Em Outubro de 1997, há precisamente dez anos, estrearam-se na Moda Lisboa num desfile em que apareciam de mãos dadas e pompons na cabeça, pouco depois de terem sido ‘descobertos’ numa paragem de autocarro. A Central Models ‘agarrou-os’ e nunca mais os largou. Hoje, aos 28 anos, os gémeos Guedes são dois dos manequins portugueses mais internacionais, mas não se escusaram a contar à Domingo as histórias mais divertidas, as confusões e as trocas que aconteceram dada a semelhança física entre eles. É que ser bonito nem sempre é fácil... mas ajuda
- Estavam numa paragem de autocarro, no Porto, quando foram descobertos por uma produtora de moda. Lembram-se para onde iam?
- Pedro - Íamos para a escola, estávamos atrasados para a aula de Matemática e tivemos que trocar de paragem de autocarro e apareceu a Fátima Magalhães (produtora de moda) que nos viu, gostou do nosso look e estacionou o carro ao nosso lado e ficámos a olhar para ela para ver quem era.
- Pensaram logo que se queria meter com vocês...
- Pedro - Pensámos que queria pedir indicações. Mas ela disse: ‘Olha, desculpem estar aqui a interromper-vos, mas eu tenho que vos conhecer, vocês são muito giros. Nunca pensaram em ser modelos?’ Depois até lhe perguntámos se ela nos podia dar boleia, mas ela não ia para o nosso sítio.
- Mas disseram logo que sim?
- Pedro - Não, ela pediu-nos o contacto, demos o número da nossa casa e ela acabou por ligar, para marcar fotos para um catálogo e de repente já estávamos noutra dimensão.
- O vosso primeiro desfile foi há dez anos na Moda Lisboa. Quem entrou primeiro na passerelle?
- Pedro- Entrámos os dois de mão dada. Foi o desfile do Miguel Flor.
- Ricardo: E entrámos os dois com o pé direito e com uns pompons na cabeça.
- Estavam nervosos?
- Pedro - Sim. Vi a Sofia Aparício e a Nayma, que só conhecia da TV e pensei: ‘Bem, isto é à séria’, mas felizmente na altura de entrar no desfile eu ia de mão dada com o mano e estava seguro.
- Ricardo - Lembro-me de pensar: ‘Já está a acontecer’. E correu muito bem.
- Li algures que quando saíram a primeira vez do Porto para Lisboa levaram uma mala de roupa que dava para um mês mas só iam ficar três dias...
- Pedro - Sim, e para Barcelona era um mês e levámos uma mala de roupa e outra de comida com leite, Nestum, rojões já feitos, frango, arroz, batatas assadas... tudo feito pela mãe e pela avó.
- Ricardo - Ainda costumamos levar o Nestum.
- Pedro- Éramos mesmo uns meninos do campo. (risos)
- No primeiro desfile fora do País aproveitaram para passear?
- Ricardo - Havia tanto stress para não chegarmos atrasados; até víamos o mapa de Paris ao contrário.
- Pedro - Sim, a vida de um manequim no estrangeiro é como a vida de um escuteiro. No primeiro ano o mais importante era não nos perdermos.
- E telefonavam à mãe?
- Pedro - Sim, sempre! E para o Mário (agente). Qualquer dúvida ligávamos...
- Como por exemplo?
- Ricardo - ‘Oh mãe, como é que se faz esparguete?’
- Pedro - ‘Oh mãe, como pomos a máquina da roupa a lavar?’ (risos)
- Antes da moda jogaram futebol... Levavam muitas miúdas ao estádio para vos ver?
- Ricardo - Na altura não tínhamos namoradas a ver-nos, gostávamos tanto de futebol que as namoradas eram as bolas de futebol.
- Mas sei que até aos dezasseis anos vocês vestiam-se de igual. Era para confundir as namoradas?
- Pedro - (risos) Acho que depois de nos conhecerem as pessoas sabiam quem era o Pedro e quem era o Ricardo...
- Mas nunca tentaram?
- Pedro - Propositado não. Mas uma namorada do meu irmão uma vez enganou-se, mas foi só durante alguns minutos.
- Pedro - Nos estávamos no shopping, e eu estava a olhar para as pessoas encostado ao gradeamento. E ela veio, agarrou-me no braço, eu nem reparei quem era e quando olhei para o lado ela mandou-me um beijo na boca. (risos)
- Nem houve tempo para desfazer o engano...
- Pedro - Eu ia dizer que não era eu mas nem tive tempo; ela virou-se para os amigos e disse: “Este é o meu namorado, o Ricardo”. Aí é que eu disse, “não não sou o Ricardo, sou o Pedro”. Ela ficou tão vermelha...
- E alguma vez se apaixonaram pela mesma miúda?
- Ricardo - Já, uma vez, tínhamos 14 anos...
- Pedro - Ficámos interessados no mesmo dia mas em intervalos diferentes. Num intervalo eu vi a miúda mas o meu irmão não estava. No outro intervalo ela só tinha tirado o casaco de ganga e o meu irmão também a viu. Ao fim do dia contei ao meu irmão: “Hoje vi uma gata, fiquei mesmo...” e ele: “Também eu!” E perguntei como é que era a dele e ele disse que ela tinha uma T-shirt branca. E eu: “Ah, a minha não, estava de casaco de ganga”. Passado um ou dois dias quando voltamos a ver a miúda na escola eu disse: “Mano, olha é aquela”. E o meu irmão: “Mas aquela foi a que eu tinha visto”. E ficámos os dois a olhar um para o outro...
- Pedro- Perguntámos logo: “O que é que fazemos?”. E respondemos ao mesmo tempo: “Não fazemos nada, ninguém fica com a miúda”. Ela só trocou de casaco, foi engraçado. Agora tem piada mas na altura ficámos mesmo: “ohhhhhh, que pena”.
