O copo de água, o café, o caderno de apontamentos sobre a mesa da esplanada com vista para o estuário do Tejo. “É fácil esquecer o que é preciso para ter tudo isto”, garante, franzindo os olhos ao Sol de Inverno, Carvalho Rodrigues, director dos programas de Ciência da NATO. O ‘pai’ do satélite português tornou-se emigrante há já vários anos. A‘Domingo’ apanhou-o em Lisboa com os olhos postos no rio que imagina povoado de canoas.
Há muito que não sabemos nada de si. Por onde tem andado?
Tenho um contrato de director dos programas de Ciência da NATO e coordeno a unidade de investigação do IADE. Estou entre Lisboa, Bruxelas e muitos sítios... Tenho vários poisos.
O que faz exactamente na NATO?
Não posso falar em concreto do meu trabalho na NATO. A missão fundamental do programa é estabelecer laços entre pessoas de ciência para o estudo das causas profundas de vivermos com tantos desafios e ameaças à nossa maneira de viver e à nossa vida.
Diz que tem fé na NATO. Porquê?
Tenho esta crença no que respeita à defesa porque a NATO é uma organização muito simples. O tratado que a institui tem 14 artigos. Eis uma organização com 14 artigos, que faz agora 60 anos e tem levado ao bem-estar de que, apesar de tudo, beneficiamos.
As ameaças são hoje mais graves do que antes?
Suponho que as pessoas acham sempre que na sua época as ameaças são mais graves. Mas, se as ameaças são mais sofisticadas, os meios de as ultrapassar também o são. Claro que estamos a falar desta parte do Planeta. Em outras a palavra ‘segurança’ nem sequer existe.
Já aqui damos à segurança cada vez mais importância.
Os imperadores romanos cunhavam moeda – foi a primeira moeda única da Europa – que num lado tinha a cara deles e no outro a representação de uma deusa. No séc. I era a deusa Felicitas. No séc. III, na maioria das moedas, figurava a deusa Securitas. É curioso que hoje também estejamos mais virados para a segurança.
Mas é triste, não lhe parece?
Há já várias gerações habituámo-nos a viver bem em comparação com a vasta maioria da população do Mundo – metade nunca fez uma chamada telefónica. Se parte do Mundo que vive mal vier até aqui, esta geração vai apanhar um grande susto pois nunca foi confrontada com a adversidade.
Diz-se que, por causa da crise, as próximas gerações não conhecerão o bem-estar das anteriores.
O dinheiro não desaparece, alguém ficou com ele. Daqui a dois anos os que agora estão a escondê-lo aparecem e isto volta a ser como era. Mas um facto é indesmentível: numa geração empenharam-se várias. Que quem nunca trabalhou já tenha carro, que quem ainda não fez nada já tenha tudo... É impossível! Isso não quer dizer que não se viva bem lá para a frente, mas será preciso inventar qualquer coisa...
Como é que um homem que nasceu em Casal de Cinza se tornou um cidadão do Mundo?
É um comum aos portugueses. Pedro Álvares Cabral – é de uma terra não muito longe de Casal de Cinza, Belmonte – ensinou-nos isto. Ele é o mais fantástico negociador da História. Já viu que as pessoas saíram daqui nas caravelas, chegaram ao Brasil, aquilo era excelente e ele conseguiu metê-las outra vez nas naus?! (risos) É um tipo com qualidades imensas. De volta a sua pergunta... Nenhuma geração é capaz de prever o que vai fazer a seguinte.
Nasceu no ano da invenção do transístor e licenciou-se no ano em que o Homem foi à Lua. O seu destino era a Tecnologia?
Sim... Eu gostava de Matemática, mas houve um senhor com influência decisiva no meu percurso: o meu tio Ramiro, que era lavrador. Eu tinha 13 anos, ele ia cavar uma extensão imensa e disse-me para ficar, se quisesse. Fiquei porque olhei para aquilo e disse ‘é impossível’. E então o tio Ramiro, cavadela atrás de cavadela, cavou aquilo tudo até ao fim. Não desistiu a meio, não perguntou nada, foi uma cavadela atrás da outra, sem culpas nem desculpas até ao fim. Foi a maior lição da minha vida.
Mas o seu tio trabalhou a terra quase sem tecnologia...
Tinha a enxada, a maioria das pessoas sabe como se faz uma. Eu passava horas no ferreiro, que fazia as enxadas, a vê-lo bater o ferro. Na minha geração havia uma grande esperança de que a Ciência mudasse o Mundo. E mudou. Faz com que a gente só morra lá para os 200 anos. A Tecnologia mudou o Mundo. E o Homem, mudou?
