Barra Cofina

Correio da Manhã

Domingo
3

A escolha de Margarida

Durante o recente conflito no Líbano, Maria Margarida dos Santos, 50 anos, foi obrigada a escolher entre os filhos. Salvou dois e deixou para trás as três filhas que, após 15 anos, reencontrara em Beirute, a capital libanesa.
24 de Setembro de 2006 às 00:00
A escolha de Margarida
A escolha de Margarida FOTO: Vitor Mota
O marido, libanês, levou-lhe as filhas. Eram meninas ainda. Maria Margarida Ribeiro dos Santos reencontrou-as mulheres, em Beirute, capital do Líbano. Tinham passado 15 anos. Quando as abraçou, jurou que nunca mais se separariam. Depois veio a guerra. Choveu fogo no bairro cristão de Achrafeih, onde habitava a família, finalmente reunida. Enquanto as bombas israelitas explodiam em volta, esta mãe teve de fazer a escolha impossível: entre os filhos Rami e Albert, de 10 e 14 anos – podia pô-los a salvo pois viajam com o passaporte dela – e as filhas Chadia, Nadia e Rima, libanesas, que foi obrigada a deixar para trás.
Maria Margarida tem 50 anos e continua a acreditar em Deus, mesmo se não compreende a razão de tantas provações. Aos 10 anos ficou sem a mãe. Aos 12 faltou-lhe o pai, Eduardo Ribeiro dos Santos, um português nascido em Macinhata do Vouga, Águeda, que embarcou no sonho africano.
Eduardo fez pela vida no interior do Congo, então colónia belga, explorando uma plantação de café. Apaixonou-se e casou com uma congolesa, de quem teve três filhos. Era – tal como o recorda Maria Margarida – “um homem bom”, que entregava donativos às irmãs de caridade. Elas cuidaram das três crianças quando Eduardo morreu.
Ter ficado tão cedo sem os pais foi a primeira grande provação na vida de Margarida. Tentando preencher o vazio, casou muito jovem, aos 17 anos. O marido tinha mais oito e nascera no Líbano. Encontraram-se no Congo, para onde ele – “pessoa bem falante” – partira em viagem de negócios. Chadia nasceu pouco depois. Seguiram-se-lhe Nadia e Rima. Três meninas. Meninas dos olhos de sua mãe.
Nesta altura do relato começa a formar-se uma névoa nos olhos de Margarida. Talvez a neblina seja benéfica, pois impede-a de lançar um olhar limpo sobre uma realidade excessiva: terem-lhe levado as suas filhas. O que ela tem nos olhos deixa depois de ser simples neblina. Transforma-se numa cortina trémula de água, como se agitada pela brisa, que, contudo, não se desfaz. Margarida consegue segurá-la.
SEM FILHAS
Quando o pai as levou do Congo – e dos braços da mãe – as crianças tinham entre cinco e 12 anos. Ele, cristão libanês, disse que era só uma visita. Que ia apresentá-las à família. Que era bom que as filhas conhecessem o país onde o pai tinha nascido. Que Margarida ira logo de seguida. “De cada vez que voltava prometia que eu viajaria no ano seguinte. Era sempre no ano seguinte.”
Ela deixou de acreditar nas promessas e decidiu viajar para Beirute pelos seus próprios meios. Mas o marido “conhecia gente bem colocada no governo do Congo. Tinha influência.” Por isso, nos gabinetes oficiais onde Margarida tentou tratar da viagem, a resposta foi também sempre a mesma: “Diziam-me que tinha de esperar pelo meu marido.”
E ela esperava por ele e ele renovava a jura de que partiriam os dois - os quatro, pois, entretanto, nasceram Albert e Rami - no ano seguinte. Neste vaivém de promessas consumiram-se os anos. Passaram 15 antes que Margarida pudesse, e só após a morte do marido, abalar para Beirute, levando os dois filhos menores, que, ela própria com medo que lhos tirassem também, registara no Congo.
AS TRÊS MENINAS
Chadia, Nadia e Rima tinham carrapitos e joelhos esfolados em brincadeiras infantis quando deixaram a mãe. Uma delas não perdera ainda todos os dentes de leite. Margarida não pôde guardar cada um debaixo da almofada sobre a qual a menina repousava a cabeça, trocando-o, durante a noite - com cuidado para que a criança não despertasse - por uma moeda que, de manhã, a fizesse esquecer a dor na gengiva. Nem pôde consolar nenhuma das três na altura em que sofreram os primeiros desgostos de amor.
