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A vida a seguir à morte de um filho

O sobrinho de Simão Sabrosa, Diogo, 4 anos, e João Pedro, 9 meses, foram duas das crianças que perderam a vida nas últimas semanas. Fomos ouvir pais que partilham da mesma dor

22 de março de 2009 às 00:00

A Eduarda não é apenas a menina que sorri nas molduras e retratos. É a voz que Joaquim Santos ouve diariamente a dizer ‘levanta-te pai’ desde que a filha partiu em Maio de 2006, atropelada na estrada em frente à casa onde moravam. Tinha quatro anos e gostava muito de ballet e de cor-de-rosa. Também dizia coisas que espantavam os adultos. ‘Sabes, mãe, as crianças não morrem’ terá dito certo dia para grande surpresa da interlocutora. Com uma certeza tão convicta que deveria poder ser verdade.

Mas as crianças morrem, Eduarda. Por dia morrem no Mundo cerca de 26 000 crianças com menos de 5 anos, devido a causas evitáveis. Em Portugal cinco mil jovens perdem a vida todos os anos. Os números não são palavras mas carregam sofrimentos atrozes de suportar. Nas últimas semanas o País comoveu-se com tamanha dor. Diogo, de 4 anos, o sobrinho de Simão Sabrosa, perdeu a vida no mar depois de uma animada tarde de brincadeira na praia da Quebrada, em Matosinhos, com o pai e uns amigos trigémeos. Ao correr atrás de uma bola que se escapou para as ondas, a criança foi derrubada pela força do mar e nem os incansáveis esforços de Serafim Sabrosa foram suficientes para resgatar o filho da água.

João Pedro, 9 meses, ficou esquecido pelo pai dentro do carro, estacionado em frente ao trabalho onde o progenitor desempenhava funções de programador informático e a quatro metros da creche que o bebé frequentava, durante três horas. Morreu de paragem cardiorrespiratória em consequência de insolação e desidratação. Luís Carlos, 15 anos, morreu afogado no rio Vouga, e Paulo, de 29 meses, caiu num poço. Tânia e André sobreviveram depois de ela ter sido acidentalmente atropelada pelo pai na garagem e de ele ter caído do 5.º andar de um prédio.

A dor que as famílias partilham não tem nome próprio, ao contrário dos filhos que partiram sem aviso. 'A marca que a morte deixa em quem está vivo nunca deixa de existir e ainda bem que assim é, porque essa memória é muito importante', refere o psicólogo clínico Carlos Céu e Silva. O especialista explica também que 'quando a perda é ainda recente, os pais muitas vezes imaginam que o filho está a fazer uma grande viagem, o que é saudável numa fase inicial do luto. Mais tarde, quando conseguem viver a sua dor, muitos optam por usar alguma coisa que os ligue aos filhos, como o relógio que eles usavam, ou guardam no telemóvel a última mensagem de voz. Aqui, já é sinal de que interiorizaram que os filhos não estão vivos, por isso precisam de suportes para se sentirem mais próximos'.

Foi na escrita que Joaquim, jornalista de 36 anos, encontrou forças para sobreviver à vida. 'É a escrever que me encontro com a Eduarda, é um momento muito cúmplice que tenho com a minha filha, somos só nós dois'. O blogue http://estrelinhasdoceu.blogspot.com e o livro ‘Estrelas que Voam para os Céus’ foram 'terapias' que encontrou para se encontrar com a menina e, ao mesmo tempo, 'ajudar outros pais' em luto.

'A minha filha era muito especial e sinto que foi essa a missão que me deixou: Eu poder contribuir para que as pessoas que tenham uma provação idêntica não se sintam sozinhas. Depois de uma perda assim todos os dias são uma aprendizagem, uma reconstrução. Não podemos escolher o sofrimento, bate-nos à porta. Sempre fui uma pessoa muito ligada a projectos e compromissos e achava que a vida estava sempre sob controlo, mas não estava.' É na voz e no encorajamento, ‘levanta-te pai’, que Joaquim encontra, 'a cada dia', força para continuar.

