Há vários casais que realizaram o sonho de ter um filho. Para muitos outros, a espera ainda pode ser muito longa. Radiografia dos vinte anos que mudaram as técnicas de fertilização em Portugal.
Foi com os dedos da ciência que Patrícia pôde finalmente embalar um berço. Em pleno mês do Natal e em dose dupla, a cegonha deixou no sapatinho da família um casal de gémeos. A boa nova patrocinou as exéquias de quatro longos e dolorosos anos de luta contra a infertilidade, balizados pelas intermitências da sabedoria popular.
Depois da travessia do deserto, e do gosto do fel do ‘quem espera desespera’, saboreiam um mel sem prazo de validade, graças às técnicas de reprodução assistida: ‘quem espera sempre alcança’. “Estávamos a tentar desde Junho de 2001 e não conseguíamos nada. Comecei a ir a médicos conceituados na praça, mas ficámos desiludidos. Há muito comércio nesta área e é preciso ter dinheiro”, lamenta a funcionária pública, de 34 anos, a gozar a licença de maternidade. Com o pára-arranca dos diagnósticos inconclusivos e soluções goradas esteve a um passo de desistir. Mas em Janeiro de 2005, “pensámos numa vida nova.”
No mês seguinte, estavam para o que desse e viesse na primeira consulta no recente Centro de Medicina Reprodutiva de Cascais. “Levámos a tralha toda, todos os exames que já tinha feito. Identificaram logo que não ocorria a fecundação e sugeriram o tratamento mais adequado”, conta Patrícia, que ainda hoje guarda com carinho o pedacinho de papel, dado por uma amiga, com os contactos do sítio onde redescobriu a esperança.
A luz ao fundo do túnel da reprodução chamava-se fertilização ‘in vitro’ e micro-injecção plasmática, duas técnicas a que foram submetidos os seus óvulos. Depois de uma consulta de pogramação em Março, a lotaria das probabilidades ditou ‘tiro e queda’. Em Abril, depois da alegria de uma tentativa única bem sucedida, os testes confirmavam a tão desejada gravidez. “Davam um valor baixo, mas lá foi, graças a Deus!
Uma semana depois da colocação de três embriões já sentia a barriga inchada. Disseram-me que era um bom sinal”, recorda Patrícia, que logo começou a fazer contas à vida com a hipótese de vir a dar à luz um trio de bebés. Mais tarde, as ecografias mostravam que um deles fora naturalmente expelido, minimizando os efeitos de uma gestação múltipla. “Seria complicado se fossem trigémeos. Enquanto são dois, ainda temos dois braços”, diz, com um sorriso de alívio.
NOVE MESES DEPOIS, tem dois meninos para pegar ao colo que apagam da memória os tempos dolorosos em que se submeteu a injecções para estimulação dos óvulos. “Vacilei um bocado. Podia recorrer a enfermeiros mas com os horários que tinha que cumprir optei por me injectar a mim própria.” Até o marido, clinicamente mais afastado do processo, mas emocionalmente sempre presente, se predispôs a ajudar. “Acompanhou-me a 100 por cento.”
Acabadinhos de completar três meses, os gémeos são hoje o ‘Ai Jesus’ da família, que seguiu de perto todo o processo. O artifício da técnica, que deu o precioso empurrão, não esbarra no amor pelos rebentos.
Natural, como a sede de querer ter um filho, que se mantém impermeável ao tempo. O que pula e avança são as técnicas de reprodução medicamente assistida, que ajudam quando a farmacologia e as intervenções cirúrgicas não resolvem o dilema da infertilidade. “Em Portugal o progresso técnico vai no sentido do diagnóstico pré-implantatório, por um lado, e na obtenção de gravidez através de micro-injecção intraplasmática, após colheita de espermatozóides no testículo”, explica Madalena Barata.
Responsável pelo Centro de Medicina da Reprodução do Instituto de Urologia/British Hospital e pelo recente Centro de Medicina da Reprodução, em Cascais, que assinalou a 21 de Janeiro o primeiro ano de actividade, acolhe vários casais dos concelhos de Cascais e Sintra na faixa etária até aos 35 anos, como sucedeu com Patrícia, havendo também uma procura que corresponde ao desejo tardio de gravidez.
O diagnóstico é o primeiro passo de um processo que passa pela definição etiológica e definição do plano terapêutico adequado a cada caso. Numa fase inicial, a intervenção cirúrgica pode ser suficiente. Quando não surte efeito, a opção é o recurso às medicina da reprodução assistida. “A fecundação ‘in vitro’ (FIV) ou a micro-injecção intraplasmática (ICSI) são as técnicas-chave.
