Comprou um autocarro prateado, para os seus ‘Companheiros da Alegria’. Nunca o estreou. Bastou uma frase para que Salazar calasse o locutor. Igrejas Caeiro, com o coração partido, vendeu o autocarro ao Benfica.
Igrejas Caeiro respondeu com toda a franqueza à pergunta do jornalista Raul Duarte (pai): "Qual o estadista que mais admira?". O locutor de ‘Os Companheiros da Alegria' não, não achava que fosse António Oliveira Salazar e disse-o ao ‘Norte Desportivo': "Embora preocupado com a sorte dos pedaços da nossa terra espalhados pela Índia, considero Nehru o maior estadista da nossa geração".
Ainda hoje sabe quase de cor o que disse em 1954. Mesmo que a Alzheimer lhe coma da memória os nomes das pessoas, e a morte recente da mulher, a actriz Irene Velez, também ajude a doença do esquecimento. "São sobretudo os nomes que desaparecem, até de pessoas íntimas minhas, de abraço, daquelas do ‘olá, como estás'. Acontece-me isso hoje em dia", diz sentado na sua casa em Caxias.
Ele conta que, apesar da ousadia que então muito apoquentou a sua mulher, a entrevista ao ‘Norte Desportivo' acabou por passar ao censor - talvez este não supusesse que tal coisa se pudesse dizer num título sobre desporto. Mas foi ouvida com agrado na União Indiana - um actor português muito popular enaltecia Nehru, quando os ventos da revolta já beliscavam os primeiros territórios portugueses. A Emissora Nacional, onde trabalhava Igrejas Caeiro, ouviu a repetição da resposta, e alertou a PIDE.
Em 1954, ‘Os Companheiros da Alegria' percorreriam o País, em itinerância, Açores e Madeira inclusive. Plateias aplaudiam os artistas, quando eles chegavam era dia feriado. No auge da popularidade, Igrejas Caeiro tinha mandado fazer ao Porto um autocarro como nunca se tinha visto - queria ir às colónias africanas, "atravessar o mapa cor-de-rosa".
"Eu era tão ambicioso! Este autocarro podia levar água e até tinha cozinha e casa de banho. Imaginem o que seria aparecer em África uma coisa destas cheia de gente de teatro!"
Mas o autocarro prateado nunca sairia de Lisboa. Depois da resposta a Raul Duarte, Igrejas Caeiro é proibido de trabalhar por decreto. Vende o veículo por metade do preço, com o coração em estilhaços.
A CAMINHO DO PALCO DO DONA MARIA
Francisco Igrejas Caeiro foi nascer a Castanheira do Ribatejo ajudado pela avó parteira que lá morava. E regressou a Lisboa. Filho único, cresceu sob a influência do pai, republicano dos sete costados, do Partido Radical, soldado de cavalaria da GNR que depois de queda do cavalo muda de vida - torna-se encarregado de refeitórios públicos, os chamados ‘sopa do Sidónio'. A mãe é costureira.
No prédio da Rua Ivens, hoje ocupado pela Rádio Renascença, a família abre uma pensão. Na vizinhaça destaca--se certo italiano, cantor lírico, que lhe gaba a voz. Tem 10 para 11 anos, frequenta o Liceu Passos Manuel.
"Nessa altura aconteceu-me uma coisa muito importante. Dois professores deixaram de aparecer, disseram-nos que tinham sido levados pela polícia política. ‘Presos porquê?', perguntámos. ‘Coisas da política.' Aquilo fez-me muita impressão."
Numas férias de Verão emprega-se numa firma de aparelhos eléctricos. O dinheiro - cem escudos por mês - é uma novidade não desprezada em família de recursos modestos. "Aquele dinheirinho foi tão agradável aos meus pais que já não voltei ao liceu." Passa a estudar à noite na Escola Comercial Rodrigues Sampaio.
De dia calcorreia as ruas de Lisboa a fazer mandados ao patrão, à noite estuda. E arranja ainda tempo para ouvir ameaças por andar a colar cartazes da oposição junto ao Governo Civil.
"O meu pai e eu ouvíamos as emissões da rádio internacional numa galena feita por mim, particularmente durante o período da guerra espanhola. Lembro-me dele dizer: ‘Vais ver, vais ver, qualquer dia isto vem a baixo.'"
As vozes de um mundo tão diferente de Portugal empolgam o miúdo. E, aos 12 anos, Francisco Igrejas Caeiro apresenta-se ao serviço na Emissora Nacional. Queria ser locutor. A graça pegou, mas ainda teria de esperar muitos anos até se sentar frente àqueles microfones. "Mandaram-me embora. Foi uma tristeza."