'Fiquei altamente abalado mas a dada altura pensei: Será isto que a Eduarda quer de mim? Podia ir para uma valeta mas continuar é a melhor homenagem que lhe posso fazer.' Assim tem continuado, de mãos dadas com a mulher, mãe da Eduarda. 'Vivemos um momento muito difícil no nosso casamento, porque a forma de sentirmos o sofrimento era diferente, mas com o tempo encontrámos o equilíbrio e uma grande força um no outro'.

O caminho percorrido é longo e faz-se de passos inseguros, às vezes tropeções a meio do percurso. No início da penosa jornada há um sentimento comum entre os pais em luto: A culpa. Que mais do que real e objectiva pode ser apenas sentida, infundada. 'A nossa sociedade tem este problema de confundir causas com culpas. Nestes casos é necessário os pais entenderem o sucedido e as circunstâncias em que tudo aconteceu, encontrando nelas alguma razão e reflectindo sobre aquilo com que ocupamos a nossa vida. É preciso encarar os factos, enquadrá-los e aceitá-los para seguir em frente, voltando a abraçar a vida', contextualiza Abílio Oliveira, doutorado em Psicologia Social. Para o especialista, 'só depois de as pessoas se perdoarem a elas mesmas e, eventualmente, a outros – como pode acontecer em caso de acidente – é que conseguem fazer o luto pelo filho que partiu e reencontrar a tranquilidade'. A pacificação é um dos últimos estádios da caminhada de dor. Surge depois de um momento de choque e confusão emocional, sentidos numa primeira fase, da negação, revolta e dor profunda e de uma possível desorganização emocional interna que pode conduzir a uma depressão antes de haver uma reconstrução interior.

O especialista nota que, 'num dado momento, a dor é transformada e dá lugar à saudade, ao amor e ao sentimento de imortalidade'. À mesma paz que Joaquim hoje sente e que se sente na sua voz. Sabe que deu à Eduarda tudo o que podia durante os quatro anos de vida da menina. 'A única coisa que lamento foi não ter sido um pai mais presente, mas andava a lutar pela nossa vida. Talvez fosse isso que eu modificaria, só isso. Mas quando esses pequenos momentos de culpa surgiram pensei naquilo que fui para ela: Dei-lhe amor, carinho, dei-lhe tudo, apoiei-a em tudo e ela sentia amor por mim como eu por ela. E nunca se perde um filho, ela faz parte de nós. Chamava-se Eduarda Santos e passámos a chamá-la Eduarda de Sempre'.

Naquele Julho, há 17 anos, Mónica despediu-se duas vezes da mãe, Maria Emília, antes de abalar feliz a caminho da concentração de motards de Faro na companhia do amigo Miguel. ‘Então mãe, não se despede de mim?’, perguntou. ‘Oh filha, já me despedi de ti, já te abracei’. Esta segunda vez no mesmo dia foi a última em que fisicamente as duas se abraçaram. Mónica e o amigo perderam a vida durante a viagem, num acidente de automóvel no Alentejo. 'Acho que ela sabia sem saber que ia morrer, que era a nossa última despedida. Não a queria deixar ir mas ela convenceu-me. Hoje acho que se foi assim é porque era esta a missão dela. Na agenda, nos últimos dias antes da partida, escrevia: ‘já só faltam 18 dias, 17 dias, 16...’, em contagem decrescente. No dia anterior escreveu: ‘é já amanhã'. Foi a 18 de Julho. Mónica morreu às 18h18 com 18 anos. 'Agora, nos dias 18 só me acontecem coisas boas', diz-nos Maria Emília, 62 anos, fundadora da associação A Nossa Âncora para apoio de pais e mães em luto, onde trabalhou durante 14 anos.

'Ajudei milhares de pais e ajudei-me a mim própria. No momento da morte da minha filha tomei consciência de que a minha vida tinha mudado e eu tinha que fazer alguma coisa.' De 'uma imensa tragédia' fez trampolim para a mudança. 'Aprendi a descobrir a vida, abri o meu coração para os valores realmente importantes. A morte dela ajudou-me. Claro que há 17 anos não dizia isto. Passa-se por muita dor, pelo pão que o diabo amassou, chora-se muito mas depois aprende-se a caminhar.' Com a dor como companhia.

