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SEM PERDÃO

Já viram se todos os homens que traem as mulheres ou chegam a casa bêbedos e drogados levassem uma sova?

13 de março de 2003 às 18:55

Mais de cinco mulheres morrem todos os meses em Portugal vítimas de violência doméstica. Aliás, esta triste expressão é a principal responsável pela morte das portuguesas entre os 16 e os 44 anos, batendo demónios como o cancro e os acidentes de vição.

Por outro lado, em 2002, mais de 18.500 pessoas recorreram à APAV (Associação de Apoio à Vítima), sendo que noventa por cento desse total partencia ao sexo feminino. E digo pertencia porque, infelizmente, não sabemos se algumas dessas pessoas continuam vivas para contar a terrível história de uma vida cheias de nódoas negras.

No Funchal, Madeira, um empresário do ramo imobiliário, de 30 anos, foi detido por alegadamente ter morto, aos pontapés e aos murros, o feto da sua jovem amante, grávida de seis meses. Ao que tudo indica, o suposto agressor terá atraído a vítima – sua secretária – para um almoço romântico, findo o qual tê-la-á amarrado e obrigado a ingerir um produto químico que a fez perder os sentidos. Nessa altura, bateu-lhe com toda a força na barriga e, eventualmente, introduziu um objecto cortante na sua vagina, para provocar o aborto. Antes de abandonar o local, acordou-a à bofetada e mandou-a chamar uma ambulância, instruindo-a para dizer que tinha caído das escadas. A mulher, de 29 anos, já abandonou o Hospital do Funchal, onde na terça-feira, expulsou o resto do feto que carregava na barriga.

No Reino Unido, um homem de 44 anos está a ser julgado pelo assassinato, brutal, dos seus dois filhos – de sete e oito anos – no início de 2002. Ao que tudo indica, o crime terá sido motivado pelo facto da sua mulher, e mãe das duas crianças, o ter abandonado.

Steven Wilson, assim se chama o ‘monstro’, conduxiu os meninos a um isolado campo de golfe, onde terá cortado o pescoço a um deles – enquanto o outro assistia, aterrorizado – e esfaqueado o segundo.

A mulher do alegado homicida contou que este já tinha ameaçado por mais de uma vez matar as crianças, e garantiu que depois de ter morto os filhos, Steven ter-lhe-á ligado para a informar do que acabara de fazer e para lhe comunicar que se ia suicidar.

Nos nove anos de vida em comum, a mulher referiu que foi maltratada inúmeras vezes e que teve de abandonar o emprego e prostituir-se sob ameaça do marido.

Concordemos ou não com a ‘filosofia’, o certo é que a denúncia de violência doméstica por parte de figuras públicas tem um impacto bastante maior. Muita gente – que sofre na pele, esse flagelo – ganha coragem para reagir e pôr termo a uma vida infernal.

Há milhares de vítimas que, no limiar destas situações, estão convencidas de que merecem tamanho sofrimento. Os anos de violência, humilhação e dor abatem-se sobre as suas cabeças como a mais simples das evidência: ‘Porquê eu? Talvez porque mereço’. É este o grande trunfo do carrasco, minar a consciência da vítima, fazendo-a crer que as suas certezas são meras alucinações. E quando nos arrancam à realidade tal qual a conhecemos – quando nos provam (sabe-se lá com que artimanhas) que aquilo que pensamos e sentimos não tem base lógica nem faz sentido -, abre-se-nos um precipício debaixo dos pés.

Em quase todos os casos de violência doméstica sobre as mulheres há um comentário, uma suspeita, que ganha a força de um halibi e que me mete raiva. Ou é porque elas não fazem nada, ou porque bebem e tomam drogas, ou porque os traíram. Há sempre um ‘mas’ – ‘Ele bate-lhe, mas...’ Mas o quê. Já viram se todos os homens que traem as mulheres ou chegam a casa bêbedos e drogados levassem uma sova? Estou em crer que se assim fosse, nem um século bastava para acabar com as listas de espera dos hospitais.

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