O filme ‘A Jóia Perdida do Atlântico’ conta a história da guerra dos surfistas contra a política de betão do Governo da Madeira.
Chamavam-lhe o ‘Hawai da Europa’. No Jardim do Mar, o sol vai dormir mais tarde embalado pelo som da água que desce pela levada em coro com o grito das cagarras. O carro fica à porta da mais pequena e mais internacional freguesia da Madeira. Respira-se natureza ao longo das veredas da fajã. As investidas do mar sobre o calhau fazem o som ambiente. Ondas grandes e perfeitas proporcionadas pelo fundo rochoso de pedras vulcânicas fizeram da localidade o paraíso dos surfistas. Escondido pela escarpa, o segredo foi guardado durante vinte anos, protegido pelo egoísmo natural dos amantes do surf, pouco dispostos a partilhar as suas ondas com um tráfego intenso de pranchas.
JARDIM DO MAR DESCOBERTO POR UM FRANCÊS
A descoberta coube a um francês nos anos 70. Duas décadas depois começaram a chegar os norte-americanos. Ciosos das suas ondas e receando o ‘crowd’, as imagens do paraíso foram voando pelo mundo amputadas do seu verdadeiro nome. As pistas vagas passavam por Atlântico, no máximo Madeira. Mas, da América à Nova Zelândia, o segredo quebrou-se.
A freguesia rural, e outrora piscatória, adaptou-se aos novos tempos. Casas de família tornaram-se albergues dos homens das ondas. O ambiente hospitaleiro, propagado aos quatro ventos, complementou o trampolim proporcionado pelo surf para um intercâmbio cultural que havia de ser fundamental nos projectos de vida de jovens ‘jardineiros’. A freguesia atingiu a crista da onda em 2000. O consenso em relação às melhores vagas do Atlântico levou ao Sudoeste da ilha o Campeonato Mundial de Surf das ondas grandes, transportando na bagagem os melhores surfistas à escala mundial. Foi a revelação do segredo em directo, e sem exclusivos, para o mundo inteiro. Tempos áureos que perpetuaram o Inverno como a época alta da ilha. A invasão de surfistas inverteu definitivamente a fama de turismo de meia-idade da Madeira. A boa comida e o vinho barato e de qualidade foram o aperitivo de longas noites de festa, onde os cantares populares ao som da guitarra abriram o dicionário de português a ingleses, americanos, australianos, noruegueses, franceses, e tantos outros forasteiros vindos dos quatro cantos do mundo. Era a descoberta de um novo Hawai, sem o aperto da cidade de Oahu, a apenas duas horas da Europa continental. Uma rivalidade disputada na mesma época, entre Novembro e Março, quando o hemisfério Norte é atingido pelo Inverno. Tempos áureos que haviam de durar pouco.
COM A FAMA VEIO O TURISMO
Com a fama veio o turismo e com este o desenvolvimento. Tradução: construção. O anúncio do plano de protecção da costa do Governo Regional da Madeira, em 2001, provocou mais duas grandes ondas. Enquanto a maioria da população rejubilou com a anunciada construção de um paredão, apresentado como a salvação da arriba perante a ameaça da erosão, os surfistas adivinharam o fim de grandes ondas. Da determinação de Will Henry, fotógrafo e surfista, nasceu a organização ‘Save the Waves’. Avessos a aventuras políticas, a associação ambiental viu-se, de repente, transformada na maior oposição à ‘política de betão’ do Governo de Alberto João Jardim, acusando-o de ser movido pela “ganância” e “corrupção”.
O diferendo ultrapassou as fronteiras insulares. Mas em vão. Pouco a pouco, 800 metros de calhau foram dando lugar a enormes blocos de cimento. No lugar da velhinha rampa da praia do portinho, nasceu um cais, e a varanda de ferro comida pela maresia foi substituída por um longo muro. O cimento entrou quarenta metros adentro do mar sem pedir licença. Já não havia nada a fazer. Segundo os especialistas, as melhores ondas do Atlântico estavam irremediavelmente danificadas. Se no velhinho calhau, onde muitas pranchas terminaram os seus dias despedaçadas, o surf já não era para qualquer um, hoje em dia, os surfistas que se aventuram nas vagas do Sudoeste da ilha, são considerados verdadeiros kamikazes.
“Dá para surfar, mas é perigosíssimo. Passámos de cinco a seis horas por dia de surf para duas, porque agora só podemos surfar com a maré completamente vazia”, disse à Domingo Orlando Pereira, pentacampeão regional de surf. “Há uma quebra enorme do número de surfistas que visitam o Jardim, e isso é mau porque há pessoas que vivem apenas do turismo do surf”, acrescentou, explicando que com a guerra entre o Governo e os surfistas, a modalidade deixou de ter apoios. “E foi o cartaz turístico mais barato que o Governo alguma vez teve”, rematou.
DE JARDIM DO MAR A JARDIM DE BETÃO: O FILME DA POLÉMICA
‘Lost Jewel of the Atlantic’ é a história do Jardim do Mar, a pequena freguesia de ondas grandes. São imagens de uma beleza impressionante com um arranjo musical irrepreensível. O documentário estreou em Santa Cruz, nos Estados Unidos, em Maio, passou pela Ericeira a 1 de Setembro e já tem data para aterrar na Califórnia, em Outubro. Esta semana chegou à Madeira, em ambiente de crispação e polémica, sob a ameaça de processos-crime do Governo Regional contra a ‘Save the Waves’.
Antes da estreia do documentário, os políticos responderam com um pequeno filme que mostra imagens de surf captadas supostamente já após a construção do paredão marítimo. Chamam-lhe “A verdade das imagens”. Mas os surfistas ambientalistas não cruzam os braços. Mais do que a esperança depositada em soluções que não se cansam de procurar, – como a redução parcial do paredão ou a construção de um fundo artificial na zona da rebentação – querem difundir aquilo que não deve ser repetido. Recusam que ‘A Jóia Perdida do Atlântico’ prejudique o turismo regional. Antes o encaram como um alerta contra a destruição de oásis do surf pelo mundo fora. No Jardim do Mar, o assunto é quase tabu. Mas, em surdina, quase todos reconhecem que “o jardim já não é o que era”.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.