'Nos primeiros tempos não há minuto nenhum que não pensemos neles, depois começa a ser de dez em dez minutos, de vinte em vinte, por aí fora. Mas nunca se ultrapassa, aprende-se a viver com isso.' Assim fez e continua a fazer. Muitas vezes na companhia de uma borboleta branca que aparece no jardim e deixa-se ficar junto dela. No abraço do marido, Jorge, com quem partilha um 'casamento sólido, reforçado pelo sofrimento'. Nas conversas com os dois filhos, de 33 e 25 anos. O mais velho raramente fala da irmã. 'Tinham dois anos de diferença e eram muito próximos. Só consegui falar com ele sobre o acidente um ano depois de ter acontecido.' O mais novo viveu de outra forma a despedida. 'Na primeira vez que a Mónica fez anos a seguir ao acidente, o Gonçalo tinha 8 anos e disse que queria falar sobre ela. Contou-me que ela tinha voltado em sonhos para terminar de lhe contar uma história que ficara a meio.' Também foi ele que, numa redacção sobre o Natal, escreveu: 'Na minha casa nunca mais houve Natal desde que a minha irmã morreu', depois de duas épocas festivas passadas longe de Sintra e da casa onde o telefone chorou a triste notícia. ‘A Mónica e o Miguel morreram’.

Foi dele que também ouviu algo que não mais vai esquecer: ‘Mãe, lembras-te quando a Mónica desarrumou o quarto todo e tu disseste: ‘qualquer dia sais tu ou saio eu?’ Saiu ela, mãe’. Maria Emília nem queria acreditar. 'Nunca mais disse nada a ninguém sem pensar dez vezes'. Emília usou a dor para se reinventar a cada dia e viver com a perda. 'Quando me disseram que ela tinha morrido ouvi a voz dela a dizer: ‘mãe, afinal não fui para o Algarve, segui o meu caminho e já não tens de tomar conta de mim, eu é que vou tomar conta de ti’'. Tem cumprido.

ÂNCORA PARA LEVANTAR

Maria Emília Pires, 62 anos, (ao lado) fundou a associação A Nossa Âncora, de apoio aos pais em luto, pouco depois da morte da filha Mónica, de 18 anos, num acidente de automóvel. A filha não tinha carta, o amigo ia a conduzir. Durante 14 anos Maria Emília Pires atendeu, ouviu, aconselhou e chorou com milhares de pais. Há dois anos passou o testemunho a Emília Agostinho. Neste momento, a associação recebe uma média de 15 chamadas por dia – quer de pais quer de familiares, amigos ou profissionais da saúde a quererem encaminhar casais que sofreram a perda de um filho. Existem 13 grupos de apoio espalhados pelo País – em cada sessão têm cerca de 15 pais, sendo que em Lisboa e Sintra o número pode chegar aos 25. São as mulheres quem mais procura ajuda, mas 'em Sintra são mais casais'. A Nossa Âncora disponibiliza também um fórum on-line para quem não pode frequentar os grupos. As causas mais frequentes da morte, diz Emília Agostinho, 'são os acidentes, seguidos de doença e do suicídio, que tem aumentado muito nos últimos tempos'.

LÁ FORA

A UNICEF avisa que se todas as crianças usassem cinto de segurança, houvesse embalagens de medicamentos difíceis de abrir e as piscinas tivessem protecções, evitar-se-iam metade das 2 mil mortes de crianças, que ocorrem todos os dias, por acidente. Mais de 800 mil crianças mor-rem por ano de queimaduras, acidentes de carro, quedas, envenenamento.

Dez milhões ficam incapacitadas. Nos EUA, em 2007, morreram 232 crianças que foram deixadas dentro do carro em dias quentes. É das mortes mais comuns na América. Por causa disso, na Califórnia, ‘a lei de Kaitlyn’ – baptizada com o nome de uma menina que perdeu a vida desta forma – proíbe que sejam deixadas crianças com menos de seis anos nos veículos. 'Os pais são cada vez mais egoístas, querem o telemóvel e o sucesso imediato e nem todos estão preparados para cuidar de uma criança', refere Carlos Céu e Silva.

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