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A infidelidade não é só de homens

Aconteceu. Mas ninguém sabe explicar muito bem quem traiu um amor. Certo é que não significa o fim de uma relação conjugal.

12 de fevereiro de 2006 às 00:00

O abraço, os beijinhos subiam directamente do pescoço para a testa. Às vezes até passeavam de mão dada. Às escondidas do namorado, Carla (nome fictício) já tinha mais do que um amigo: “Era um confidente a toda a hora, sempre muito querido.” A amizade dos dois jovens aumentava, tal como o tempo que passavam juntos. Até por partilharem o local de trabalho. “Estava sempre tudo bem, ele fazia-me sentir bem.” Primeiro Carla suspira, ri--se e, a seguir, dispara: “Aconteceu!” O quê? “Então… passámos a amantes, mas a sério.” A relação escaldante durou menos de seis meses. O amante (a sério) casou-se com a namorada que nunca desconfiou de nada. O companheiro de Carla também não. “Agora, somos amigos íntimos”, ironiza.

“Há uma noção generalizada de que as traições tendem a terminar com uma relação, o que não é verdade. Muitos casais têm a capacidade de recuperar de uma infidelidade sexual” – explica Miguel Faria, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Lusófona (Lisboa) e investigador na área da sexologia. Segundo as estatísticas, 57 por cento das mulheres infiéis afirmam que o fizeram por escape. Já os homens buscam novas parceiras quase como predadores sexuais. Mas nem todos. É uma questão de personalidade. “Socialmente rompe-se com o velho padrão de que a mulher está mais voltada para o lar e os homens para as mulheres dos outros.”

Na teoria uma pessoa não será infiel se souber valorizar o seu compromisso amoroso. A prática é outra. Há muitas motivações para dar a “facada” no matrimónio (ou namoro). O último estudo feito nos Estados Unidos, que data de 1994 (peca por estar uma década atrás no tempo), descobriu que 25 por cento dos homens é infiel e 15 por cento das mulheres também. Actualmente, os jovens entraram na liberalização dos afectos, para eles o peso da infidelidade tem vindo a diminuir. É fácil conhecerem-se pessoas novas. Para os mais velhos, trair é sinónimo de sexo extraconjugal. “Há homens que se sentem valorizados ao andar com raparigas mais novas”, exemplifica Miguel Faria. “Sentem-se negligenciados pelas mulheres.”

Mas há mais motivos que servem tanto aos homens como às mulheres. Os factores inerentes à própria relação dependem muito da valorização dada pelos parceiros a um projecto a dois e, ainda, de uma boa comunicação entre o casal. Quando isto não acontece, pode haver quatro factores isolados ou em conjunto que levam à traição: negligência (sinto que já não sou importante), raiva (desejo de vingança), sexual (já não sinto recompensa) e insatisfação (outro parceiro satisfaz-me mais).

No género humano há poucas diferenças para a traição – que mudam de pessoa para pessoa. “Alguns indivíduos têm uma atitude geral perante a sexualidade mais aberta, por isso, têm menos problemas em envolverem-se em relações sexuais fora do seu parceiro habitual”, afirma o psicólogo. Depois, subsistem factores ambientais, como em determinados tipos sociais ou no trabalho. Um último factor é a capacidade de uma pessoa em perceber ou transmitir sinais das suas intenções: olhares, palavras, toques.

E quando tudo se descobre? A sociedade tende a desculpar o homem e a penalizar a mulher. “Quando se torna público que o elemento masculino foi traído sexualmente, este fica muito afectado psicologicamente”, descreve o especialista em sexologia. “É que socialmente isso quer dizer que foi incompetente.” Afinal, são machos. Nas últimas duas décadas começa a ser evidente que as mulheres confessam mais as suas relações extraconjugais. “Elas entreajudam-se para tentar recuperar o homem que estão prestes a perder.”

Há quem diga que se trata de ‘infidelidade concedida’. Na Internet ou nos classificados desperta-se para o novo conceito: o ‘swing’. Os dois elementos de um casal respeitam a sua sexualidade, sem que tenham prazer exclusivamente entre eles. Isto é, fazem trocas de casais. Está longe do padrão monogâmico português.

O livro ‘What Makes Love Strong’ (o que torna forte o amor) revela a fórmula mágica que o investigador alemão Hans-Werner Bierhoff descobriu para tornar uma relação amorosa mais duradoura e feliz: cada crítica deve ser seguida de cinco elogios. Mais uma vez, o diálogo é o elemento essencial. Foi a solução para os conflitos de milhares de pessoas que Bierhoff testou. O básico ficou demonstrado mas acrescem elementos que apimentam o dia-a-dia de namoro: um perfume, flores e chocolates antes de um jantar à luz das velas, uma lingerie sexy, o respeito pela privacidade do outro. E dois pormenores importantes: nada de falar ou comparar com os ‘ex’ e capacidade para surpreender (claro que pela positiva).

