O amor empurrou-os para o lado mais negro da matança de S. Xisto e, numa tarde, perderam tudo. Os pais, o passado e até a vontade de um dia regressarem de vez a casa. Os tiros de Jusmino não levaram só quatro vidas. A milhares de quilómetros das encostas esquecidas do Douro, as feridas de um acto tresloucado vão ficar abertas muitos anos. Filipe, o filho do homicida, e Fernanda, a filha das vítimas, são marido e mulher.
Conheceram-se miúdos, companheiros de jogos nas ruas da aldeia. Uma e outra vez, a vida empurrou-os para longe. Ele para um lado, ela para lá da fronteira. Hoje, marido e mulher, Filipe e Fernanda, 35 e 36 anos, seguram-se um ao outro no cemitério de Vale de Figueira, a poucos metros da igreja onde casaram. No caixão da frente vai Jusmino, o pai dele, autor dos disparos que trouxeram a desgraça a S. Xisto. No de trás, vai Maria Alice, a mãe dele. No dia seguinte, pelos mesmos portões negros, passam Ernesto e Etelvina, os pais dela. Os compadres vão ficar juntos. Os filhos prometem o mesmo.Mas longe de tudo.
“Eu e a minha mulher damo-nos muito bem e tudo vamos fazer para que, juntos e unidos, consigamos ultrapassar esta machadada que a vida nos deu”, assegura Filipe à Domingo Magazine. Foi a última e a mais violenta. Há trinta anos, eram duas crianças a brincar numa terra pequena suspensa no Douro. Como muitos rapazes das redondezas, Filipe Vila Real seguiu novo para o Seminário Menor de Resende. Fernanda foi para mais longe, à boleia do pai que emigrara para França ‘a salto’ nos anos que levaram grande parte da população da zona.
Ainda adolescentes separados, os dois voltaram a encontrar-se quando Filipe saiu do seminário. Ele tinha 14 anos e Fernanda era um ano mais velha. Vinha de férias a Portugal. Depois, voltava a França, até ao ano seguinte. Começaram a namorar nessa época, que agora parece mais distante do que nunca. Tudo era diferente. As famílias davam-se bem, eram como irmãos. De tal modo que, quando o namoro se tornou sério e o casamento já se adivinhava, nenhuma voz se levantou. Todos ficaram satisfeitos e as famílias amigas tornaram-se uma só na Igreja de Vale de Figueira. Filipe disse que sim, Fernanda respondeu o mesmo. Foi há quinze anos.
UMA VIDA MELHOR
A seguir partiram. Em França estava Ernesto, a mulher e a hipótese de uma vida melhor. Filipe, que sempre se deu bem com o sogro e com os oito cunhados e cunhadas, achou que era hora de deixar Portugal. E então S. Xisto transformou-se numa memória. Ernesto, que trabalhou numa fábrica de cartão, voltou a casa mais cedo do que a filha. Em S. Xisto, gozava a reforma que lhe chegava em euros franceses. Ocasionalmente recebia a visita dos filhos e dos netos e até dos dois bisnetos. Filipe e Fernanda, esses vinham uma vez por ano, quando o calor começava a aquecer as encostas carregadas de uva e de azeitona, para matar saudades dos dias de juventude. Com uma diferença. Agora, vinham juntos e voltavam juntos.
“É óbvio que uma coisa destas mexe muito connosco.” Ainda mais quando não se espera que aconteça. Estiveram o Verão passado de férias na aldeia e, garante Filipe, estava tudo bem naquela rua pequena de casas pequeninas. Nunca Jusmino dera qualquer ideia de que poderia fazer o que fez, apesar de, por vezes, como diz o filho, “poder ser um bocado invejoso”.
Nos próximos dias, Filipe e Fernanda vão deixar para trás a morte e ensaiar um regresso à vida. Vivem ainda entre um passado recente trágico e um futuro próximo carregado de incerteza. Em França têm à espera os três filhos: uma rapariga, de 14 anos, e dois rapazes mais novos. “Vai ser complicado explicar aos miúdos o que sucedeu, já que de uma só vez perderam os quatro avós”.
