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AMORES DE PLÁSTICO

São lindas e obedientes. Não podem conversar, é certo, e nem sequer pensam, mas estão sempre prontas para a ‘brincadeira’. As bonecas insufláveis ou de silicone são uma fantasia recorrente entre os homens. Mulheres de plástico que parecem cada vez mais de carne e osso.

15 de junho de 2003 às 15:26

À entrada, o ‘néon’ intermitente anuncia ‘sexo’. Um pesado reposteiro vermelho e uma bola prateada de luzes de discoteca dão as boas-vindas aos clientes da ‘Megasex’, uma das ‘sex-shops’ mais procuradas de Lisboa. No interior, uma luz negra ilumina a sala quase vazia. Ao fundo, dois rapazes escolhem uma cassete de vídeo de ‘filmes para adultos’. Trocam algumas piadas, mas as suas vozes são abafadas pelo som ‘techno’, que sai a altos decibéis das colunas. Por detrás dos cortinados de veludo surgem mais dois homens que param diante da montra de apetrechos ‘hardcore’, decorada com algemas, estimulantes, retardadores sexuais, lingeries provocantes e vibradores, que imitam o tamanho e forma do órgão sexual de um actor porno de renome. As suas cabeças acabam por se fixar na voluptuosa ‘Sharon Sloane’ e na sofisticada ‘Cyber Chic’, duas bonecas embrulhadas em caixas coloridas. A separá-

-los de um admirável mundo novo está um cartão de crédito e um sopro de ar, que os irá encher de prazer ilimitado.

“As bonecas insufláveis são um dos produtos mais procurados nas minhas ‘sex-

-shops’”, diz Horácio Gomes, proprietário da ‘MegaSex’. Basta olhar com atenção para as prateleiras para se confirmar a variedade destas ‘meninas’ de borracha. Há loiras, morenas, negras, asiáticas, magras, altas e baixas. A que tem mais sucesso é, sem dúvida, a Nikita. Talvez porque tenha as medidas de uma manequim de alta costura, cabelos compridos loiros e vibra ao gosto do freguês. Uma tentação de 280 euros.

Do outro lado da cidade, no ‘Espaço Lúdico’, uma ‘sex-shop’ com onze anos de existência, os clientes ouvem as mesmas batidas de música de dança, vêem as mesmas capas de filmes ‘hardcore 1.º escalão’ e apreciam os artefactos sexuais expostos na montra. Ali, a boneca insuflável com mais saída é a ‘Betty Fat Girl’, que faz jus ao ditado de que ‘gordura é formosura’. “Farto-me de vender este modelo”, afirma Hélio Mota, gerente do ‘Espaço Lúdico’. Estranho? “Não. Os meus clientes têm todo o tipo de fantasias e devaneios”.

O FERRARI DAS BONECAS

Mas a nova sensação do mercado erótico são as bonecas de silicone, uma febre entre os homens americanos desde 1996, quando uma empresa de Chicago começou a comercializar as ‘Real Dolls’ que se parecem com mulheres reais. Até há pouco tempo só podiam ser adquiridas através do site www.realdoll.com. Hoje já se vendem em qualquer ‘sex-shop’ portuguesa. Na 'MegaSex', as duas ‘Bárbara Dolls’ foram vendidas num mês. E nem o seu preço, de 500 euros, assusta os fãs do novo brinquedo. “As de silicone têm maior flexibilidade. Não rebentam, movem a boca e são mais verosímeis”, conta Horácio Gomes.

No Porto, na ‘Casa de Eros”, estas ‘meninas’ de silicone, consideradas os ‘Ferraris das bonecas’ já lideram a lista de preferências. “O cliente pode escolher a cor do cabelo e da pele, o tamanho dos seios, um simulador de respiração, e até um dispositivo para urinar ou criar uma temperatura parecida com a do corpo de uma pessoa real”, explica Maria da Luz Rocha, gerente da ‘sex--shop’ recém-inaugurada. Estas ‘Real Dolls’ aguentam temperaturas de 300 graus e pesos de 300 quilos. “Enfim, uma sofisticação à medida de consumidores para quem uma boneca destas já não é um fétiche mas sim uma companheira”, remata.