Sempre a correr Lisboa, o empregadinho - "comecei a subir de responsabilidade e já ia aos bancos" - muda para o curso comercial e entra, incentivado pela mãe, no Conservatório. Estuda com o mestre Araújo Pereira.
Em idade da tropa, assenta praça na Escola Prática de Administração Militar e é seleccionado para o Curso de Sargentos em Tavira.
Estava Igrejas Caeiro fardado em terras do Algarve, quando no ‘Diário de Lisboa' se publica o anúncio ‘À procura dum actor e de uma actriz'. Era um concurso promovido pelo jornal, pela Emissora Nacional e pelo Teatro Dona Maria II. "Candidatei-me, mandei o meu retrato. Éramos uma centena de concorrentes, num concurso muito duro." Caeiro recebeu a senha 47 e foi buscar Araújo Pereira. O mestre, o pupilo e a parceira, Armanda Ofélia, calcorreiam a Baixa ensaiando a peça, como se da vida se tratasse. Ganharam.
O contrato de um ano com o Teatro Dona Maria começa com a peça de Ramada Curto, ‘O Caso do Dia', ao lado de Amélia Rey Colaço e João Villaret. Em 1939 Igrejas Caeiro larga a firma de aparelhos eléctricos. É actor.
DO PRIMEIRO MICROFONE À NOTA DE SALAZAR
Actor contratado, Igrejas Caeiro não desiste. Quer arranjar outra profissão, quer ser locutor. Os motivos são prosaicos. "Andava preocupado. A vida de um actor não era certa, e cheia de dificuldades. De maneira que levava as coisas no teatro como uma paródia. O teatro era coisa passageira."
Para arranjar trabalho mais certo, bate à porta do capitão Henrique Galvão, o homem-forte da Emissora Nacional, que fôra juri do concurso ‘À procura de um actor e de uma actriz'. Quer fazer teatro radiofónico. A resposta chega-lhe desanimadora. Galvão diz-lhe: "Oh Igrejas Caeiro, você ganhou, mas o teatro radiofónico tem outra expressão". E obriga-o a fazer testes.
"Lembro-me que estive uns 15 minutos a falar de cor sobre uma festa badalada. No final, ele perguntou-me se eu não queria ser locutor. Fui logo à empresa onde ainda trabalhava e disse ao patrão que já tinha uma coisa certa na vida e que essa coisa era a rádio, que me demitia."
Acaba o contrato com o Dona Maria II, e segue parte dos actores da companhia para o Teatro da Trindade. O director era António Lopes Ribeiro. "Nessa altura, ele era um homem muito ligado ao regime e eu já andava nas coisas do contra. Mas ele lá gostava de mim e metia cunha, quando a peça ia para o Porto, para me dispensar do trabalho na Emissora em Lisboa, arranjou maneira de eu ficar responsável pela selecção de locutores."
Apesar do aliado, o director da EN começou a ter dúvidas sobre a propriedade de ser o tal "homem do contra" a fazer a selecção dos novos radialistas. E não fosse o regime considerar a influência perniciosa, colocou o dilema ao presidente do conselho. "Salazar mandou uma notazinha a dizer - ‘Esse senhor vai ao Porto pela última vez, pois de futuro terá de escolher o que quer, o teatro ou a rádio.'"
Mas Igrejas Caeiro continua, e até faz cinema. Em 1946 estreia-se em ‘Camões' de Leitão de Barros, com António Vilar e Eunice Muñoz.
'UMA NOTA DE 500 ESCUDOS NÃO SE PODE DEITAR FORA'
No Teatro da Trindade conhece aquela que seria a sua sogra, Elvira Velez, a actriz que emparelhou com Vasco Santana em ‘Zequinha e Léle'. A filha, Irene, costuma ir vê-la ao teatro e é ali que topa com Igrejas Caeiro. Após três meses de conversa, casam. Ele ainda estava na tropa.
Em 1948 é despedido da Emissora Nacional por assinar, com mais 12 trabalhadores da estação, um documento no âmbito do Movimento de Unidade Democrática. "Queriam eleições livres. Numa das folhas do abaixo-assinado o meu nome até aparecia à cabeça. Fui chamado à polícia, perguntaram-me quem é que me tinha chamado para assinar uma coisa daquelas. Eu disse-lhe que não sabia, que aquilo estava em toda a parte."
Irene Velez apoquenta-se, Igrejas Caeiro está desempregado. O casal recebe a notícia na Costa da Caparica onde passava férias. Mas apesar disso: "Dormi tão bem nessa noite!".
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