Em Portugal, realizam-se cerca de 834 ciclos FIV por ano e 1340 ciclos de ICSI. “A taxa de gravidez no caso da FIV é de 30,2%, por transferência de embriões, e de 28% em ICSI.” Cada ciclo, que compreende a estimulação ovárica, demora em média 15 dias”, esclarece a responsável.
O INVESTIMENTO RONDA os 2500 euros para um ciclo FIV e os 3250 euros para um ciclo ICSI. As questões éticas que se interpõem na condução destes processos não são esquecidas. Madalena Barata explica a política da casa. “Os conflitos põem-se menos nos casos de gravidezes múltiplas ou congelamento de embriões, que visa o seu uso mais tarde, pelo mesmo casal. O que nos põe mais problemas é a solicitação – rara, até agora – por casais homossexuais ou mulheres celibatárias.”
As valências da Procriação Medicamente Assistida (PMA) são cada vez mais inesgotáveis, levantando tantas ou mais questões como a vasta panóplia de siglas que abarca. Enquanto novas modalidades tecnológicas e metodologias terapêuticas têm vindo a facilitar o nascimento de crianças, ultrapassando várias situações de esterilidade e infertilidade conjugal até há alguns anos insolúveis, os novos conhecimentos da biomedicina, ciência genética e potencialidade das técnicas laboratoriais superaram de tal forma as expectativas que elevaram a ciência a patamares que implicam a ponderação de fronteiras. Não obstante, apesar do crescimento das taxas de sucesso da gestação em contexto laboratorial, a chegada de um filho mantém-se ainda uma dura batalha para centenas de casais.
‘SORAIA' É UM NOME fictício para um anseio real. A longa cruzada desta professora e do companheiro começou em 2002. A esperança sorriu-lhe de orelha a orelha com a oportunidade de participar num projecto de fertilização conduzido pelo Hospital Pêro da Covilhã.
A tumultuada experiência, a que se submeteram mais 11 casais, acabou por retardar ainda mais a angustiante espera. A promessa do nascimento do primeiro bebé proveta até final de 2005, através do futuro Centro de Medicina Reprodutiva do Centro Hospitalar da Cova da Beira, ficou em águas de bacalhau.
A maré de esperança ficou mais turva, mas o desejo de continuar a tentar, esse, continuou a navegar de vento em popa. “Ao início eram só facilidades, na primeira consulta disseram-me que o primeiro bebé proveta ia nascer em 2004. Depois disseram-me que estava equivocada e que isso só aconteceria em 2006.
Foram sete meses à vida, em que me alimentaram esperanças”, desabafa ‘Soraia’, à beira dos quarenta, uma idade com ternura mas que não se compadece com delongas. Desde há um ano, desloca-se mensalmente a uma clínica no Porto.
Está a ser submetida pela terceira vez a um tratamento mediante inseminação artificial. “Se falhar passaremos a ‘in vitro’”. Até agora, o sonho de ter um filho já envolveu um montante de cerca de 3500 euros. Apesar das dificuldades em suportar os custos, este é um investimento ao serviço de um desejo maior: ser mãe. “A esperança é a última a morrer”, diz, sem hesitações. Durante esta semana, faz figas e aguarda boas novas.
O PRIMEIRO BEBÉ PROVETA FAZ 20 ANOS
O método de fertilização ‘in vitro’ remonta a 1978. A história de Carlos Miguel Saleiro a par, passo... e remate.
EM 1986, CARLOS MIGUEL foi notícia ao nascer graças ao método de fertilização ‘in vitro’. Todos os anos, a 25 de Fevereiro, quando veio ao mundo no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, costuma atrair atenções.
Prestes a completar uma idade redonda, volta a atrair a curiosidade. “Sempre me senti uma criança igual às outras. Com o tempo, os meus pais foram-me explicando a situação”, explica Carlos, relativizando a situação.
Alheio a pioneirismos científicos, o jovem bem preferia entrar na história pelo toque de bola e pelos brilharetes nos relvados, a que se dedica desde os oito anos. Foi ponta-de-lança da equipa B do Sporting, “o clube de toda a família”, e em 2003 já tinha dado que falar quando participou no campeonato do mundo de sub-17. Uma operação a uma tendinite no joelho, em Junho do ano passado, valeu-lhe uma época irregular no Olivais e Moscavide, clube onde se encontra a título de empréstimo. O regresso aos treinos, em pleno, deu-se apenas há pouco mais de uma semana.
