O Natal da cantora será diferente graças à filha que lhe crescia na barriga enquanto construía a carreira a solo.
Ana Bacalhau deixou para trás dez anos de Deolinda e estreou-se este ano a solo. Também foi mãe e assume que saiu uma mulher diferente disso tudo. O novo álbum, ‘Nome Próprio’, pode ser ouvido no Tivoli, em Lisboa, a 26 de janeiro, e na Casa da Música, no Porto, a 31.
Porquê agora a solo?
Na verdade, quando eu era garota e comecei a cantar e a tocar guitarra, imaginava sempre ter um disco com o meu nome. Mas depois tive em muitas bandas: os Lupanar, os Tricotismo, e depois dez anos muito intensos com os Deolinda, durante os quais não tive cabeça nem vontade para pensar noutras coisas. As histórias dos Deolinda, aquela maneira de falar da vida dos outros, aquela personagem absorvia-me completamente. Agora era a altura ideal, porque todos na banda estávamos com muita vontade de fazer outras coisas para lá dos Deolinda. Era a altura certa para parar e, um dia, depoi de fazermos estas coisas que temos na gana, voltarmos. Mas este foi também o tempo necessário para me sentir preparada para fazer algo sozinha, a minha cara, a minha pele.
Que pele é essa?
Tenho mundos artísticos muito diferentes dentro de mim. A música anglo-saxónica é tão importante como a de raiz tradicional portuguesa. Da mesma forma que Lisboa, a cidade onde nasci, cheia de ruídos e trânsito, faz tão parte da minha infância como a aldeia da minha avó, perto de Tondela. E eu não sabia muito bem como fazer coexistir esses dois mundos dentro de um disco. Por isso fui deixando andar.
Foi fácil dar o grito do Ipiranga?
Fiquei muito nervosa porque não sabia o que as pessoas iam achar. Nos Deolinda eu canto os outros, mas aqui estava a mostrar-me a mim. A Ana. Senti-me muito exposta no início. Agora já não. Já estive olhos nos olhos com as pessoas e correu bem.
Em que difere a Deolinda da Bacalhau?
Elas também têm muita coisa em comum e, porém, algo que as distingue brutalmente. Aquela Ana solar, enérgica, que anda sempre de um lado para o outro do palco dos Deolinda, só existe porque a Bacalhau é assim, claro. Só que a Bacalhau tem um outro lado escondido... mais lunar. Também é metida sobre si mesma, vive dentro do seu casulo, é introvertida, canta com os cabelos para a frente a tapar-lhe o rosto. Essa é a Ana que as pessoas desconheciam até aqui.
É o seu lado Escorpião?
É!
Tem muitos nomes novos a escrever para si neste disco mas, pela primeira vez, também assina letras de canções...
Sou essencialmente uma intérprete. Adoro dar vida às palavras musicais de outros. Alguns deles são queridos amigos, outros - como o Afonso Cruz – não conhecia pessoalmente. Pedi-lhes que escrevessem para mim da perspetiva em que eles me veem. E revi-me em todas essas imagens e leituras que fizeram de mim, mesmo nas palavras daqueles que não me conheciam pessoalmente. Isso foi muito engraçado.
E como foi estrear-se na escrita?
Foi difícil porque sou muito exigente e não é fácil um texto passar no meu próprio crivo. Não costumo gostar das coisas que escrevo, mas sempre que sentir que tenho alguma coisa para dizer e que tem alguma qualidade poderei voltar a fazê-lo. Quando agora escrevi foi sobre as coisas mais pessoais, as expressões da minha avó, aquilo que me chamavam quando era miúda, ou seja, as coisas que só eu é que sei, porque as vivi.
O que lhe chamavam?
Rabina.
O apelido Bacalhau não trouxe alguns dissabores?
