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Secundária que é um viveiro de médicos vive do trabalho, boas condições e estabilidade
Há uma escola pública em Viseu que, ano após ano, surpreende o País pelo elevado número de estudantes que coloca em Medicina. O ano passado foram 27 e agora 32, "apesar de não andar obcecada em colocar alunos", como destaca o director, Adelino Azevedo Pinto. Mas o certo é que alunos e professores já trabalham para bater o recorde.
A Escola Secundária Alves Martins (ESAM), no coração da terra de Viriato, é um caso de sucesso. Contudo, depois destes resultados, o estabelecimento onde o ensino liceal foi instituído há 162 anos é visto com um misto de admiração e desconfiança. Mas o director dissipa as dúvidas: "Aqui não há qualquer tipo de favorecimento nas notas, há uma aposta na valorização do ensino público, tantas vezes criticado, e total confiança no bom desempenho de professores e alunos".
Quando se entra na ESAM, a tranquilidade, o conforto e a seriedade são características que saltam à vista. Tem 56 turmas, 10 da área científica, e 183 professores – a maioria com 20 anos de casa – e o orçamento anual ronda os cinco milhões de euros. Apesar de serem 1600 alunos, de condições sociais distintas, uma das apostas é garantir a igualdade: têm as mesmas condições de ensino e oportunidades.
"Nunca ouvi um aluno queixar-se por ter sido alvo de injustiças por parte do professor devido à sua condição social", conta Sofia Lourenço, 18 anos, que entrou na Faculdade de Medicina de Coimbra com média de 18,43 valores.
A maioria dos alunos está mentalizada para as responsabilidades educativas. E já fez cair por terra a ideia de que uma escola do Interior do País, numa região desertificada, não reúne as condições para triunfar. João Dias concluiu este ano a área de ciências e tecnologias com média de 18,72 valores. O jovem viseense, que entrou na Faculdade de Medicina do Porto, não tem dúvidas: "O excelente ensino por parte dos professores aliado à boa preparação dos alunos é a base do sucesso".
Uma opinião partilhada por João Penela, 18 anos, que entrou na Faculdade de Medicina de Coimbra com 19, 3 valores. Este jovem destaca o bom ambiente vivido na comunidade escolar. "Aqui somos tratados como adultos e não somos gozados pelas notas que tiramos. Toda a gente se dá bem e há uma relação de cumplicidade com os professores".
EXPLICAÇÕES
A grande maioria daqueles que entraram em Medicina recorreu a centros de explicações. Português, Físico-Química e Matemática (aquela que mais assusta) são as disciplinas que requerem maior volume de horas de estudo. Os alunos dizem que ficam com outra visão da matéria e ganham hábitos de estudo. Mas, para se obter uma média acima dos 18 valores, têm de ter excelentes resultados a todas as disciplinas.
Fernanda Dias é docente na ESAM há 12 anos e defende que "a Matemática tem de ser dada com alegria". A professora não hesitou em dar nota 20 a Miguel Saraiva, o melhor aluno do ano lectivo 2010/2011, que acabou com média de 19,6 valores. "É um aluno com excelentes capacidades intelectuais. Trabalhador e muito sociável, sempre disposto a ajudar os colegas com mais dificuldades".
PARCERIAS
Para Fernanda Dias, a base do sucesso da ESAM é a motivação dos alunos, "muito interventivos e interessados em colocar questões e, após o trabalho desenvolvido nas aulas, continuam com o estudo individual em casa". A coordenadora do grupo de Biologia e Geologia, Fátima Pino, na escola há oito anos, diz que "a aposta no trabalho prático e as parcerias com instituições do ensino superior são o melhor que a escola tem".
A docente destaca também o trabalho colaborativo dos 20 colegas que leccionam as disciplinas, as planificações semanais, a partilha de conhecimentos e a valorização do trabalho e da experiência dos mais velhos como factores que não podem ser menosprezados.
REQUALIFICAÇÃO
Como exemplo desta dinâmica, refira-se que a escola está a desenvolver trabalhos de investigação entre alunos e professores, em parceira com a Escola Superior Agrária de Viseu, "um intercâmbio que tem sido excelente", diz Fátima Pino.
"Este é o ano zero da ESAM", afirma o director, Adelino Azevedo Pinto. A escola recebeu obras de requalificação no âmbito dos projectos da Parque Escolar, que duraram 15 meses e terminaram no ano lectivo passado. O investimento, de 13 milhões de euros, dotou-a de melhores condições físicas. "Faltava à escola mais e melhor equipamento para proporcionar condições ideais para alunos e professores. A escola está um encanto e isso deve-se à boa intervenção da Parque Escolar", considera.
A zona laboratorial, por exemplo, faz lembrar os laboratórios das séries da televisão, que inspiram confiança. Adelino Azevedo Pinto destaca: "Temos instalações com qualidade semelhante às do ensino superior e isso é uma forte motivação para os alunos, que sentem que o seu futuro está a ser criteriosamente projectado". Quem utiliza com frequência estas instalações é Ana Pinheiro, professora de Físico-Química A, contratada há três anos e que "adora a escola".
"O trabalho que desenvolvo junto dos professores efectivos é muito gratificante para mim. Em conjunto debatemos ideias e conteúdos essenciais da matéria. Os mais velhos apoiam-me e preocupam-se com o meu sucesso profissional. Este trabalho de equipa, sério e equilibrado, é um factor extremamente importante".