Mas tanta beleza e perfeição têm o seu preço. A Leah, a Stacy, a Celine ou a Julie não falam, não andam, nem comem, mas podem custar até seis mil euros. Um preço que parece valer a pena para personalidades como Howard Stern. O excêntrico radialista norte-americano garantiu no seu 'site' ter tido “a melhor relação sexual da sua vida”, com uma destas belas bonecas de silicone.

Provocação ou puro marketing, o que é certo é que este novo fétiche em molde de silicone já fez correr muita tinta na imprensa de todo o mundo. Moacir da Costa, um sexólogo brasileiro, autor do livro ‘Sexo – Minutos que Valem Ouro’, defende a teoria de que a “substituição de um ser humano por silicone mostra a falência das relações afectivas.” Por sua vez, uma médica norte-

-americana escreveu: “o aparecimento das ‘RealDolls’ é a prova de que as mulheres já não aceitam ser totalmente passivas.”

O sexólogo português Abel Matos dos Santos, não vai tão longe e desdramatiza: “É verdade que as relações pessoais estão cada vez mais difíceis. As pessoas hoje trocam constantemente de parceiros. Mas uma coisa não tem a ver com a outra. Quem procura uma boneca destas fá-lo, simplesmente, por curiosidade ou brincadeira.” Em relação aos elogios tecidos por Howard Stern, Matos dos Santos tem grandes dúvidas: “Não acredito que numa situação normal alguém prefira uma boneca a uma mulher verdadeira”. Talvez por isso, o sexólogo se recuse a traçar um retrato-robôt do consumidor deste tipo de artefactos sexuais. “Não há. Há é cada vez mais, oferta de ‘shows’ de ‘striptease’ e ‘sex-shops’”, remata.

A sua tese parece ser contrariada pelos gerentes das duas ‘sex-shops’ lisboetas, que garantem: “Há três tipos de clientes destas bonecas: homens solitários, casais que desejam dar novo alento à sua vida sexual e rapazes que preparam uma despedida de solteiro ao melhor amigo”.

PREÇÁRIO

Lacto Doll: tamanho natural, com três entradas e vibração. Pode colocar-se leite nos seios. Preço: 104,50 euros.

Bronco Busting: três entradas, cabelo comprido louro. Preço: 60 euros

Vicki Honey Doll: três entradas. Preço: 38,50 euros

Soft & Sweet: três entradas, cabelo comprido louro. Preço: 56 euros

Pénis XXL: com vibração de grande intensidade em vinil: 31 euros

Pénis em vinil preto: com vibrador de intensidade regulável: 12,50 euros

Little Pecker Salmão: pénis em silicone sem vibração. Dimensões

16,5 x 3 cm – 26,50 euros

Penetrix: pénis de cintura em latex, sem vibração – 34,50 euros

RUI ZINK VERSUS SÁ LEÃO

O escritor Rui Zink e o realizador Sá Leão discutem os seus gostos por bonecas insufláveis. E não chegaram a um acordo.

1) Já alguma vez praticou sexo com uma boneca insuflável?

Rui Zink: Claro. Pode-se lá viver sem ter amado uma boneca insuflável!

Sá Leão: Jamais em tempo algum. Nunca substituiria o plástico ou o silicone por uma mulher de carne e osso. Ainda não é crime gostar de mulheres.

2) (Se não) Não tem curiosidade ou fetiche em experimentar?

Rui Zink: Eu gostei, mas compreendo que haja quem não goste. O lado bom das bonecas insufláveis é que são muito dóceis. O lado mau é que, como são demasiado passivas, são pouco doces. Mas não se pode ter tudo na vida.

Sá Leão: Não. Respeito as leis da natureza. Nunca iria meter o meu ‘abono de família’ numa coisa de plástico.

3) Qual poderia ser a vantagem de ter uma destas bonecas em vez de uma mulher em carne e osso?

Rui Zink: Não escrevem livros.

Sá Leão: Não vejo mesmo qualquer vantagem. Em último recurso recorreria à Rua da Palma, n.º 5. Mas respeito os fétiches dos outros.

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