem não apenas gravar discos mas também fazer concertos, exposições... No fundo, era um centro de artes, com um estúdio de gravação multifacetado com os requisitos mais modernos. Para lançar o estúdio pensaram fazer um festival de artes. O estúdio nunca foi construído. O festival fez-se.
- Por que é que bandas como os Doors e os Beatles não foram?
- Os Beatles, dizem todos os testemunhos, que não foram devido a exigências absolutamente incomportáveis de John Lennon. Naquela altura já andavam de candeias às avessas uns com os outros por causa da Yoko. Lennon disse que só iria com os Beatles se a Plastic Ono Band também fosse e a organização não estava interessada nisso. Mas os Beatles estiveram presentes em Woodstock: George Harrison não tocou mas esteve lá. E entre 248 canções que foram cantadas, três eram dos Beatles. Os Doors não estiveram porque também já havia problemas com o Jim Morrison que, alegadamente, por aquela altura tinha receio dos grandes acontecimentos, achava que a banda era para pequenos auditórios.
- É mesmo verdade que o Jerry Garcia sempre que tocava na guitarra levava choques eléctricos?
- Ele diz que sim, mas não esteve sempre a chover... choveu um bocadinho durante a apresentação dos Grateful Dead e o Jerry Garcia diz que levou três choques. Não há muitas imagens da apresentação dos Grateful Dead. Há do Jerry Garcia a solo quando, muito pedrado, saltou para cima do palco e foi tocar sozinho, mas da banda há pouca coisa. Deve ter sido uma coisa desastrosa. O mais engraçado é que eles contam também que, na munição de palco, ouviam a comunicação entre a organização cá em baixo e os helicópteros que estavam a transportar músicos. Estavam a tocar e ouviam ‘podes aterrar...’ Ninguém mais ouviu isto mas os rapazes eram, reconhecidamente, consumidores de alguns produtos que fazem sentir, ver e ouvir coisas que não existem...
- Qual foi o contributo das drogas, nomeadamente dos ácidos, para o ambiente de Woodstock?
- Era a época do flower power, das drogas, desde as comezinhas até às mais complicadas. Sucede que não há notícia em Woodstock de uma overdose, o que é extraordinário. O que se vê nas imagens do documentário oficial – claro que as imagens são filtradas – do festival é malta a enrolar charros e um tipo com um cachimbo, na época era uma 'chinesa', de resto não se vê mais nada. O que há é gente muito pedrada e animada.
- Hendrix começou a tocar às cinco da manhã de segunda-feira. Resultado do descontrolo da organização?
- No final já só havia trinta mil pessoas a assistir... De sexta para sábado, o festival acabou às três ou quatro da manhã, mas na noite de sábado para domingo os Jefferson Airplane entraram em palco às seis e meia da manhã, já estava o sol a despontar e, na última noite, o Jimi Hendrix entrou às cinco e tal da manhã. Ele tocou e o dia abriu, acabou de tocar às sete e tal da manhã, já só para 30 mil pessoas, o resto foi para casa... Isto porque as bandas pulverizaram completamente os tempos. Os The Who estiveram quase duas horas e meia em palco, o que, num festival, é completamente impensável. Cantaram a ópera rock ‘Tommy’ inteira com canções suplementares... E também houve atraso provocado pelo temporal. O festival esteve parado à volta de oito horas na tarde de domingo. Tudo isso foi comprometendo sempre os horários das apresentações. E eles perderam o controlo daquilo. Mantiveram-se fiéis ao alinhamento que tinham e garantiam a presença das bandas. De resto, a organização marimbou-se. ‘Estão a tocar quatro horas? Toquem para aí quatro horas.’
- Mas havia maneira de dar conta daquilo para que tudo corresse como previsto?
- O número de pessoas que aquilo movimentou é provavelmente um décimo do que qualquer Festival do Sudoeste movimenta em Portugal. Um festival daquela natureza, com aquelas bandas e aquele perfil, exigiria na altura meios absolutamente insuportáveis e inimagináveis. Hoje é perfeitamente comum porque a indústria, até do concerto, se foi aperfeiçoando e, à medida que isso aconteceu, crescendo em proporção. O festival de Woodstock foi organizado em menos de um ano. Eles estão a organizar este Festival do Sudoeste se calhar há dois.
- Quem esteve em Woodstock era gente politizada? Houve algum equivalente depois?
- Não há equivalente. Eu gostava de secundá-la, até pela minha formação política, e dizer que aquela era malta politizada mas não era. É malta que vai ao festival com uma ideia: ‘guerra não!’. O que há são nichos de gente politizada que condiciona as outras pessoas e marca o evento. É mais politizada a malta que está em cima do palco do que a malta que está a assistir. No conjunto de trinta e três nomes que passaram por Woodstock, diria que mais de metade tinha motivações políticas além de artísticas.
- Esperava-se que o festival tivesse uma componente política tão forte?
- Um dos organizadores dizia a poucos minutos do festival ‘a política não é para aqui chamada, isto é um festival de música e artes’. Há uma entrevista dele a dizer isto. Perguntaram-lhe ‘então mas vem aí a Joan Baez [grávida de seis meses], o marido está preso’ e ele respondeu ‘a Joan Baez é uma grande cantora, se ela disser alguma coisa tudo bem mas isto é um festival de artes e música e apenas isso’. As pessoas não perceberam o vulcão que era naquela altura a juventude norte-americana, nomeadamente a que estava na Califórnia e também se deslocou à costa Oeste.
