<font size="4">O primeiro álbum do quarteto de Liverpool saiu a 22 de março de 1963. A partir daí, o Mundo não mais foi o mesmo.</font>
O primeiro álbum dos Beatles, ‘Please, Please Me', foi lançado há 50 anos. O icónico debuto daria início à beatlemania, nuns anos 60 dourados e revolucionários em termos sociais e políticos que deixaram saudade e fãs indefetíveis. Até hoje. Porque "os Beatles não eram apenas uma banda que fazia canções alegres e agradáveis. Eles foram uma mudança na sociedade", garante Paulo Marques, que ainda guarda o cartão do clube oficial de fãs.
Os pais gostavam de música e até deixaram o cabelo crescer-lhe, o que lhe valeu a alcunha de ‘o Beatle' na rua da cidade de Lisboa onde Paulo, hoje com 52 anos, foi nascido e criado. "Os Beatles eram, claro, o inimigo número um dos barbeiros", brinca. Isso e o símbolo de uma revolução em curso: "Era a roupa, os penteados, mas também as capas conceptuais dos álbuns, a inclusão das letras no interior, as temáticas das canções, que falavam do quotidiano das pessoas, as harmonias pop/rock que já exploravam o universo da música étnica, etc." Por outro lado, transformaram a ideia que se tinha da juventude numa sociedade marcadamente patriarcal: "Os Beatles marcaram uma posição: a juventude tinha algo a dizer, tinha um papel no Mundo."
Só depois do 25 de Abril, já no liceu, foi novamente tomado de assalto pela música do quarteto de Liverpool e lhe declarou paixão em nome próprio. "Aí redescobri tudo, comecei a comprar os álbuns, até porque os LP só chegaram a Portugal em 1977, ano em que adquiri ‘Please, Please Me'. Antes, o que tínhamos eram os EP, ou seja, discos com quatro músicas retiradas do álbum. Os LP custavam uma fortuna para a época, portanto estes desdobramentos, que só se faziam em Portugal, foram um estratagema acessível. Hoje, esses discos portugueses são muito procurados pelos colecionadores internacionais e são valiosíssimos", recorda enquanto revira a capa de um disco e deixa à mostra o preço que antes era proibitivo: 230 escudos.
O seu favorito é ‘Abbey Road', mas entre as "relíquias", na sua grande maioria arrematadas nos últimos anos pela internet, contam-se ‘Magical Mistery Tour', versão inglesa rara do único disco ao vivo, uma banda desenhada de 1971 de ‘Batman' com os Beatles em português, uma foto autografada por John Lennon e uma capa assinada por Yoko Ono. Tem milhares de itens numa sala-museu da sua própria casa exclusivamente dedicada aos Beatles, mas o que verdadeiramente encanta Paulo, funcionário de uma seguradora, são as ‘bootlegs' - versões ‘pirata' e alternativas das canções de sempre.
RECADO MATERNO
A irreverência daquele "som fantástico" levou a mãe do jornalista Luís Pinheiro de Almeida a escrever-lhe num postal: "Oh filho, não ponhas a música muito alto para não incomodares os vizinhos." Apesar da recomendação, a música soava roufenha no gira-discos portátil que colocava estrategicamente à beira da janela aberta para a rua "para impressionar as miúdas que passavam". Ouvir Beatles era do mais cool que havia.
A informação sobre o então estreante universo pop não chegava a Portugal facilmente durante o antigo regime. "Era tudo muito escasso. Íamos sabendo que os discos iam saindo nas próprias lojas de música, que na realidade eram lojas de eletrodomésticos que também vendiam discos", recorda o jornalista Luís Pinheiro de Almeida (65 anos), que cresceu em Coimbra. O primeiro EP que adquiriu foi ‘She Loves You', a 18 de abril de 1964. A data que está apontada a lápis na capa de cartão rígido.
Por via da profissão, privou com todos os Beatles (à exceção de John Lennon), em entrevistas, eventos e conferências de imprensa. E hoje ainda guarda no congelador uma maçã (símbolo da Apple, editora do grupo) que foi distribuída aos jornalistas durante a apresentação do ‘Live at BBC', em Londres, corria o ano de 1994. E um tijolo da estalagem Gado Bravo, em Vila Franca de Xira, onde Paul McCartney dormiu em 1965. De ‘Macca' aprendeu, durante uma entrevista em 1989, uma das grandes lições da vida: "‘As melhores coisas do Mundo são de graça', disse-me ele, apontando para a vista fabulosa que tínhamos, o céu, o verde e um jardim onde passeavam pavões." Levou o conselho à letra. O seu cartão de sócio do clube de fãs dos Beatles tem o número mais baixo que se conhece em Portugal: é o 130 222. E está autografado pelo ‘sir'.
