A papa apurada por Egas Moniz e que criou o código de beleza do ‘bebé Nestlé’ faz 75 anos
Desde há muito que Portugal conhece a expressão ‘bebé Nestlé, invariavelmente materializada numa criança loura, de olhos azuis e formas roliças, que quase sempre brindava os anúncios com um sorriso guloso numa boca suja de papa. Poucos sabem é que a expressão que se tornou corriqueira e personificou as preces de muitos papás e mamãs desejosos de rebentos bonitos, felizes e saudáveis, veio mesmo de um concurso promovido pela famosa papa, a Cerelac, que este ano já completa a provecta idade de 75 anos.
Corriam os anos 50 e Frederico Mesquita era um dos tais bebés. Tinha dois anos e por coincidência morava mesmo ao lado da antiga sede da Nestlé, na rua da Sociedade Farmacêutica, no coração de Lisboa. Terá sido uma conversa de bairro que levou a mãe a inscrevê-lo no concurso do qual saiu vitorioso. "Eu era o típico bebé dos anúncios. Sempre achei piada ao facto de ter sido um bebé Nestlé".
Aos 62 anos de vida, Frederico Mesquita ainda mantém um porte que o distingue da maioria, sobretudo dos da sua geração: tem 1,88m de altura, tronco robusto, olhos azuis, farta cabeleira branca como a neve. Culpa da papa ou talvez não, a verdade é que Frederico fez-se homem forte e espadaúdo. Jogou basquetebol no Sporting e também andebol e atraia miúdas a "rodos" com o seu porte atlético.
"Não era preciso dizer-lhes que tinha sido um bebé Nestlé... elas sentiam--se atraídas só pelo facto de praticar desporto e ter um modo de vida associado a esse ambiente", diz com uma gargalhada.
Entre as várias ocupações que teve, de representante de vendas da empresa do pai a funcionário de uma empresa de segurança, voltou a cruzar-se com o Sporting Clube de Portugal (no departamento de contabilidade) e também, por via do casamento, com a filha do então presidente leonino Barreira de Campos. Hoje está no desemprego, à espera que talvez a Câmara de Oeiras lhe arranje colocação como vigilante numa escola do concelho onde reside. Filhos teve três, um dos quais é o actor Diogo Mesquita.
"Só tenho pena que a situação económica esteja tão má para velhos e novos. Mas não se pode viver com os problemas às costas. Gozo o facto de sempre ter vivido bem a vida", diz.
BEBÉS DE TODAS AS CORES
O concurso ‘Bebé Nestlé’ teve várias edições, sem periodicidade certa, mas deixou definitivamente de existir há praticamente duas décadas. Hoje, num país de morenos e cada vez mais multicultural, o conceito dominante é que "todos são bebés Nestlé", explica Fernando Carvalho, director de Marketing da marca.
O caso não é para menos: esta foi uma das primeiras farinhas lácteas do Mundo, uma fórmula inventada em 1866, na Suíça, pelo farmacêutico Henri Nestlé para fazer face à elevada taxa de mortalidade infantil, muitas vezes associada à incapacidade de dar continuidade à amamentação ao longo do primeiro ano de vida do bebé.
"Em Portugal, em 1923, o Nobel da Medicina Egas Moniz ajudou a criar a Sociedade de Produtos Lácteos, em Avanca, pelas mesmas razões, e assim começou-se a fabricar o primeiro leite em pó. Uma década mais tarde, é também pela mão de Egas Moniz que a Cerelac – que na altura ainda não tinha este nome – chega a Portugal. Ele consegue o exclusivo de fabricação e venda dos produtos Nestlé, que começam a ser produzidos em Avanca".
Mas a intervenção do médico português não se fica por aqui. Em 1936 Egas Moniz adaptou-a ao paladar nacional, nomeadamente pela inclusão na receita do leite dos Açores. "O sucesso da Cerelac vem do seu sabor único e acreditamos que boa parte dele vem desse leite. Em Avanca continua-se a fazer assim, para o mercado nacional e também para exportação".
Mas nem todos os países estrangeiros recebem esta papa com leite açoriano: "Há países que também a adaptaram aos seus paladares", confessa Fernando Carvalho. Seja qual for a fórmula, porém, há factos e números incontornáveis : com 62 por cento de quota e liderança absoluta no mercado de papas, estima-se que a cada minuto sejam consumidos mais de sete quilos de Cerelac. Isto só em território luso. Se alargamos a contabilidade aos 86 países onde é comercializada, é fácil perceber que é caso para muita papa.
E por completar três quartos de século, a Cerelac é também uma referência que atravessa gerações, como se pode constatar no museu da marca, onde as diversas versões de latas que já foram comercializadas, ou os anúncios de televisão (quemnão se lembra da versão ‘Papa a papa’ do ‘Frére Jacques’?), apelam a uma viagem vintage – notempo e na memória. "A Cerelac é um pouco como os ensinamentos que passam de mãespara filhas. Ela é a companheira de confiança de cada família quando nela se acolhe um novoelemento, mas está constantemente a ser actualizada", acrescenta o responsável.
Ainda há poucos anos, e porque as condições económicas e sociais estão em constante mutação, a fórmula sofreu afinamentos. No entanto, a mais pequena alteração leva anos e anos a ser testada e concretizada. "Os bebés são um público muito especial mas muito sensível. Há uma regulamentação rígida para a alimentação infantil que exige diálogo com pediatras e nutricionistas". Curioso é que a Cerelac também é um pitéu para muitos adultos, que inclusivamente confessam o seu amor na internet, onde há fóruns e blogues onde gente com muitos centímetros de altura e anos no bilhete de identidade ainda discute a melhor forma de preparar o seu prato de papa.
UM MANUSCRITO QUE SALVOU MUITAS VIDAS
Sensibilizado pelos problemas de subnutrição e mortalidade infantil em Portugal no início do século passado, o Nobel da Medicina português Egas Moniz decidiu constituir a Sociedade de Produtos Lácteos em 1923, onde se reuniram meios e conhecimentos técnicos que permitiram fabricar o primeiro leite em pó. O manuscrito que o atesta é detido pela Nestlé e está presente no seu museu (na sede) em Linda-a-Velha.
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