Fui o homem do meu esquadrão com mais tempo na frente de combate. Fui como voluntário, depois de assistir a uma grande injustiça com um guineense com quem trabalhava na padaria do quartel
Foi uma tarde louca, aquela de Outubro de 1972, em Pirada, no Leste da Guiné, na fronteira com o Senegal. Eu integrava um pelotão de reconhecimento composto por duas viaturas blindadas, uma ‘White’ e uma ‘Chaimite’, que fazia escolta ao comandante do Batalhão de Caçadores (BCAÇ) 3884, a Uacaba, Mafanco, Sonaco, Paúnca e Pirada. A certa altura, no intervalo de uma reunião de oficiais, o nosso comandante, o capitão de Cavalaria Manuel Eduardo Alves Botelho, diz: 'Venham comigo, vamos dar uma volta!' Fomos, éramos uma dezena de homens.
Passámos a fronteira e penetrámos quatro ou cinco quilómetros no Senegal. Nenhum de nós adivinhava a intenção do capitão, que continuava entusiasmado a conduzir-nos por território estrangeiro adentro. A certa altura, avistámos um acampamento militar de senegaleses. A ‘White’ foi obrigada a interromper a marcha, por causa das valas feitas pelos militares estrangeiros, mas a ‘Chaimite’, que tudo passa, entrou no acampamento.
Os senegaleses ficaram surpreendidos, mas não esboçaram qualquer atitude hostil. Pelo contrário, entraram num convívio estreito com os nossos camaradas de Pirada, onde frequentemente iam buscar cerveja. Estavam a saudar-nos com acenos, aos quais nós correspondíamos, quando, subitamente, o capitão, que empunhava uma pistola, desatou aos tiros em direcção aos pretos senegaleses.
As tropas senegalesas, apanhadas completamente de surpresa, correram em todas as direcções, tentando abrigar-se do fogo do nosso comandante. Um tenente do exército senegalês, que se aproximara um pouco mais, caiu morto e um soldado ficou ferido. Antes que pudessem recuperar e ripostar, o capitão Alves Botelho ordenou a nossa retirada.
No caminho de regresso à Guiné, quando passávamos por dois camponeses senegaleses, que seguiam de bicicleta e que também nos saudaram, o nosso capitão, que estava definitivamente de cabeça perdida, disparou a sua pistola contra eles. Um morreu e o outro ficou ferido. 'Eram terroristas?', alguém perguntou ao capitão Alves Botelho. O oficial apenas ordenou que continuássemos até Pirada.
Estes actos foram uma loucura que ninguém compreendeu. Em Pirada, os oficiais e comandantes ficaram ‘loucos’ quando souberam, pois os senegaleses eram nossos amigos e confiavam em nós. O comandante da unidade ordenou o regresso imediato do pelotão de reconhecimento envolvido no tiroteio a Bafatá. O capitão foi enviado sob detenção para Bissau, por helicóptero, na manhã seguinte. Três dias depois, o capitão Alves Botelho reuniu o Esquadrão e fez um discurso de despedida. Foi enviado para a Metrópole, para os serviços de Psiquiatria de um hospital militar e, mais tarde, abatido ao efectivo. Nunca mais soube dele, sei apenas que faleceu há quatro anos.
Este episódio foi dos piores e mais gratuitos que vivi durante a guerra, mas houve outros igualmente trágicos. A nossa tarefa consistia em fazer a segurança às colunas de abastecimento aos nossos aquartelamentos. Eu conduzia a ‘Chaimite’ ou, eventualmente, a ‘White’. Em alternativa, era atirador numa das viaturas. E foram inúmeras as ocasiões em que estivemos debaixo de fogo. Era impressionante como os ‘turras’ tinham conhecimento das nossas saídas. Muitas vezes, só sabíamos à meia-noite do dia anterior, mas eles sabiam antes e emboscavam-nos. As nossas colunas reagiam, o pessoal dos ‘Unimog’ e das ‘Berliet’ atirava-se para as bermas e eu andava às voltas na ‘Chaimite’ a fazer fogo indiscriminadamente.
Uma vez, em Outubro de 1971, o meu pelotão fazia uma escolta a uma coluna de reabastecimento entre Bambadinca e Piche e sofreu uma emboscada a três quilómetros de Nova Lamego (Oco Maúnde). Sofremos três baixas, embora de elementos que não pertenciam ao pelotão (eram milícias locais). Os apontadores das metralhadoras da ‘White’, os 1.º cabos Alberto Alexandre e Fernando Palmeira da Silva, não hesitaram em nos proteger e safaram--nos. No mês seguinte, também numa emboscada, no itinerário Piche-Bentem, sofremos mais três baixas (dois homens das milícias e um do nosso pelotão) e o inimigo quatro. Debaixo de fogo, o maqueiro Armindo Cruz Teixeira foi um herói, ao socorrer os feridos.
Há muitos outros episódios. Recordo uma das últimas acções, em que fomos emboscados, em Março de 1973, quando fazíamos segurança aos trabalhos na estrada em Sinchã Dandi. Um estilhaço perfurou a ‘Chaimite’ e todos ficaram gravemente feridos, incluindo o comandante do pelotão, o alferes Carlos Alberto Aragão Santos, depois evacuado para Lisboa.
Fomos no navio Uíge e regressámos no Niassa, em Outubro de 1973, após 25 meses de comissão. Desde então, deixámos de cantar em conjunto o hino do nosso pelotão, cuja letra era da minha autoria e nunca mais esqueci. A primeira quadra rezava assim: 'Cá vai a malta do 3.º Pelotão/ Com a ração de combate e uma G3 na mão/ Vai satisfeita porque luta p’lo melhor/ Para alcançar a vitória e um Portugal maior.' Enfim, era como víamos a guerra naquele tempo.
'QUANDO O ATAQUE TERMINOU É QUE VI QUE ESTAVA TODO NU'
O antigo soldado Sérgio Marques dos Santos é casado e pai de dois filhos, de 34 e 29 anos. É motorista de táxi no Porto. A sua fibra enquanto militar está bem patente no episódio do guineense com quem fez pão. “Ele economizava o dinheiro para depois ir visitar a família. Num dia em que foi para receber, o padeiro disse-lhe que não o tinha. O rapaz, já homem, trabalhava imenso e tamanha injustiça caiu-me mal. Era um roubo. Alertei quem de direito para o sucedido e perdi o encanto pela padaria. Pedi para ir como voluntário com _o próximo pelotão que ia para Piche, para a frente de combate. Cada pelotão cumpria ali três meses e eu fiz três dessas rotações. Acabei por ser o homem com mais tempo de acção do esquadrão.” Entre os dramas, também viveu episódios caricatos: “Uma noite, o aquatelamento foi atacado durante dez minutos com morteiros. Saímos para a rua e abrigámo-nos em valas. Só quando o ataque terminou e regressámos às casernas _é que vi que estava completamente nu.”
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