Quando a mãe as encontrou, Chadia, Nadia e Rima eram mulheres feitas. A do meio já tinha dois filhos. Margarida era avó. Em Beirute, cidade pacificada, quatro mulheres e quatro crianças reuniram-se num único abraço. No coração da mais velha restava um só espinho - “as minhas filhas pensavam que eu as tinha abandonado”. Mas ela confiava: com o tempo havia de, lentamente, puxá-lo para fora, e, um dia, a ferida curar-se-ia. Pensou que tinha, finalmente, chegado a ‘casa’, aquele sítio onde, “seja em que parte do Mundo for, a família está reunida”.
O PAI
O patriarca Job é apresentado na Bíblia como um homem íntegro e recto. Mas, diz Satanás a Deus, é fácil a Job ser bom, pois a vida corre-lhe bem. Satanás obtém então permissão divina para fazê-lo sofrer, com o intuito de demonstrar que o homem justo sucumbirá ao mal. Mata-lhe o gado. Mata-lhe sete filhos e três filhas. Queima-lhe a casa.
Também a ‘casa’ de Margarida foi destruída. Ela “queria recuperar os quinze anos perdidos” longe das filhas. Isso não lhe foi permitido. Pôde ver nascer um neto, Joane, mas ainda não haviam passado três anos sobre o reencontro e teve de deixar as filhas. “Meu Deus, quando é que isto acaba? Quando é que este sofrimento de Job tem fim?”
Dia 19 de Julho deste ano. O bairro cristão de Achrafeih, no centro de Beirute, é atingido por uma potente bomba israelita. Margarida vive a um quarteirão do local de impacto. “Ficou tudo destruído.” Ela tem passaporte português. Pode fazer sair os dois filhos menores. Chadia, Nadia, os três filhos desta e Rima não. De nada lhes valeram, ao longo do tempo, pedidos sucessivos para obtenção de documentos. “O consulado diz-nos para falarmos para Ancara [capital turca, onde funciona o consulado mais próximo]. De lá dizem-nos que não têm nada a ver com o caso, pois não vivemos na Turquia. E têm razão.” Esta é a voz de Chadia, a filha mais velha de Margarida, ao telefone a partir de Beirute.
Enquanto durou a guerra multiplicaram-se os contactos com o cônsul honorário português no Líbano, Carlos Boudlos. “Disse-nos que sem documentos nada podia fazer”, prossegue Chadia. Ela e as irmãs convenceram Margarida a partir para Chipre com Albert e Rami e os três chegaram a Lisboa a 25 de Julho.
Margarida é uma mulher alta e magra que caminha com passos lentos nas ruas de uma cidade estranha, capital de um país estranho também, mesmo se foi aqui que o pai nasceu. Traz apertadas nas mãos as dos filhos, Albert e Rami, que falam francês e algumas palavras de árabe. Rami esboça um sorriso de reconhecimento quando ouve dizer ‘oxalá’, porque lhe soa a ‘inchallah’, em árabe ‘se Deus quiser’.
Margarida traz consigo também uma fotografia. Está um pouco amachucada, de tanto a ter apertado contra o peito. O “flash” disparou durante uma festa familiar em Beirute. Todos estão sorridentes: Chadia e um sobrinho, o marido dela com Albert ao colo, Nadia e Rima, que abraça Rami. “Perdi uma vez a minha família e voltei a perdê-la de novo.” É um sussurro de Margarida.
Margarida, Rami e Albert caminham de mãos dadas pela Rua Augusta, em direcção ao rio Tejo. Seguem devagar, no meio do bulício da cidade.
Mas o coração desta mãe não tem repouso. Uma parte ficou naquela outra cidade, Beirute, nas margens de um mar diferente, o Mediterrâneo. É preciso que as filhas lha tragam de volta. Fá-lo-ão quando lhes reconhecerem a nacionalidade portuguesa. Nessa altura, como Job depois de tantas provações, talvez Margarida possa, finalmente, ser feliz. Porque, terá então sim, chegado a casa.