- E contavam um ao outro das vossas namoradas?
- Pedro - Sim, contávamos tudo. Começámos a namorar cedo os dois.
- Ricardo - Sempre fomos uns apaixonados, havia sempre uma miúda.
- E alguma vez namoraram com um par de gémeas?
- Pedro - Houve uma vez um S. João (risos) mas foi só dar uns beijinhos e depois elas trocaram e depois nós trocamos e ficámos outra vez com a mesma (risos). Foi uma coisa de horas.
- Na rua baralhavam as pessoas?
- Pedro - Sim, havia situações em que eu me atrasava um pouco e o meu irmão entrava num café ou numa loja. E pouco depois entrava eu e as pessoas ficavam todas a olhar para mim como se eu fosse um ‘fantasma’ e estivessem a ver mal.
- Ricardo - Há pouco tempo em Londres, algumas pessoas que tinham estado com ele no Japão, vieram ter comigo a abraçar-me e disseram: “Pedrooooooooooo estás aqui”. Eu abracei-as mas no fim disse: “Sou o outro”. “És o outro?, Que outro?”, perguntavam. (risos)
- Pedro - Uma vez eu fui ter a casa do meu irmão, eram 7h30. Ele disse-me para eu passar na padaria e trazer uns croissants. Estava eu na fila da padaria a essa hora e chega um amigo dele e manda-me um ‘cachaço’ e disse: “Então Ricardo passas aqui e não cumprimentas?”
- E nos bastidores de um desfile de moda, algum engano?
- Ricardo - Fui fazer um desfile, em Milão, como se fosse o meu irmão. O Pedro estava mesmo doente, com uma gripe e só era ele que ia fazer o desfile porque eu nem tinha feito o casting. Estive nos bastidores o tempo todo a chamarem-me Pedro e eu sempre a olhar para o alto porque não associava o nome a mim. Fui o Pedro o dia todo.
- Como é que lidam com isso, de haver um igual?
- Pedro - É muito bom saber que tens uma pessoa igual e com quem te identificas. Já nascemos assim, é tão natural confundirem-nos que não nos faz diferença nenhuma.
- Como é que convivem com a vossa beleza?
- Pedro - Que beleza? Isto é só charme! Houve situações. Uma vez uma rapariga na escola veio ter comigo e disse: “Tira os óculos, disseram-me que tens uns olhos muito bonitos.” Eu tirei e fiz assim [entorta os olhos] e disse: “Ai são, achas?” (risos) Mas no fundo eu não sabia o que dizer, uma pessoa nunca sabe como lidar com isso.
- Ricardo - Como trabalhamos em moda, não somos os únicos miúdos giros. Mas ajuda em muita coisa, as pessoas dão mais crédito. Há pouco tempo estive numa situação em que tive que inventar uma história e a pessoa estava a acreditar porque a imagem de vez em quando ajuda. Ponho uma carinha de anjinho e dizem ‘que giro’.
- Ricardo - Quando éramos mais novos, entravamos num grupo novo e as raparigas olhavam para nós e os namorados não gostavam. Havia logo uma situação de tensão. Quando havia namorados por perto, eles não achavam piada nenhuma.
Na escola, aproveitavam para confundir os professores?
- Pedro - Agora já podemos dizer porque já temos 28 anos (risos). Às vezes nas aulas de Francês só ia um de nós, o outro ficava a jogar futebol. Era à vez. A professora chamava “Pedro” e eu dizia “‘tou aqui”. Depois chamava “Ricardo”, e eu trocava de lugar para o dele e dizia “‘tou aqui”.
- E um de vocês estar mal e o outro sentir?
- Pedro Uma vez o meu irmão teve um acidente de mota e eu senti-me estranho. Ia de carro com a minha prima. Comecei a dizer: “O meu irmão, o meu irmão” e até bati com o automóvel no passeio.
- Imaginam-se daqui a muitos anos os dois ainda iguais?
- Ricardo - Sim, os dois com uma ‘carecada’ total.
- Pedro - E a tomarmos um comprimido para a osteoporose sempre juntos. (risos)
RICARDO GUEDES
Idade: 28 anos
Profissão: Manequim
Quando não está a viajar vive em Vila Nova de Gaia com os pais. Tem um filho de 3 anos, o Tiago. Os gémeos Guedes já desfilaram para criadores internacionais de renome como Valentino, Armani (Ricardo diz mesmo que ao pé dele pode andar descalço), Tommy Hilfiger e Versace. Fizeram importantes editoriais de moda. Vogue, Madame Figaro, Marie Claire e Jockey são disso exemplos.
PEDRO GUEDES
Idade: 28 anos
Profissão: manequim
É o gémeo mais velho, porque foi o segundo a nascer. Actualmente vive em Setúbal com a manequim Telma Santos em união de facto. “Somos eternos namorados, mas queremos casar quando a Maria Gabriela tiver idade para levar as alianças”. A filha nasceu este mês, no dia 3. Ricardo viu a sobrinha através da internet, porque estava no Japão e passou toda a noite acordado a enviar mensagens. Pedro e Ricardo têm um Centro de Mergulho, o ‘121’em Sagres, em conjunto com o manequim Tiago Nunes.
GÉMEOS FUTEBOLISTAS
Começaram a jogar futebol aos sete anos no Boavista, e dois anos depois no Candal. Pedro era defesa central e Ricardo era lateral, conhecido como a ‘gazela’. Já modelos, chegaram a jogar dois anos em Paris. Aos 19 anos receberam um convite para jogar na África do Sul, mas a moda falou mais alto. Se tivesse continuado, Pedro gostava de jogar em Inglaterra e Ricardo no Barcelona.
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