O Homem é igual ao que foi sempre, mas colectivamente fazemos coisas diferentes. O bem-estar nesta parte do Mundo deve-se ao trabalho colectivo que permite que sejamos uma sociedade muito eficaz. Tenho aqui água, café, sapatos... até estou vestido e nunca teci nada! Nesta parte do Mundo ninguém abriu o poço e todos têm água canalizada, o que é um bocado misterioso.
Gostamos de pensar que temos controlo sobre as nossas vidas...
Não temos controlo nenhum. Se amanhã decidirem que não há água, sabemos cavar mas não sabemos onde para chegar à água.
Tem medo do futuro?
Não, eu ainda sou da geração que partiu as pernas, arranhou os braços, partiu a cabeça uns aos outros... há coisas que não correm sempre bem mas temos confiança, individual ou colectiva, de ultrapassá-las. Pode é não ser sempre da mesma maneira ou de acordo com o que hoje se convenciona que é viver bem. De vez em quando, a Humanidade, colectivamente, esquece-se daquilo que aprendeu. É fácil esquecer tudo o que é preciso para termos tudo isto aqui. Basta uma geração esquecer-se de como é que as coisas se fazem.
O que é que o satélite português anda lá em cima a fazer?
Já está no fim. Mantém-se lá mais uns 30 ou 40 anos, entra na atmosfera e arde. Até há dois anos punha em contacto 140 estações de várias companhias, servindo desde explorações agrícolas até operações militares. Onde as nossas forças armadas iam, o PoSat fazia as comunicações entre aqui e lá.
Parecia que ia ser o princípio de uma aventura. Por que não foi?
Porque o país desindustrializou-se. O PoSat é da Efacec... Ainda houve um plano para 20 e tal satélites, mas a partir de 1993 decidiu-se que o País não ia ter indústria e sim serviços.
Há muito tempo que não lança um livro. Porquê?
Tenho alguns começados, um dia destes aparecem. Estou a fazer um com o Homem Cardoso, chama-se ‘Sonhar o Baixo’ e é sobre as canoas do Tejo.
Pensava que andava com a cabeça lá em cima e afinal é no rio que o encontro.
É o grande meio onde o homem português está em equilíbrio com a Natureza. Quando eu andava no Liceu Gil Vicente via milhares de barcos à vela. Só havia ponte em Santarém – a de Vila Franca foi construída em 1958. E agora toda a gente se esqueceu dos barcos à vela do Tejo. É uma geração com a cabeça completamente colonizada: só porque dizem que a bicicleta é boa passa a ser boa para a gente.
Mas agora há mais pontes e vem aí outra... Não gosta de pontes?
Eu gosto de pontes. Mas a solução deste problema é de uma enorme simplicidade. Nesta margem há uma metrópole com dois milhões de pessoas, na outra há um milhão e depois há duas ruas. Imagine o que seria Lisboa só com uma rua. Já devíamos ter 50 ligações e a mais óbvia é pelo rio, não é? Mas estamos a deixar o rio assorear.
Isso tem relação com as pontes?
Nos estudos das pontes não há qualquer modelo matemático sério do que é a sedimentação do rio. E a ponte Vasco da Gama transformou-se já no dique Vasco da Gama. Isto não tem nada a ver com navegação – para as canoas é excelente: a gente navega com 80 ou 60 centímetros de água e, se houver terra, pára e toma o pequeno-almoço. Cada ponte no mar da Palha é um dique porque a areia faz uma ilha à volta dos pilares. Em 2008 houve inundações em Sacavém na maré baixa! E as canoas podiam perfeitamente ser usadas em transporte. São as bicicletas do Tejo.
Como é a sua canoa?
Tem o nome ‘Ana Paula’ e foi construída em 1947. É a 11.ª da Marinha do Tejo. Há dez mais velhas.
Já pensou no que vai fazer quando envelhecer?
Passarei uma data de meses na canoa e outra em Casal de Cinza.
PERFIL
Fernando Carvalho Rodrigues nasceu a 28 de Janeiro de 1947 em Casal de Cinza, no concelho da Guarda. Doutorou-se em Engenharia Electrotécnica na Universidade de Liverpool. Chefiou o consórcio PoSat, que construiu e, em 1993, lançou o primeiro satélite português. Professor universitário no Instituto Superior Técnico e na Universidade Moderna, neste momento limita-se a orientar os seus alunos de doutoramento. É por causa deles, e das canoas do Tejo, que vem a Lisboa. Chefia actualmente os programas de Ciência da NATO. Adora ópera e ainda a canta – 'no duche, para os amigos' e, às vezes, quando se esquece, 'até nos aviões'. Em Bruxelas, Carvalho Rodrigues, cuja mais recente tomada de posição política foi o apoio ao independente Carmona Rodrigues na corrida para a Câmara de Lisboa, olha para a política portuguesa com a sensação de que 'isto é um manicómio'. É por causa do detalhe. 'Para compreender a política é preciso ter atenção ao detalhe e eu estou longe.'
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