CRIANÇAS NUMA CIDADE ESTRANHA
Rami e Albert são os dois filhos menores de Margarida. Não falam português, mas admiram Figo.
Quando crescerem, Rami, dez anos, e Albert, 14, querem ser...futebolistas, tal como muitos rapazes da idade deles. Figo é a figura de referência dos irmãos. O nome do jogador e, antes disso, do fruto da figueira, deve ser uma das poucas palavras portuguesas que conhecem. Ou talvez não. “Bo-á noi-Tê”, “Senhorrrrra”, “Obrrrrigada” prova Albert em contrário, marcando cada sílaba com um movimento exagerado dos lábios. Na instituição Recolhimentos da Capital (Convento da Encarnação) onde foram acolhidos quando chegaram a Lisboa com a mãe, os dois rapazes fintam o tempo a jogar à bola, imitando os passes de Figo.
“OLíbano não tem equipa de futebol. Só de basquetebol”, conta, em francês, Albert, rematando com uma pergunta: “Em Lisboa, há alguma escola de futebol para crianças?” Rami e Albert estão menos preocupados com o facto de o ano escolar estar comprometido. Preocupa-se a mãe por eles. “Quis matriculá-los no Liceu Francês mas não foi possível. Eles só falam francês e na escola as matérias são dadas em português. Como podem aprender?”
AVÓ SOFRE POR ELE
JOANE ESTÁ DOENTE
Nadia, à direita na primeira fotografia, é, entre as três filhas, a que inspira maior preocupação à mãe, Maria Margarida. Tudo porque foi abandonada pelo marido, francês, com os seus três filhos. O mais pequeno, Joane, de 3 anos, sofre de insuficiência renal grave. “Tem de cumprir uma dieta rigorosa, sem sal. Neste momento existe um embargo no Líbano e é muito difícil encontrar alimentação adequada”, conta a avó. “O corpo e a cara dele incham quando come o que não deve”, prossegue. O menino doente é a criança com cabelo aos caracóis que Albert, seu tio, abraça na penúltima fotografia da série apresentada ao lado.
Fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros garantiu que o caso de Maria Margarida está a ser acompanhado de perto. “O primeiro passo é obter uma certidão de nascimento da senhora, porque só com este documento as filhas poderão fazer alguma coisa no Líbano”, adiantou.
LÍBANO, UM PAÍS MARCADO PELO CONFLITO
Desde a independência, em 1943, o país conheceu melhor a guerra do que a paz, mas renasceu.
O Líbano é um país marcado pela guerra desde a independência, em 1943. Resistiu sempre e ergueu-se das cinzas uma e outra vez. Antes da guerra civil (1975-1990) era um dos países mais prósperos do Médio Oriente. A abertura aos capitais internacionais fez dele um paraíso fiscal, a ‘Suíça’ do mundo árabe. O turismo era fonte de receita crucial.
As ruínas de Baalbek e Beirute, a ‘Paris do Médio Oriente’, atraíam turistas de todo o Mundo. Tudo se esfumou quando cristãos e muçulmanos se envolveram num conflito que matou mais de 100 mil libaneses. Esse é o país da infância de Chadia, Nadia e Rima, levadas para Beirute em 1988 (ver texto principal).
Os ódios internos pacificaram-se, mas não os externos. A recente guerra entre Israel e o Hezbollah deitou por terra o principal projecto da vida de Maria Margarida: viver perto das filhas. O rapto de dois soldados israelitas pelas milícias do Hezbollah foi apontado como justificação imediata para o recente ataque de Israel ao Líbano.
Maria Margarida não se mostra convencida. “Bush é o culpado. Enquanto ele mandar no Mundo, o Líbano não terá paz. Mais tarde ou mais cedo a guerra recomeça”, afirma, sem poupar críticas a Israel. “Deixem os palestinianos em paz.”
Margarida e as filhas, embora cristãs, são adeptas do movimento radical islâmico, que consideram representar e defender o país melhor que o governo legítimo. “Houve bombardeamentos por todo lado. Também nos bairros cristãos, mesmo porque, entretanto, os familiares dos membros do Hezbollah já tinham sido postos a salvo”, conta Margarida. As bombas caíram também ao pé da casa dela.
Ver comentários