Carlos nasceu 11 anos após o casamento dos pais. Ao fim de três anos de tentativas para engravidar goradas, o diagnóstico da mãe, Alda, acusou uma obstrução nas trompas de Falópio mas não lhe fez baixar os braços. Depois de uma intervenção cirúrgica infrutífera, o casal Saleiro integrou um lote de 11 casais em circunstâncias semelhantes. Ansiosos por uma gravidez, submeteram-se sem pestanejar a um processo até então virgem em Portugal, capitaneado pelo médico António Pereira Coelho, recentemente chegado de uma especialização em França. “Apenas três mulheres conseguiram engravidar e duas delas abortaram.” Alda foi a única a manter a gestação até ao fim, expectante, mas sem perder a fé de vista, superior até à da própria equipa médica. “Disse às enfermeiras que ia conseguir. Quinze dias depois de ser fecundada, soube que estava grávida. É uma experiência que não dá para narrar”, conta a matriarca da família Saleiro. Apesar da longa cruzada, ter um filho com o mesmo sangue não era propriamente um ponto de honra. O casal já tinha companhia em casa.
Carlos veio juntar-se a Miguel, hoje com 29 anos, que Alda e o marido acolheram quando tinha quatro meses.“Pensei que fizesse diferença de um filho biológico, mas de facto não há diferença nenhuma no sentimento”, confessa a mãe. Não tardou a que a família ficasse ainda mais preenchida. Dois anos volvidos, Nuno veio engrossar a população em casa. Oito meses após o seu nascimento, chegou uma nova inquilina, a Ana.
SOCIEDADE PORTUGUESA DE MEDICINA DA REPRODUÇÃO
Presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, o professor da Faculdade de Medicina do Porto e Director Clínico do Centro de Estudo e Tratamento da Infertilidade, do Hospital de São João, destaca o essencial dos últimos anos sobre Procriação Medicamente Assistida:
- A “diminuição ao nível da eficácia da reprodução humana” é a tendência que ameaça a “garantia de substituição das próprias gerações.” Um em cada seis casais portugueses enfrenta um braço-de-ferro com a infertilidade.
- Há 20 anos, as taxas de sucesso por ciclo ficavam-se pelos 18-20%. Actualmente, a média europeia situa-se nos 28/29%. Em regra, realizam-se 3 ou 4 ciclos. É a partir dos 34 anos que as mulheres mais procuram ajuda.
- O desconforto provocado pela infertilidade, mantém-se de pedra e cal. “A maioria dos casais não quer que as famílias e os amigos saibam que precisam de auxílio médico, sobretudo quando o problema é masculino.”
- Os custos de um tratamento de fertilização mantêm-se pouco acessíveis. “As seguradoras não comparticipam os tratamentos. Cada ciclo varia entre 2500 e 4000 euros.” Nos hospitais públicos paga-se apenas a medicação.
- “Há uma enorme evolução no tipo de técnicas. Há 25 anos, não se conhecia bem a fisiologia da reprodução humana.” As inseminações intra-uterina, ‘in vitro’ e intracitoplasmática lideram a oferta de técnicas reprodutivas.
- Os limites da ciência estão na ordem do dia. “A lei devia desaconselhar o uso de embriões excedentários, com excepções. O diagnóstico pré-implantatório (que permite a escolha do sexo do bebé), devia ser proibido.”
- Nome: Prof. Dr. João Luís Silva Carvalho.
- Idade: 53 Anos.
- Profissão: Especialista em ginecologia e obstetrícia.
PORTUGAL EM LISTA DE ESPERA
Apesar das directrizes europeias, que caminham em sentido limitativo, os regimes da procriação medicamente assistida conhecem diferentes matizes de país para país, admitindo maior ou menor flexibilidade.
Em Portugal, o copo da PMA está cheio de vazios legais. É um dos raros Estados europeus que ainda não dispõem de enquadramento específico sobre esta matéria. Para dar cobro à lacuna jurídica nesta área, a agenda política prevê a redefinição da moldura legal já no próximo mês, para facilitar o acesso às técnicas com a devida conta, peso e medida.
A nova lei vai permitir saber, entre outras coisas, quem pode recorrer e praticar a fertilização ‘in vitro’ e que destino dar aos embriões excedentários. O dever de informar os beneficiários e o sigilo que deve proteger os mesmos e ainda o recurso a estas técnicas no âmbito do Serviço Nacional de Saúde são outros aspectos em análise. Prevê-se a proibição do comércio de produtos biológicos, derivados de reprodução medicamente assistida e reforçar a proibição da clonagem de seres humanos para fins reprodutivos, com uma formulação idêntica à recolhida na Constituição Europeia.
‘UNIDAS POR UMA CAUSA’
A braços com o drama da infertilidade, centenas de mulheres estão a formalizar uma carta de apelo à Assembleia da República, defendendo a necessidade de investimento no combate à doença, reconhecida pela OMS.
Os fóruns online são alguns dos palcos da luta de quem convive com o problema e assiste ao arrastar dos dispendiosos tratamentos. Dia 1 de Abril, em Leiria, estarão de mãos dadas, num Megalmoço Nacional.
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