O afastamento dos casais não motiva apenas a infidelidade, pode ser o passo crucial para o divórcio. O Instituto Nacional de Estatística revela que, em 2004, foram celebrados 49.178 matrimónios e concedidos 23.348 pedidos de separação, indiciando a tendência para que em oito anos se registem 27.400 casamentos e 30.150 divórcios em Portugal. Voltando à fórmula mágica que também serve para os casos em que a relação esfria por falta de tempo, muitas vezes, dedicado à maternidade, ao lar, ao trabalho, ou à maneira de tratar o corpo e de o manter sempre sedutor. Descubra o que está mal, mas valorize cinco virtudes.

O COMPROMISSO JÁ NÃO É O QUE ERA

A sociedade portuguesa está muito voltada para que os casais tenham relações monogâmicas e heterossexuais, mesmo que sejam só por união de facto – uma vez que há uma clara tendência para a diminuição do número de casamentos. No entanto, tanto elas como eles são propensos à infidelidade. E cada vez mais confessa. Outros tempos, outras vontades.

ESTATÍSTICA:

- 25% de homens infiéis nos EUA.

- 15% de mulheres infiéis nos EUA.

- 57% das mulheres é por escape.

- 81% dos homens é por sexo.

A calma e o diálogo são, sem dúvida, as melhores formas para o entendimento entre o casal. Siga alguns destes conselhos para poder melhor lidar com a situação.

EVITAR A INFIDELIDADE

A confiança vive do diálogo, mas sem ofensas. Por outro lado, o romantismo prolonga o amor e aumenta as fantasias. Verá que a amizade e o respeito mútuo fazem com que não sinta a necessidade de procurar carinho noutra pessoa. Não esqueça, o sexo é essencial.

SERÁ INFIEL?

Se desconfiar que a sua cara-metade é infiel, diga-lhe o que pensa de forma simples e aguarde a resposta. Evite muitas perguntas ou acusações. Se as suspeitas se confirmarem, não tome decisões de cabeça quente. A solução pode passar por uma terapia familiar, se ambos concordarem.

CIÚMES A MAIS

Tenha cuidado e mude de atitude caso sinta angústia por não conseguir controlar os passos do seu companheiro, ou toda a sua vida seja feita em função do ciúme. É perigoso não deixar o outro sair sozinho, tentar saber sempre onde e com quem está, sem respeitar a sua intimidade.

DEPOIS DA SEPARAÇÃO

A separação é, muitas vezes, o ponto final à infidelidade. Se isso acontecer, procure conforto nos amigos e na família e não permita que a depressão se apodere da sua alma. Resista à vingança e mantenha abertura a novas relações. Se for preciso, procure um especialista.

OPINIÃO DA JORNALISTA DULCE GARCIA

FIÉIS SÃO OS CÃES

A antropóloga Helen Fisher acabou com as ilusões: o amor é uma necessidade fisiológica, que dura entre 18 meses e três anos. O tempo necessário para qualquer casal se apaixonar, conceber um filho e criá-lo até ele ser minimamente autónomo – leia-se capaz de se alimentar sozinho e andar pelo próprio pé.

A professora americana, autora do livro ‘Why We Love’, que estuda há décadas o comportamento humano e a sua relação com o sexo oposto, baseou-se em pesquisas científicas para concluir que o amor romântico é uma invenção para dourar o mais puro instinto animal – o da perpetuação da espécie.

Nada disto seria particularmente grave para a instituição casamento se o papel feminino não estivesse em completa mutação. A própria Helen Fisher escreveu outro livro, The First Sex, onde defende que o século XXI vai colocar as mulheres no comando das operações.

Durante décadas, a infidelidade funcionou como um bric à brac masculino, comentado nos salões de jogo e nos bancos corridos das tabernas com a desfaçatez da normalidade. Homem sem amante era uma espécie de cão sem dono.

Ter uma mulher por conta tornou-se tão comum entre os mais abastados, como frequentar as meninas no grupos dos enteados da fortuna. As legítimas, essas, enchiam-se de jóias ou de filhos, conforme as posses.

Mas quis o milagre do capitalismo – é muito disso que se trata – que se desmascarasse o que era tido como virtude inata do sexo feminino: a fidelidade. Um inquérito brasileiro de 2005 revela que 45% das mulheres entre os 31 e os 40 anos já traiu o marido. Mais revelador ainda: 70% desta faixa etária admitiu que, pelo menos uma vez, sentiu vontade de se lançar nos braços de outro homem.

Com homens e mulheres em pé de igualdade (OK, em caso de separação elas ficam quase sempre com os filhos e isso limita-lhes a vida sexual), o que fará manterem-se de pé centenas, milhares de casamentos? Talvez aquilo que o meu amigo João disse no outro dia, com um ar resignado – “O casamento? Ah!, o casamento é uma grande amizade.” Bem visto. Até porque os amigos duram mais do que os amores, não é doutora Helen Fisher?

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