Aldeia do concelho do Bombarral é o cenário da série de televisão. Todos saúdam a pacífica invasão de atores e técnicos.
João Mendonça andava entretido a podar um dos seus pomares quando recebeu uma chamada no telemóvel. Era um amigo do restaurante ali perto que o avisava que havia "uns senhores" que andavam à sua procura. João, 49 anos, presidente orgulhoso da Junta de Freguesia do Carvalhal, apressou-se a ir ao encontro dos forasteiros. Ouviu o que lhe propuseram, acrescentou duas ou três contrapartidas, e não demorou muito a dizer que sim.
O ‘sim’ de João Mendonça mudou a rotina de Graça Carvalho. Quando agora sai da sua casa, na travessa Mestre Hermínio, já não dá de frente com o edifício da Junta de Freguesia do Carvalhal nem caminha pela rua das Irmandades. Desde abril, altura em que o ‘sim’ de João Mendonça fez chegar à terra a equipa da série da RTP ‘Bem-vindos a Beirais", Graça dá de caras com a sociedade filarmónica e a rua também mudou de nome. O largo do Santíssimo até passou a contar com duas fachadas novas, uma agência funerária e uma mercearia, mas ali nada se vende nem ninguém pergunta por caixões – são meros cenários da série de TV em que Graça se orgulha de participar. "Temo--nos divertido muito. São todos simpáticos. Sou figurante e hoje vou vestir-me de Amália Rodrigues, veja lá", conta Graça Carvalho, de 69 anos.
João Mendonça não podia estar mais satisfeito com a escolha da aldeia do Carvalhal, por ventura a mais bonita do concelho do Bombarral, para cenário da série. "Ao princípio houve quem se incomodasse. Não queriam confusões e houve quem não gostasse de ver chamar Beirais à nossa aldeia. Mas hoje toda a gente está contente."
Onde é a cascata?
De um momento para o outro, começaram a desaguar na freguesia dezenas de visitantes que, sobretudo ao fim de semana, querem conhecer o cenário verdadeiro da ficção televisiva. Mas a SP, produtora responsável pela série, montou um ardil que tem levado muitos ao engano. "Uma das primeiras coisas que perguntam é onde está a cascata e o lago onde se pode tomar banho. Só que essas cenas foram gravadas na serra da Lousã. Mas todos gostam da aldeia e tem aparecido mais gente no restaurante", conta Luís Louro, 65 anos, que se orgulha de manter com a mulher (e cozinheira) Luísa "o mais antigo restaurante do concelho do Bombarral". O Lagar, situado em frente ao Santuário do Bom Jesus – muito procurado na região – já era uma casa afamada, mas a série veio dar uma ajuda . Outra ajuda ao turismo é o o Buddha Eden Garden, o parque em que o empresário Joe Berardo mostra a sua coleção de budas.
Uma das condições que João Mendonça impôs para que a série viesse para o Carvalhal foi que a maior parte dos figurantes fosse gente da terra. António Branco, de 65 anos, estava a inscrever uma das netas quando lhe disseram que também ele tinha lugar em Beirais. "Disseram-me que precisavam de pessoas da minha idade e lá me inscrevi. É muito bom, pagam-nos 25 euros por dia, com almoço ou jantar, conforme a hora do dia. Isto foi o melhor que aconteceu à freguesia", diz. A neta, Maria Leonor, de oito anos, aprova a sua prestação no ecrã: "Ele é um ator muito fixe". José Gomes, 61 anos, é outro figurante. A sua carrinha de caixa aberta aparece em vários episódios. "Ainda me dão 50 euros por dia por usarem a carrinha."
Nova temporada
As audiências de ‘Bem-vindos a Beirais’ têm posto a série entre os 10 programas mais vistos diariamente. Resultados que fizeram a RTP alargar os 80 episódios inicialmente previstos para 100. E em setembro há de vir uma segunda série, que volta a ter o Carvalhal como cenário. "O segredo da série tem sido a simplicidade. Filmar aqui permite-nos trabalhar em paz e isso nota-se no que se vê no ecrã. Uma equipa feliz faz uma série feliz", diz Nuno Vieira, um dos três realizadores da série, coordenada por Manuel Amaro da Costa.