Muitíssimos! Houve uma altura em que foi mesmo muito chato porque eu não só me chamo Bacalhau como era gordinha em pequena. Quando cheguei à primária foi tramado. A primeira vez que gozaram comigo não percebi como havia de reagir. Fiquei magoada e mostrei-o. Um certo grupinho percebeu isso e nunca mais largou o osso. Posso dizer que sofri de bullying e isso marcou-me. Era uma criança muito extrovertida mas, a partir daí, comecei a meter-me no meu casulo. Só no secundário, quando comecei a tocar guitarra e a cantar é que de certa forma aprendi a dar a volta à situação.
Passou a ser a miúda fixe que leva a guitarra para a escola e toca?
Completamente. Depois passei a ser essa miúda! E acima de tudo passei a relacionar-me com o Mundo de forma mais saudável e aberta. Andava na Secundária de Benfica e nos intervalos tirava a guitarra para cantar as músicas que os colegas queriam ouvir: Pearl Jam, Nirvana, Soundgarden. Era o que se ouvia na altura.
Falava há pouco na aldeia da sua avó, Carvalhal de Mouraz. Passava lá muito tempo?
Eu adoro o bulício da cidade mas sinto-me muito conectada com o silêncio do campo. Ou melhor, com os barulhos do campo: as cigarras, a relva a encarquilhar-se com o calor, o som da água a correr nos riachos. Era na aldeia que eu corria feita louca e comia fruta quente das árvores, que sujava a roupa na resina das árvores. Em Lisboa eu era filha única, habituada a brincar sozinha com as bonecas no quarto de um apartamento, mas na aldeia eu era a selvagem. Acho que neste disco a música da Capicua, que se chama ‘A Bacalhau’, é aquela que melhor resume isso tudo: um corridinho com versos de hip hop por cima.
Este projeto a solo também está ligado a uma nova fase da sua vida? A mulher-mãe, mais madura, segura de si e a gritar isso mesmo aos quatro mundos?
Serei sempre uma gaiata, mas há uma confiança renovada e redobrada que estes anos de estrada me deram. Aprendi o que fazer e o que não fazer em palco e em estúdio. Depois a maternidade, claro que é uma experiência transformadora. Deu-me a força extra de que eu precisava: o saber que consigo tudo, até consigo gerar um ser do nada (ou melhor, quase do nada!) e, portanto, também consigo tudo o resto, como fazer um disco sozinha. Aquela coisa telúrica, da conexão com a terra e o divino, a criação de um ser humano e de um disco... não é à toa que no primeiro ensaio eu estava grávida. Não é por acaso que o crescimento da minha filha acompanhou o crescimento deste disco.
Há aqui muita luz da Luz, que é o nome da sua filha...
Quando as pessoas descobriam que eu estava grávida costumavam dizer-me ‘ai, estás com uma luz diferente’ ou ‘a gravidez está a dar-te uma luz’. Ainda por cima, eu tinha uma avó que se chamava Luz. O pai, o Zé, também tinha muitas ‘Luzes’ na família. Assim que soube que era uma rapariga, ficou o nome. E ela tem mesmo muita luz! Está sempre de bem com a vida.
Já lhe ensinou muitas coisas?
Já! Pensava que eu é que lhe ia ensinar muitas coisas mas ela tem-me ensinado mais a mim. A forma como ela é zen e como ultrapassa as contrariedades, mesmo sendo um bebé. A dor de levar uma vacina, por exemplo: ela ri-se e fica logo feliz com o conforto que o pai ou a mãe lhe estão a dar, em vez de ficar ali a remoer na tristeza que lhe aconteceu…
Tudo mudou?
Como diz a minha mãe, "agora nunca mais vais estar sozinha". É verdade. E é tão bom! Sobretudo porque tenho uma profissão que é muito centrada em mim, e é bom sentir que o centro do meu mundo agora é outro . Claro que sei que vou cair na tentação de querer protegê-la de tudo, mas quero acima de tudo ser o ombro amigo, o cadeirão onde ela vem repousar depois de viver todas as coisas que inevitavelmente terá de viver. Depois de a Luz nascer, fiquei também mais preocupada com o mundo: agora afeta-me mais a estupidez humana, a estupidez dos líderes que governam o Mundo. Quero, mais do que nunca, que este Mundo esteja bem e que seja uma casa habitável. Que ela olhe para a frente e consiga escolher a vida que quer.
