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A pirataria em alto mar ainda existe

Manuel Vieira Leite sentiu o fio da navalha no pescoço, sofreu a ameaça de piratas no mar. Em 1987, o comandante do petroleiro ‘Aire’ – que pertencia à Soponata (Sociedade Portuguesa de Navios Tanques, SA) – foi violentamente roubado ao largo do Iémen. Quatro assaltantes saquearam o equivalente a cerca de 250 euros, uns óculos de sol Ray Ban, dois relógios e uma calculadora. Terror semelhante ao sofrido pelo comandante do navio ‘Lourdes Tide’, Carlos Manuel Pimentel Soares, de 42 anos e com uma filha. No dia 13, o português, oficial da Marinha Mercante, e os seus 11 tripulantes – um ucraniano e os restantes nigerianos – foram sequestrados na Nigéria. Oito dias depois, só dois nigerianos tinham sido libertados. Desconhecia-se se tinha sido pago o resgate de cinco milhões de nairas (27 200 euros).

25 de maio de 2008 às 00:00

No primeiro trimestre deste ano foram reportados 49 ataques de piratas no Mundo, mais oito que em igual período do ano passado. E Abril ficou também marcado por três ataques: ao iate francês ‘Le Ponant’, ao pesqueiro espanhol ‘La Playa de Bakio’ e ao navio-tanque japonês ‘Takayama’ .

Quando, a 2 de Novembro de 1987, o então oficial da Marinha Mercante Vieira Leite recolheu à cabina para descansar nunca imaginou o terror que iria suceder-se. Quatro piratas, armados com sabres, invadiram-lhe o quarto. O navio-tanque ‘Aire’ estava ao largo do Iémen, meio dia depois de ter zarpado de Singapura carregado de fuelóleo. 'Estava deitado e no escritório tinha lá uma fotocopiadora. Ouvi barulho e pensei que fosse o imediato a querer tirar fotocópias. Disse-lhe: ‘homem, a esta hora é que vai fazer isso?’'

Os piratas não tardaram a alcançá-lo, acenderam a luz e puxaram-lhe o lençol. Um deles encostou-lhe um sabre ao pescoço, ameaçando-o de morte. Outro assaltante atou-lhe as mãos com uma corda de nylon. Tirou-lhe o relógio do pulso e só deixou ficar a aliança de casamento. O pirata que o ameaçava com o sabre forçou-o a abrir o cofre. Havia lá 100 dólares, 50 mil liras italianas, 10 mil ienes, 3000 escudos e 1300 meticais – tudo não valeria mais de 250 euros. Outros remexiam o roupeiro e a cómoda: levaram uns óculos Ray Ban, uma calculadora com impressora, uns sapatos e uma toalha.

'Eu sabia que aquela era uma zona de assaltos. De maneira que tinha escondido o resto do dinheiro noutros sítios', recorda Vieira Leite. Como os assaltantes não encontraram mais nada, ataram-lhe os pés. Cortaram o fio do telefone e ameaçaram matá-lo se ele tocasse o alarme nos dez minutos seguintes – o tempo suficiente para fugirem.

Na debandada, o último dos piratas foi surpreendido pelo imediato, Dias Cruz, que ia entrar ao serviço. 'Graças a Deus, foi a única vez que me aconteceu uma coisa destas. São situações que só admitimos nos filmes: vermos pessoas estranhas ao navio, sabendo que estamos a navegar... Ficámos quase bloqueados', recorda. Nesse momento, o imediato trancou-se no quarto e tentou ligar ao comandante. Como não obteve resposta, subiu à ponte e ligou o número de emergência. Só depois foi ajudado pelo engenheiro-chefe, o oficial de rádio e o electricista a desamarrar o comandante do ‘Aire’. 'Nestes casos o melhor é nunca dar réplica nem luta. Nós nunca sabemos quantos são', diz Vieira Leite. 'Nesse dia deitei-me, relaxei e as lágrimas vieram-me aos olhos.'

O porta-voz da Marinha de Guerra portuguesa, João Barbosa, explica que 'as costas onde se verificam casos de pirataria marítima são normalmente áreas em que os Estados são incapazes de efectuar a segurança dos seus espaços marítimos, por inexistência de meios navais e ou dispositivos que garantam a necessária segurança'. Entre Janeiro e Março, a Nigéria estava no topo da lista de ‘pontos negros’, com dez ataques. Não há relatos de incidentes no mar nacional ou na Zona Económica Exclusiva portuguesa.

Nos dois últimos anos foram reportados apenas três incidentes com navios de bandeira portuguesa, segundo o International Maritime Bureau: o ‘Mystras’ foi atacado duas vezes na Nigéria, a primeira em Novembro de 2006, por dez assaltantes armados, tendo morrido um tripulante durante as operações de resgate; e a segunda sete meses depois, desta vez sem vítimas a lamentar. Em Agosto de 2007, foi atacado o ‘Hafentor’, num porto da Jamaica.

Só que o ‘Mystras’ e o ‘Hafentor’ pertencem a armadores estrangeiros que usam bandeiras de conveniência – neste caso, da ilha da Madeira – porque têm menos custos que as dos países de origem. E como levam muito dinheiro a bordo – já que pagam directamente à tripulação, o que corresponde a 60 por cento dos custos do navio – isso faz deles um alvo. Mas como estes casos estão a tornar-se raros, os piratas passaram a sequestrar a tripulação para pedirem resgates aos armadores.

'Se temos medo? Temos receio. Há países aonde não vamos; pura e simplesmente, dizemos ao cliente que nós não vamos' – afirma João Carvalho, presidente da Associação dos Armadores da Marinha de Comércio. E é precisamente em fretes para estas zonas de risco que as seguradoras cobram 'prémios altíssimos'.

E se andarem armados? 'Não podemos', afirma o comandante Vieira Leite, ameaçado por piratas a bordo do petroleiro ‘Aire’. 'Só no tempo da guerra colonial é que tínhamos uma metralhadora, três pistolas e 3000 munições. Mas isso era mais por causa dos ataques dos nossos inimigos.'

OS GRANDE CASOS DO MÊS DE ABRIL 

Em Abril, depois do sofrimento, assistiu-se a um final feliz para 30 tripulantes do iate francês ‘Le Ponant’, no regresso das Seychelles. No desfecho, dado por militares franceses, foram detidas seis pessoas e recuperada só uma pequena parte do resgate, de 1,258 milhões de euros. Sorte tiveram os piratas que libertaram os 26 tripulantes do navio de pesca espanhol ‘La Playa de Bakio’, que fugiram com 770 mil euros. O último caso mediático de Abril aconteceu no Iémen quando o petroleiro japonês ‘Takayama’ foi atingido no casco por um ‘rocket’, derramando crude no mar.

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