- Os hippies...
- O que se dizia era que eles eram uns anarquistas que não queriam fazer nada. Hoje há opiniões medonhas sobre os hippies e essa época. Eu hippie não sou, porque não existem em Portugal, mas se tenho alguma coisa no coração é essa época. O principal é a noção de liberdade. Os críticos diziam que era libertinagem. Mas verificou-se, afinal de contas, e Woodstock foi o laboratório onde se fizeram todas as experiências, que não era bem isso... a época hippie não foi de passividade, antes pelo contrário, houve até alguma agressividade. No ano anterior tinha havido uma crise medonha, com prisões e pancadaria, no congresso do Partido Democrático por causa da guerra do Vietname. Em Woodstock reuniram-se circunstâncias incontroláveis e não teorizadas na altura. Nada tinha sido ainda pensado. Não era possível saber antecipadamente o que era aquilo.
- O que é que resultou de Woodstock?
- Em termos políticos concretos, não teve consequência absolutamente nenhuma. Teve na música e no espírito, na alma, de muita gente. Repare que a guerra do Vietname só acabou cinco anos depois, em 1974, com a capitulação norte-americana. Não foram capazes de organização. Mais do que a uma transformação colectiva, aquilo produziu uma transformação individual porque mesmo quem chegou só para a música ou para engatar um gajo ou uma gaja, saiu dali completamente diferente - aquilo foi outra coisa. Em termos colectivos, não teve qualquer repercussão.
- E ao nível da música?
- Foi enorme. Foi ali que Joe Cocker e os Crosby, Stills, Nash & Young se afirmaram. Foi dali que o Jimi Hendrix, que já era mais ou menos quem era, saiu como um semideus. A música passou a ser outra. Foi ali a explosão dos The Who nos EUA. Havia rivalidade entre as bandas americanas e inglesas. Era mais fácil fazer furar uma banda norte-americana no mercado europeu do que ao contrário. Neste caso, uma banda britânica conquista os EUA graças à participação em Woodstock.
- Quando é que viu o filme sobre Woodstock pela primeira vez?
- Fui a Londres em 1972. O filme, que já tinha estreado, estava numa pequena sala e fui vê-lo.
- E as imagens correspondiam ao que tinha imaginado?
- Absolutamente. Hoje já não gosto tanto do filme. Depois de ter lido tanto sobre Woodstock, acho o filme redutor não apenas em termos musicais - a esse nível é um filme paupérrimo. Havia um problema de direitos, os artistas autorizaram ou não a inclusão do que foi gravado no filme, embora o primeiro operador de câmara fosse o Martin Scorsese, que também se estreou ali em termos de documentários musicais. O filme é muito redutor em termos musicais e da importância daquilo. Não consegue dar a grandeza do evento. Por aquilo que li, o filme é quase insignificante mas não deixo de ver...
- Que apresentações gostaria mesmo de não ter perdido na primeira edição do Festival de Woodstock?
E as de Santana, Crosby, Stills & Nash e Crosby, Stills, Nash & Young.
- Faz sentido tentar repetir o Woodstock?
- É irrepetível. Claro que, para quem lá, esteve pode ser uma romagem à própria vida. Houve um em 1994 e outro em 1999 e acho que no primeiro houve pancadaria. Eu, se lá tivesse estado, dificilmente lá voltaria. Preferia guardar a memória daquilo que se passou do que tentar reencontrar o que não é reencontrável. O mundo é outro. Somos outros.
- Os jovens de hoje sabem o que é Woodstock?
- Não e ainda bem que não. Eu acho que a memória é indispensável, seria indispensável que os jovens soubessem como era Portugal em 1969, mas é muito bom que não tenham necessidade de usar um festival para lutar contra a guerra. Portugal vivia na altura uma guerra e por isso é que Woodstck era palavra censurada. Os jovens portugueses tinham a vida interrompida: a malta chegava aos 15, 16 anos e o horizonte que tinha pela frente era daí a dois ou três anos ir para a guerra.
- O que responde a quem reduz o festival a lama e consumo de drogas?
- Isso é uma vigarice intelectual. São pessoas intelectualmente batoteiras. Aquilo foi o melhor festival? Não, não foi. Tocou-se ali a melhor música do mundo? Não, não se tocou. Ouviram-se ali as melhores canções alguma vez criadas? Não, não se ouviram. E no entanto, aquilo foi único e irrepetível com uma simbologia própria que o transformou num marco. E pronto.
- Qual é a sua contribuição na webradio Woodstock?
- É fundamentalmente um trabalho do Jorge Alexandre Lopes e do Álvaro Costa com contribuições de mais gente, incluindo a minha, mas o meu trabalho principal sobre o festival é para o FM. Quanto à webradio, trata-se de usar a Internet em todo o seu esplendor para acompanhar a rádio e para lhe reforçar a importância, pois a Internet tem capacidades que permitem fazer aquilo que a rádio propriamente dita não faz.
PERFIL
António Macedo tem 59 anos, dois filhos e uma neta. É radialista. Trabalha na Antena 1, onde conduz uma série que evoca o Festival de Woodstock, e também colabora na webradio Woodstock.
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