Pedrouços acolhe o estaleiro da maior corrida naval do planeta.
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Na fábrica de Pedrouços perdeu-se um cão. Não era suposto estar um animal doméstico nos estaleiros onde os veleiros mais avançados do Mundo estão a ser reconstruídos, mas o cartaz colado num dos cascos mostra a fotode ‘Doofus’, descrito como um "cão chinelo australiano". O caso tem rápida solução. ‘Doofus’ é afinal uma das pantufas de Liz Wardley, uma das cerca de 50 pessoas que trabalham no Boatyard para reconstruir os oito barcos que vão fazer a próxima Volvo Ocean Race. A pantufa desaparecida aparece no convés de um dos barcos. Num veleiro com um custo estimado de 4,5 milhões de euros não se pode andar calçado durante a construção e Liz opta pelas pantufas em forma de peluche canino.
Veleiros da Volvo Ocean Race reconstruídos em Lisboa
O primeiro barco construído em fibra de carbono chegou às antigas instalações da Docapesca, em Pedrouços, Lisboa, em agosto de 2015, pouco depois de terminar a última edição da prova. Os outros seis navios chegaram no último verão e um oitavo barco, que está a ser feito de raiz, também vai passar pelo estaleiro para ser equipado.
"É um processo que começou na edição de 2014-2015, em que houve o desejo de encontrar um sítio onde se pudesse fazer o ‘refit’ [remodelação] e manutenção destes equipamentos. Estes armazéns da antiga Docapesca são perfeitos para fazer o processo industrial que é necessário para estes barcos. O pessoal até diz que se isto fosse construído hoje, não estaria tão bem", conta Rodrigo Moreira Rato, responsável pela comunicação da Ocean Race.
Até junho, os estaleiros vão manter-se ocupados com uma equipa de engenheiros e técnicos que vêm de todos os cantos do Mundo.
Portugueses, brasileiros, espanhóis, argentinos, italianos, franceses, neozelandeses, australianos e britânicos são algumas das nacionalidades presentes. A língua franca é o inglês, mas os idiomas misturam--se frequentemente.
Famílias
O australiano Neil Cox foi velejador durante anos e fez várias edições da Volvo Ocean Race, prova cuja primeira edição remonta a 1973. Hoje é o responsável máximo do projeto de ‘refit’ das embarcações, que, desde a última edição da prova, são todas iguais. Desfaz-se em elogios a Lisboa. "É bom ter uma base estável, estarmos aqui todo o tempo e termos a possibilidade de ter uma força de trabalho aqui durante um período de seis meses, o que permite ao pessoal trazer as suas famílias para o apoiar. Tem sido excelente ver como os que são casados e têm filhos se estão a integrar com as comunidades, desde Cascais a Algés, Belém e Lisboa. Toda a gente se instalou em apartamentos locais e os filhos frequentam escolas daqui."
Henry Woodhouse veio de Inglaterra e tem uma longa experiência na construção de veleiros de competição, que o levou a conhecer os portos de todo o Mundo. "Estou em Portugal com a minha mulher e os meus dois filhos. Estamos a morar na Parede e tem sido fantástico. Já decidimos que é aqui que queremos manter a nossa base permanente."
Menos definitiva é a australiana Liz Wardley, de 38 anos. Chegou a Portugal há seis meses com as suas pranchas de bodyboard e paddle e há muito que se habituou a não ter poiso permanente. Está em Pedrouços porque, depois de duas edições como skipper (comandante) de veleiros de competição, quer aprender mais sobre o barco. E nada melhor do que participar na reconstrução para lhe conhecer os segredos.
O relato de Liz desmonta todo o romantismo que possa haver sobre as corridas de veleiros. É um desafio a que só resistem os mais fortes, porque as provações são mais do que muitas. "Se não gostares de corridas em alto-mar e se não estiveres na prova para tentar ganhar a Volvo Ocean Race não vai ser muito divertido. Definitivamente, não são umas férias. Tudo é trabalho duro", conta Liz. Num barco de 22 metros de comprimento cabe uma tripulação de oito a 12 pessoas, conforme a equipa. A casa de banho é precária, as camas usam-se em sistema rotativo, não há duche e as refeições fazem-se de comida desidratada à qual se junta água quente. A isto juntam-se as vagas permanentes, como permanente é a inclinação do barco. Algumas regatas chegam a ter 30 dias. O cansaço é extremo.
"Fazemos turnos de quatro horas. Estás no convés a controlar o barco durante quatro horas e depois tens quatro horas de descanso. Nesse período tens de comer, dormir, cuidar de ti próprio e fazer algum trabalho que seja necessário no barco. Mas se houver alguma mudança de vela ou uma manobra, tens de te levantar e ir para o convés ajudar. É um bom dia se conseguires três horas de descanso, mas acontece muito frequentemente não conseguires ter qualquer período de sono no tempo de folga", conta Liz Wardley.
A mais dura prova
Para a equipa que constrói os barcos, o esforço não é tão extenuante, mas os ciclos de três semanas que cada veleiro cumpre desde que sai da água até voltar ao oceano completamente renovado exigem muitas horas de trabalho. Miguel Nunes, um dos portugueses que integram a equipa, sublinha o "fantástico espírito de ajuda e de entreajuda", mas sublinha um pormenor que tantas vezes falha nas organizações portuguesas: "Aqui seguimos o planeamento à risca. Os prazos são mesmo para cumprir". Nos dias de folga, passeia-se por Lisboa e pelo País. "Um dos pedidos que quase todos fizeram quando chegaram foi ir ver a onda da Nazaré. É engraçado como as notícias correm depressa, toda a gente sabe das vagas gigantes que ali existem", diz Miguel Nunes.
Rodrigo Moreira Rato orgulha-se dos elogios que ouve diariamente a Portugal e a Lisboa. E está convicto de que os estaleiros da Volvo Ocean Race - cuja sede funciona na cidade espanhola de Alicante - vão continuar ali em 2018. Em junho, os veleiros são entregues às equipas que vão fazer os primeiros testes de mar entre Lisboa e Cascais. Em outubro, os oito barcos largam de Alicante para mais uma volta ao Mundo, que só termina em junho de 2018, na cidade holandesa de Haia. Hão de voltar depois a Lisboa para preparar uma nova edição da mais dura prova de vela por equipas do planeta.
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