BIBLIOTECA
A biblioteca também foi objecto de melhoramentos e, equipada com manuais de qualidade, constitui uma das grandes mais-valias da instituição. O espaço amplo e ao mesmo tempo acolhedor não afasta os alunos, que aproveitam para trocar impressões, estudar e ter aulas de apoio. "Ambicionávamos uma biblioteca digna de uma escola secundária com valor, e conseguimos", destaca o director do estabelecimento.
A moçambicana Salma Lourenço, de 17 anos, chegou em Janeiro para frequentar o 10º ano e, devido às diferenças escolares entre os dois países, para uma melhor e rápida adaptação, frequenta regularmente as aulas de apoio. "Quando cheguei tive muitas dificuldades, mas os professores ajudaram-me". Marta Costa, que lhe dá aulas de apoio, especialista nas áreas de Filosofia e Psicologia, considera que "todos os alunos querem vir para a ESAM, pela boa relação entre professor e aluno".
A organização cuidada e o espírito aberto da direcção são outras chaves do sucesso apontadas pela docente. As salas estão equipadas com projector de vídeo, quadro interactivo e internet. Em todo o edifício há wireless. O horário escolar é pensado para não sobrecarregar os alunos . Os do 12º ano só têm aulas de manhã. Quarta-feira à tarde não há aulas. O tempo é ocupado com actividades extracurriculares desenvolvidas na escola. No exterior, os equipamentos reúnem todas as condições para a prática do desporto. "Ainda se vai ouvir falar muito do desporto da escola", promete o director.
OUTRA OPÇÃO
Este ano entraram 32 alunos em Medicina, mas podiam ter sido 39. Na verdade, sete alunos optaram por cursos como Engenharia Informática, Aeronáutica, Ciências Farmacêuticas ou Biologia, como foi o caso de Daniela Romão.
A jovem terminou o Secundário com média de 18,5 valores, mas na altura de se candidatar a uma vaga no ensino superior pensou melhor e decidiu: "Não quero Medicina, quero Biologia!". "É uma área que me atrai muito mais, quer pela dinâmica, quer pela constante evolução", explica. Nos últimos três anos, o que mais agradou a Daniela Romão foi o facto de a escola "estar sempre a integrar novos projectos e com isso os alunos adquirem outras aptidões".
ARQUITECTURA
A área de artes visuais também tem um papel preponderante na ESAM. Nos últimos dois anos, 28 alunos entraram no curso de Arquitectura. "A média de entrada neste curso é bastante alta e, muitas vezes, estes alunos são injustamente esquecidos", destaca Adelino Azevedo Pinto.
Os ‘artistas’ da ESAM "criam dinâmicas que cativam todos os outros alunos", explica, por seu lado, Rui Fonseca, professor da disciplina de Oficina de Artes. Para o docente, "o ambiente, a polivalência e a possibilidade de oferecer as melhores condições aos alunos" são a trilogia de sucesso da escola. Muitas vezes rejeitados pela rebeldia e irreverência próprias de um aluno de artes, na Escola Secundária Alves Martins "o grupo das artes é muito bem visto e respeitado por todos".
ESTRATÉGIAS
Adelino Azevedo Pinto é o responsável máximo da instituição há oito anos. Licenciado em Belas Artes pela Universidade de Coimbra, é uma das pessoas mais acarinhadas da escola, embora recuse identificar-se com o mérito que toda a comunidade escolar lhe reconhece. Espírito aberto, comunicador e atento aos problemas de todos os funcionários são alguns dos adjectivos mais ouvidos.
Rege a sua missão pelas linhas orientadoras do projecto educativo da escola, que passam por proporcionar aos alunos um clima de aprendizagem acolhedor, adequar estratégias de ensino às necessidades dos alunos, promover estratégias de inclusão de todos os alunos, implicar os pais e encarregados de educação no acompanhamento das aprendizagens e consciencializar os estudantes para os seus direitos e responsabilidades.
O nosso País atravessa uma crise de confiança, mas deve confiar nos jovens alunos de hoje mais do que nunca. "Fico muito desapontado quando criticam esta geração. Estes jovens são fantásticos e a eles se deve todo o sucesso", enfatiza o director. "A escola acima de tudo é deles".
E para provar a versatilidade do estabelecimento de ensino, cinco alunos do 12º querem bater o recorde mundial da "Fórmula 1 nas Escolas". "O objectivo é fazer com que o carro percorra uma distância de 20 metros no menor tempo possível e nós temos capacidade para ser os melhores", afirma João Neto, um dos envolvidos no projecto.
ACTIVIDADES
A equipa está a preparar-se com todo o empenho para atingir três objectivos: apresentar um portefólio e o stand, desenvolver conhecimentos na área da Engenharia e preparar a corrida. Há uma parceria com a Escola Superior de Tecnologia de Viseu para realizar os testes aerodinâmicos. Campeões do Mundo ou não, o certo é que já têm o carro e a experiência que poderá ser útil num futuro próximo.
Noutra área bem diferente, a ESAM e a Associação Cultural e Recreativa de Tondela (ACERT) vão juntar esforços para potenciar a cultura. "A escola como o teatro é um acto de paixão", constata José Rui, director da ACERT, adiantando que "o interlocutor é já um agente de excelente actividade cultural". Adelino Azevedo Pinto apelida o acordo entre as duas entidades de "casamento perfeito", em que o estabelecimento de ensino "se torna um espaço de apresentação artística".
"Iniciativas como estas não colocam alunos em Medicina, mas ajudam", diz o director da escola. Uma evidência que estudantes, professores e auxiliares da Escola Secundária Alves Martins decidiram pôr em prática com sucesso.
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