HINOS ADOLESCENTES
Em parceria com Teresa Lage, Luís Pinheiro de Almeida editou o livro ‘Beatles em Portugal'. A eles, Teresa Lage, coordenadora de produção da RFM, deve a profissão. "Tirei línguas e literaturas modernas, mas acabei por ir trabalhar para a Valentim de Carvalho por ser a representante dos Beatles em Portugal", recorda. Passou a adolescência a cantar e a tocar à viola os hinos. Por isso, os seus discos "estão cheios de anotações sobre quem cantava o quê, os acordes e as posições da guitarra". Também por causa deles, começou a aprender alemão, pois era o idioma em que se escrevia a revista ‘Pop', a única que trazia frequentemente artigos dos ‘fabulosos quatro'.
Nos anos 70 comprou ‘Please, Please Me', que hoje tem em quatro edições: vinil, CD, remasterizado e versões. Aos 52 anos, explica porquê: "As músicas acima de tudo, mas também o facto de serem um ícone da cultura inglesa e de abarcarem muitas das suas características: o humor, a autocrítica, a influência indiana, o Oriente, a ilha de Wight." Nos primórdios, as rádios portuguesas praticamente não passavam Beatles, mas ela própria haveria de ter um programa (em parceria com Luís Pinheiro de Almeida) dedicado aos seus ídolos. Chamava-se ‘Ob-La-di Ob-La-Da', o único título que a Renascença aceitou porque "não era inglês".
FONTE DE INSPIRAÇÃO
João Só pertence a outra geração. A uma geração que conheceu os Beatles pelos pais e avós, mas nem por isso lhes presta menos reverência. Aos 23 anos, o músico e produtor relembra que começou a ouvir as canções dos ‘fab four' ainda embrião: "A minha mãe estava grávida e costumava cantar e tocar à viola Beatles, pois sempre foi uma grande fã. Acho que o bichinho começou aí", confessa. Na família, conta-se até que a primeira palavra de João Só foi uma tentativa arrevesada de pronunciar a palavra ‘Ob-la-di Ob-la-dá'.
O miúdo fez-se gente, mas ficou a "pancada". "Mas não sou caso raro na minha geração. Há muitos fãs dos Beatles entre os mais novos, que se deslumbram a descobrir um som que está sempre atualizado. São muitas as vezes que procuro neles soluções para outras bandas."
Na casa de Abel Soares da Rosa, a febre tocou por volta de 1967. "Com uma surpresa dos meus pais, um gira-discos Philips de mala, a pilhas. Quando hoje se fala em remasterizações e sons clean, não deixo de sorrir e de pensar naquelas caixinhas de sons monofónicos e em que aprendemos a lição da canção perfeita e todos os outros cultos e rituais do pop e do rock", recorda. E tantos anos depois, as pilhas agora são de discos nas prateleiras, que este "amador dos Beatles" e software marketing manager da IBM de profissão arrecadou numa coleção de mais de cinco mil peças.
O próprio é autor de um destes itens, o livro ‘The Beatles - Discografia Portuguesa a 45 rpm', cuja edição em inglês foi considerada pela revista ‘Record Collector' um dos "mais belos livros dos Beatles".
Uma devoção que se justificou logo na adolescência: "Muita festa, muita música, muitas camisas (de xadrez), calças à boca de sino (dos Porfírios) e muitas dunas fez aquele Philips, nas férias maiores do que a própria vida, sempre na praia da Saúde, Costa da Caparica, no tempo em que a ponte não era uma miragem. Aprendemos tudo com os Kinks, os Stones e, claro, os Beatles, naqueles verões de todos os nossos amores, paixões e amizades. Sempre que tinha boas notas, a minha mãe ia comigo à Compasso, em Campo de Ourique, onde vivíamos, e comprava-me um disco ou um livro. Foi assim que começou a minha demanda". Mas o primeiro amor ninguém esquece, e o de Abel foi ‘All You Need Is Love' (o single) e o EP ‘Strawberry Fields Forever/Penny Lane'.
Já o álbum que esta semana perfaz meio século, ‘Please, Please Me', foi "iniciático", mas perdurou: "50 anos depois, ainda apetece ouvir cada canção."
OS PORTUGUESES QUE PRIVARAM COM OS BEATLES
Em 1987 conheceu Paul McCartney, quando em representação da editora Valentim de Carvalho acompanhou a primeira entrevista que o músico deu para Portugal, para o jornalista Luís Pinheiro de Almeida e o programa ‘Viva a Música'. Não era permitido tirar fotos, mas Teresa não quis saber das regras e pediu ao músico a imagem que hoje guarda com orgulho para a posteridade. A vida "não teria sido a mesma" sem os Beatles.
Em Londres, Teresa Lage tirou ainda uma fotografia na escadaria onde os Beatles foram fotografados para a capa do álbum ‘Please, Please Me', que agora celebra 50 anos.
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