Há-de passar o Inverno e a Primavera, e quando o Verão chegar até pode ser que admitam vir a Portugal de férias. Mas será difícil encontrá-los em S. Xisto, a caminhar naquela rua onde brincaram, a olhar o mesmo rio que viam nas tardes de namoro. Impossível será esperar que regressem de vez, como fizeram Ernesto e Etelvina, pais de Fernanda, sogros de Filipe, depois de uma vida emigrados. “Vai levar muitos anos a esquecer uma tragédia destas”, reconhece Filipe. O caixão que vai à frente é o do seu pai, o que segue atrás é o da sua mãe. Fernanda segura-o, enquanto se segura. A sepultura dos seus pais não é longe, também fica ali, no cemitério de Vale de Figueira. A Igreja onde casaram é a vinte passos.
O sangue seco agarra-se às pedras, custa a sair. Fica castanho com o Sol de Janeiro, ganha a cor das encostas que cercam S. Xisto, a aldeia mais triste do Douro. Há uma semana, um homem de 60 anos armou-se com uma caçadeira e uma pistola e marcou para sempre a rua onde estão todas as casas. Assassinou a própria mulher e os pais da sua nora. Depois, suicidou-se sem dizer o que lhe ia na alma. À sua volta, o mundo tremeu e talvez não haja chuva nem tempo que apaguem estes crimes da memória da vizinhança.
Um deles tinha de morrer. E foi Adelaide que escolheu que galo matar. Pegou na faca, apontou ao pescoço e desferiu o golpe. A ave não resistiu um segundo. “Vai ser frango estufado”, sentencia, com a água quente a correr-lhe pelas mãos cobertas de penas. Atília agasalha-se e leva o xaile ao pescoço. Está frio, apesar de o Sol brilhar. “Andavam sempre os dois à bulha, atrás das galinhas. Não podia ser.” Ali perto do galinheiro, que já foi casa de gente, Valdemar fica à parte, mãos nos bolsos, metido consigo mesmo. São as mulheres a dizer que não gosta de ver matar os bichos. Cada um para si, olham os três à volta para o que resta da sua aldeia. À frente estão os telhados de S. Xisto, mais a baixo o rio corre preguiçoso e cinzento. Em fundo, essas encostas chamadas Douro e as vinhas despidas. Como se nada tivesse mudado.
Mas tudo está diferente. Na sexta-feira, dia 21 de janeiro, às cinco da tarde, quando ouviu o último tiro, Atília encolheu os braços e fechou os olhos. Daquela vez era diferente e talvez demasiado para uma viúva a sete dias de fazer 69 anos. Foi para casa e virou as costas à Rua de Santo Ouvídio, onde Jusmino Vila Real, de 60 anos, escreveu a sangue a página mais trágica da história de S. Xisto – que agora pode ficar deserta. Com uma caçadeira e uma pistola, matou os vizinhos Ernesto e Etelvina, ambos septuagenários, pais da sua nora e depois a mulher, Maria Alice Ribeiro. “Já matei três, agora falto eu.” A seguir, Jusmino apoiou a caçadeira numa lata e suicidou-se. A aldeia perdeu quatro dos sete habitantes.
Como Jusmino não chegou a explicar o que fez, os verdadeiros motivos da matança ninguém conhece. Há quem diga que foi por ciúme, desconfiança de que a sua mulher teria um caso com Ernesto. Uns dizem que os ciúmes se estendiam ao filho, que se dava bem com o genro, Ernesto. Outros garantem que são questões mais antigas, tão antigas que se perdem no tempo e naquela rua de S. Xisto onde estão todas as casas. “Aquilo foi uma loucura de momento por uma coisa sem sentido...”, conta Jorge Pinto, sentado num restaurante onde um empregado de ‘smoking’ serve cervejas ao som do ‘1,2,3’ na televisão.