Este Natal vai ser diferente por causa dela?
Vai, claro. Já começou a ser. Ela ainda não vai perceber o que está a acontecer, mas fiz a árvore à frente dela, já fui comprar-lhe presentes cheia de entusiasmo!
Como era o Natal da sua infância?
Quando eu era pequena geralmente passávamos o Natal em Lisboa, mas com a família toda reunida, todas em grande alvoroço e alegria, até porque havia muitas crianças. Depois os miúdos foram crescendo, a família foi diminuindo e o Natal perdeu um bocado a graça. Agora, com a Luz e o nascimento de outras crianças recentemente na família, a alegria voltou.
O que é que quis ser antes de apostar na música?
Professora de Português-Inglês mas rapidamente percebi que não ia ter colocação e que, caso tivesse, teria de andar a correr o País de um lado para o outro, o que não era muito conciliável com a música. Então virei-me para outro lado: estive numa escola privada de inglês, dei explicações, depois fui administrativa dos serviços municipalizados de águas e saneamento de Oeiras e Amadora, até que tirei uma pós-graduação em Arquivística e fui para o Ministério das Finanças. Foi daí que desisti para a música. E nem por uma única vez me arrependi.
O seu maior defeito?
Sou daquelas pessoas que vai enchendo, enchendo, e quando me salta a tampa posso ser colérica. Mas não guardo rancores nem sou capaz de virar as costas a alguém, mesmo que me tenha magoado.
E a maior virtude?
A busca da empatia. Gosto sempre de me pôr no lugar do outro e perceber de que forma as minhas ações podem afetar o outro.
O que odeia?
A má educação e as pessoas que são fortes com os fracos e fracas com os fortes.
O que a faz sorrir?
As pessoas sem filtro, que dizem o que pensam. As pessoas que dizem ‘Bom dia’. Os animais.
Tem animais?
Um gato, o Sebastião.
É uma ‘cat lover’?
Definitivamente sim. Talvez porque fui mordida por um cão quando era pequena!
O acontecimento cultural que lhe mudou completamente a vida?
Ler o ‘Crime e Castigo’ do Dostoievski. Por perceber que era possível escrever daquela forma, dentro da cabeça do outro.
PERFIL
PERFILAna Bacalhau nasceu a 5 de novembro de 1978, em Lisboa. Aos 15 anos começou a tocar guitarra e a cantar na escola secundária. Aprendeu canto e em 2001 entrou para vocalista do grupo Lupanar com quem gravou um CD (‘Abertura’, de 2005) e participou num álbum de homenagem a Carlos Paredes. Entretanto, licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, na vertente de Língua Portuguesa e Língua Inglesa, possuindo ainda uma pós-graduação em Ciências Documentais.
Em 2005 participou num trio de jazz e blues chamado Tricotismo, com o qual tocou em bares e num hotel. Os Deolinda começaram em 2006. É casada com o contrabaixista José Pedro Leitão, que também integrou os grupos anteriores e com quem mantém uma relação de longa data. É o pai da sua filha, Luz.
Em dez anos de carreira com os Deolinda, deu voz a quatro discos: ‘Canção ao Lado’ (2008), ‘Dois Selos e Um Carimbo’ (2010), ‘Mundo Pequenino’ (2013) e ‘Outras Histórias’. Já dividiu palcos e canções com vários artistas: de João Só a Júlio Resende, passando por Mafalda Veiga, Aldina Duarte, Cuca Roseta, Gisela João, Manuela Azevedo, Marta Hugon, Rita Redshoes ou Selma Uamusse.
Gostava de um dia escrever um livro, mas o seu primeiro álbum a solo chegou primeiro: ‘Nome Próprio’, lançado em outubro deste ano.
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