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Adeus, pornografia. Olá, cinema de autor

O Ideal mudou de gestão, fez obras e reabre-se à cidade de Lisboa com a vontade de se afirmar como espaço de referência.

05 de setembro de 2014 às 15:57

É o cinema mais antigo de Lisboa e reabriu esta semana, depois de décadas a exibir pornografia. Numa altura em que as salas de cinema começam a rarear – e as que existem estão cada vez mais confinadas aos centros comerciais –, o Cinema Ideal (que já foi Salão Ideal, Cine Camões e Cine Paraíso), sito na rua do Loreto, ao Camões, quer afirmar-se, sob a gestão da Midas Filmes, como espaço privilegiado do cinema de autor e da produção cinematográfica nacional. E assim atrair todos os que amam, mesmo, a Sétima Arte.

"Queremos fazer a melhor sala de cinema do Mundo, com os melhores filmes, para os melhores espectadores", diz Pedro Borges, diretor da Midas, empresa fundada em 2006 e que agora investiu 500 mil euros (e teve de contrair um empréstimo bancário) para realizar as obras necessárias para uma reinauguração condigna.

Na primeira fila, a aplaudir a iniciativa, está José António de Sousa Salvador. Salvador para amigos e conhecidos. O antigo projecionista do Ideal, que aí trabalhou 12 anos – depois de ter passado pelo Cinema do Sport Lisboa e Benfica, Odeon, Capitólio e São Jorge –, diz que "seria uma grande pena perder--se uma sala com tanta história". "Os cinemas estão em queda, vemos pelas estatísticas que o número de espectadores tem diminuído nos últimos anos, mas continuamos à espera de que o milagre aconteça, porque esta sala tem uma tradição muito bonita", afirma.

Dos anos em que esteve a passar filmes pornográficos para uma "clientela diversificada, não só para as classes mais pobres, ao contrário do que se diz, mas também para médicos, juízes e outros que tais", Salvador retém as várias tentativas – "infelizmente, falhadas" – para "elevar o nível" do Ideal.

"Durante o tempo em que lá estive apresentámos filmes alternativos e cinema fantástico à noite, para tentar atrair o público mais jovem, mas, exceção feita às obras do Nanni Moretti e ao Fantasporto, perdia-se sempre dinheiro. O aluguer dos filmes custava 45% da bilheteira, às vezes 50%. Fazendo as contas, não dava para nada." A pornografia, pelo contrário, era muito rentável. Até ao dia.

"Para aí há sete anos, começou o declínio progressivo", recorda o antigo projecionista. "Primeiro foram os DVD, depois a internet, que disponibilizou conteúdos pornográficos à discrição... E acabou-se o negócio."

Com uma exceção digna de nota. Quando o ator brasileiro Alexandre Frota se tornou um fenómeno de popularidade em Portugal – graças aos programas de televisão ‘Quinta das Celebridades’ e ‘Primeira Companhia’ que a TVI exibiu em 2004 e 2005 – fazia-se filas à porta do Ideal para ver o ator na sua faceta de estrela do porno.

"Foi uma autêntica loucura", lembra Salvador. "Nessa altura vinham senhoras, vinham casais. Gente e mais gente, o cinema cheio durante três semanas e ainda para mais a vendermos DVD sem parar. Ninguém esperava uma coisa daquelas."

Até ao ano passado, o Cine Paraíso ainda continuava a funcionar, moribundo, como cinema pornográfico. Em dezembro, a Midas Filmes fez saber que tinha chegado a acordo com a Casa da Imprensa para passar a gerir o espaço e deu a conhecer o seu projeto de intervenção.

110 anos de história

Foi há precisamente 110 anos, em setembro de 1904, que abriu, num antigo armazém de vinhos, o Salão Ideal, espaço dedicado

à projeção cinematográfica. Atento às novidades, o fundador, o fotógrafo Júlio Costa, conhecia a história dos Lumière e, sobretudo, a patente do cinematógrafo que os irmãos franceses tinham registado em 1895. Não tardou a querer introduzir a grande invenção em Portugal.

Quatro anos depois, o negócio é trespassado para João Freire Correia, que cria o animatógrafo falado. Que funcionava da seguinte forma: enquanto se exibiam, no grande ecrã, curtas-metragens e documentários mudos, nos bastidores, atores improvisados (normalmente recrutados entre os bombeiros voluntários) liam textos e faziam efeitos sonoros para acompanhar as imagens.

E foi assim, desta forma singela, que o público lisboeta conheceu – e reconheceu – o talento de António Silva, conforme nos conta a investigadora Maria do Carmo Piçarra no livro ‘O Cinema Ideal e a Casa da Imprensa’ (recentemente publicado pela editora Guerra & Paz).

"António Silva, que veio a ser um dos mais famosos comediantes portugueses, foi comandante da corporação [dos Bombeiros Voluntários da Ajuda] e ter-se-á iniciado deste modo (...) no cinema."

Como curiosidade, refira-se que o ator ganhava, por sessão, seis tostões, quando uma cadeira no cinema custava um tostão.

Em 1925, a Casa da Imprensa torna-se proprietária do prédio. A empresa que explorava o cinema era então a Costa & Carvalho, mas mesmo com a explosão do sonoro e apesar das evoluções tecnológicas registadas em torno da atividade cinematográfica, o Salão Ideal não conseguiu evitar a decadência progressiva. Na década de 40 ganhou o epíteto de ‘o piolho do Loreto’, dada a notória falta de condições de higiene das suas instalações (as casas de banho para as mulheres só foram construídas em 1945) e até ao 25 de Abril foi funcionando como cinema de reprise (clássicos), exibindo sobretudo westerns, filmes de guerra e comédias. Só depois da Revolução passou aos filmes indianos e, finalmente, à pornografia.

Pelo caminho, foi sofrendo pequenas intervenções (normalmente exigidas pela Direção-Geral das Atividades Culturais), mas ficou sempre a faltar uma remodelação total, que o tornasse numa verdadeira sala de cinema. E disso se encarregou, agora, a Midas Filmes.

À espera de público

Com uma lotação de 200 lugares, uma cafetaria e uma livraria dedicada a livros de arte, o ‘novo’ Cinema Ideal estará aberto 14 horas por dia, terá "pelo menos" dois filmes em cartaz e bilhetes a variar entre os cinco e os sete euros, "com muitas combinações diferentes". "Contamos que o projeto mereça o melhor carinho da cidade e das pessoas que, gostando de cinema, não têm cinemas onde ir ver bons filmes", afirma Pedro Borges, também ex-responsável pela Atalanta Filmes, otimista apesar da indiferença da Secretaria de Estado da Cultura (SEC) e do atual responsável pela pasta, Jorge Barreto Xavier.

"Nunca, ao longo de todos estes meses, tivemos o mais ínfimo sinal por parte da SEC, que não tem, como todos sabem, qualquer política para o cinema. O que o secretário de Estado faz é fechar cinemas, como fechou o Londres."

A reabertura do espaço, que se fez com o documentário ‘E Agora? Lembra-me’, de Joaquim Pinto (Grande Prémio do DocLisboa e Prémio Especial do Júri e do Júri Jovem do Festival de Locarno, na Suíça), e ‘A Desaparecida’, de John Ford, foi muito diferente daquela a que Salvador assistiu, no final dos anos 90. "Na altura, quando se soube que ia haver aqui um cinema pornográfico, até se fizeram abaixo-assinados para tentar impedir o projeto, por causa da proximidade de uma escola", recorda. "É bom para o Bairro Alto ter um bom cinema a funcionar. Os velhotes já não frequentem as salas, mas circula aqui muita malta nova..."

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