Na semana passada, a equipa da SP gravou as últimas cenas da primeira temporada. Içada a bandeira fictícia de Beirais (mas com o brasão original do Carvalhal) no mastro da Junta e substituídas as placas da toponímica real pelas da ficção, a rua principal da aldeia volta a ser o cenário para os dois protagonistas. A cena é simples, Oceana Basílio e Pepê Rapazote caminham pela rua abaixo, chegam ao largo e beijam-se, até o momento romântico ser interrompido por uma chamada de telemóvel.
O que no ecrã demorará pouco mais de um minuto leva duas horas a gravar e ocupa uma equipa de 30 pessoas. Excelentes notícias para Feliciana Fonseca, de 77 anos, dona do único café da aldeia, com mercearia anexa. "Eles fartam-se de trabalhar. São muito simpáticos, passam todos aqui pelo café." Pepê Rapazote está feliz com a experiência e não poupa elogios ao Carvalhal: "Se espreitar por cima dos muros e olhar para os jardins, vai ver como está tudo arranjado. Que me lembre, só em Itália encontrei uma aldeia onde houvesse tanto esmero", conta o ator, de 42 anos. Oceana Basílio gaba "a generosidade das pessoas que nos receberam com todo o carinho e estão sempre prontas a ajudar no que for preciso". A pessoa mais popular da equipa é Silvino Fazeres. Se é preciso abrir uma janela para tirar um reflexo da cara dos atores, se a traseira de um carro compromete o plano, se é preciso falar com o dono do terreno onde o camião vai estacionar, é Silvino que bate às portas. "O ‘Bino’ é cinco estrelas", jura João Mendonça. Martinho Silva, de 34 anos, encarna o médico Nuno Aires na série. Enquanto espera pela gravação de uma cena, deixa-se ficar à conversa com os da terra. "As pessoas são muito afáveis. Sentem muito orgulho na série e fazem-nos sentir bem-vindos."
Restaurante tailandês
Carvalhal é uma freguesia de três mil eleitores, mas a demografia tende a encolher nos próximos anos. "Quando cheguei à Junta, há oito anos, tínhamos 145 alunos nas escolas. Agora são 108. Todas as escolas vão fechar. No próximo ano letivo todas as crianças vão ter aulas no Bombarral", lamenta João Mendonça, que explica que a Junta oferece 150 euros por cada criança que nasça. Lucas Ferreira, de 16 anos, é uma das poucas caras jovens que se veem na aldeia. Estuda nas Caldas da Rainha, mas faz planos de não sair do Carvalhal, apesar dos poucos amigos da sua idade. "É uma terra sossegada, gosto disto", explica.
A riqueza da terra são os pomares de pera-rocha. "É o nosso ouro", conta Vítor Brás, de 61 anos. Mas há surpresas. À saída da aldeia, o restaurante Supatra oferece aos visitantes o melhor da cozinha tailandesa. Humberto Silva, de 57 anos, explica como aterrou ali este ‘óvni’. "Sou daqui, mas emigrei para Londres muito novo, onde trabalhei em hotéis e restaurantes. Foi lá que conheci a minha mulher, que é tailandesa. Em 1991 voltámos a Portugal e abrimos o primeiro restaurante tailandês do País, nas Caldas da Rainha. Fechámos há quatro anos e depois viemos para aqui viver." Supatra, a esposa que dá nome (e o talento culinário) ao restaurante, explica, num português carregado de ‘eles’, o que os fez abrir o novo restaurante. "O embaixador da Tailândia veio cá e pediu-me para abrir outra vez o restaurante porque não tinha onde saborear a comida do nosso país." Um antigo lagar foi remodelado e o restaurante tem captado velhos e novos clientes. Como João Mendonça: "A primeira vez que lá fui, ia a medo, mas gosto muito", garante.
Por ali há muitas casas de fim de semana, e não só de portugueses. Uma empresa irlandesa construiu uma série de vivendas que acolhem turistas, britânicos e não só. À mesa do Café Fonseca, o casal irlandês Jonathan O’Neal e Ellen Kavanagh surpreendem-se com a azáfama da equipa técnica que se prepara para filmar. Explicam o que gostam no Carvalhal, razão não muito diferente da que levou a terra a tornar-se Beirais: "As pessoas são muito simpáticas."
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