Juntos na aldeia Atília, então, ouviu o tiro e foi para casa. Valdemar foi com ela e puseram-se os dois a espreitar da varanda, até que um empregado das obras os chamou para baixo outra vez. Adelaide estava com a filha, no Carrefour, em Gaia, quando alguém telefonou a dizer que havia mortes na aldeia. “Ligámos para cá, para um amigo, a saber o que se passava.” Jorge estava em Vale de Figueira à espera da filha, que viria na carreira desde S. João, quando o telefone tocou. As suspeitas – afinal, ele vira as ambulâncias e alguém lhe tinha dito que acontecera qualquer coisa – ficaram certezas nesse instante.
“Esperei que a minha filha chegasse, deixei-a em casa e segui para lá.” E encontrou Valdemar. Ao fim do dia, na Ferradosa, as conversas fazem-se perto do balcão do “Cais da Ferradosa” – antiga estação transformada em restaurante de luxo para turistas há menos de um ano. “Uma loucura”, repete Jorge. “A ideia que ele tinha na cabeça, já a tinha há muito tempo. Muita gente sabia disso por estas terras, mas poucos acreditavam que ele realmente fizesse o que fez.” S. Xisto tinha sete habitantes e, pelo menos, três armas. A caçadeira e a pistola de Jusmino, mais o revólver de Ernesto. “Ameaçavam-se um ao outro muitas vezes”, recordam os populares.
E todos os dias acordavam na mesma aldeia pequena. Ernesto, emigrante regressado de França, gastava os dias de olho nas obras de reconstrução de S. Xisto, ‘patrocinadas’ por um industrial de Estarreja a pensar no turismo rural no coração do país vinhateiro. Jusmino, reformado da Refer, acordava cedo, metia-se no pequeno carro cinzento e dava as suas voltas. “Às vezes ficava ali a pescar, junto à antiga casa dos comboios”, lembra Jorge. Afastados, mas não separados.
Queixa na GNR Há quem jure, a pés juntos e sob anonimato para não arranjar problemas, que Ernesto se chegou a queixar à GNR de S. João Pesqueira das ameaças do vizinho e que, pelo uma vez, levou invólucros de bala. Mas no posto, garantem, “não há conhecimento de nada”. “Se houvesse uma queixa, teria de seguir para o Ministério Público. Às vezes, as pessoas não querem formalizar as queixas, por razões várias, mas mesmo assim ficamos com as indicações. E, neste caso, nem isso existe”, garante o comandante do posto.
A aldeia de S. Xisto não faz parte das patrulhas diárias da GNR. “Não quer isso dizer que não vamos lá, mas não é muito frequente. Também porque não há razão para isso”, admite um responsável policial. Há coisa de um mês, o carro-patrulha desceu a serra para levar a licença de porte de arma a Jusmino. Mas, e a GNR admite-o, há muitas armas sem documentos pelas encostas do Douro. “Esse problema existe e nós fazemos o que é possível. Mas as pessoas continuam a adquirir pistolas e revólveres, alguns até os trazem de França onde é mais fácil comprar...”
Padre de funerais António Samuel é um padre de 41 anos habituado a quase só fazer funerais – e fez mais quatro na última semana. “São dez por cada baptizado ou casamento. E destes, só emigrantes.” A tragédia que se abateu sobre o rebanho não lhe merece grandes conversas. “Não sabia nada disto de que agora se fala, destes problemas. Estive lá, em S. Xisto, na Páscoa e senti que as pessoas contribuíram. Mas não dei conta de nada.”
Na terça e na quarta-feira, o padre Samuel levou à terra os quatro corpos de S. Xisto no cemitério de Vale de Figueira. Os portões negros abriram-se, os sinos tocaram e a história começou a acabar. “Este é o povo do Douro”, diz Adelino Lopes, o presidente da Junta de Freguesia de Vale de Figueira. “Com os funerais, estamos a virar uma página triste da nossa história. O momento é de reflexão. Depois, temos de recomeçar.”
A família, espalhada pelo País e pelo mundo, voltou à aldeia no príncipio do fim. O quadriciclo de Jusmino, que permance estacionado, rodas seguras com calços de madeira, deixou de ser o único no meio das casas. Por alguns dias, voltaram os filhos e os irmãos, os amigos, os colegas e os vizinhos e, de jornal na mão, voltou também um ex-genro de Ernesto Ermidas. “Estava na Alemanha quando ouvi a notícia e senti que a única coisa a fazer era vir cá”, conta Manuel Cardoso dos Santos, depois de uma manhã inteira à procura de respostas numa aldeia onde não regressava há vinte anos. “Não sei se é para lembrar ou se é para esquecer. Não sei que tragédia é esta...”
Perdida nas encostas do Douro, a minúscula aldeia de S. Xisto assinala o fim do caminho. As quatro mortes da semana passada podem marcar o fim da sua história. Numa terra que perde gente todos os anos, ainda há quem resista. E prometa lutar.
S. Xisto é uma rua sem saída no fim de uma estrada. Desde S. João da Pesqueira, a estrada desce numa sucessão interminável de curvas, com o Douro a aparecer de quando em vez. Passa-se o cruzamento para Vale de Figueira, junto ao café mal afamado das ‘meninas’, atravessa-se a Ferradosa e depois de uma curva à direita, chega-se ao que parece ser um Portugal dos Pequeninos. “Mas isto não é o fim do mundo”, garantem os habitantes.
Na Ferradosa são cinco. Jorge Pinto, a mulher Eloísa e os filhos: Fabiana, de 13 anos, e Ricardo, de oito. O outro morador é Ricardo Lamas, o improvável empregado de smoking que serve no restaurante Cais da Ferradosa. Aos 20 anos, com um curso de formação em hotelaria deixado a meio, faz o balanço dos primeiros meses de trabalho. “Estava nas obras e quando isto abriu, no Verão passado, tive a oportunidade de aplicar as bases adquiridas no curso.” Durante três meses não folgou, mas não se arrepende. “A vida aqui não é sempre assim”, diz Jorge Pinto, o vizinho e cliente. “No Verão, isto está cheio de turistas. Às vezes saem aos 300 dos barcos e a sala fica cheia. E ele tem de trabalhar”.
O turismo pode acabar por ser a tábua de salvação para S. Xisto e há um homem que, nos dias seguintes à tragédia, tomou como sua a missão de não deixar morrer a aldeia. Chama-se Adelino Lopes, o presidente da Junta de Freguesia de Vale de Figueira, eleito pelo PSD. “Costumo dizer que estou no Douro por vocação. Podia ter saído daqui, mas quis ficar. E garanto-lhe que, mesmo que seja o último a ficar, não vou deixar a minha terra.”
A promessa é contra os números. Todos os anos se perde gente nestas aldeias. A sua freguesia tem 600 habitantes, dispersos por quatro povoados. E na semana passada perdeu mais quatro. “Aquela gente era património vivo, fazia parte da história de S. Xisto. Mal ou bem, eles contavam como era a vida antigamente, numa aldeia de 300 anos, típica do Douro. A única coisa que posso fazer é tomar em mãos a salvação daquela terra.”
Atília, Adelaide e Valdemar ainda não sabem o que fazer, mas é provável que não se deixem ficar. O casal tem família para os lados do Porto, a viúva tem um filho em São João da Pesqueira. E a vontade de esquecer, que vai moendo o gosto pela paisagem e pelo sossego, empurra-os para longe. Talvez voltem, de tempos a tempos, mas ainda é cedo para decidir seja o que for.
Na pausa para almoço na Caixa de Crédito de S. João da Pesqueira, Adelino Lopes atende o telemóvel a um número desconhecido. “Sim... Sim... Claro, vou fazer tudo para a ajudar. A senhora é uma luz.” Depois sorri, satisfeito e esperançado. “Era uma senhora de Lisboa, que ouviu falar do sucedido e que se dispõe a comprar ou a alugar uma casa em S. Xisto.”
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