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Angola vive uma situação explosiva

O escritor, que dá a cara pela libertação de Luaty Beirão e outros 14 presos políticos, fala de uma inquietação crescente no País.

18 de outubro de 2015 às 23:59

Ficou surpreendido com a situação destes 15 jovens detidos pelo governo de José Eduardo dos Santos?

A detenção destes jovens não me causa muita estranheza porque infelizmente é prática corrente. É assim que o governo angolano tem reprimido aqueles que lutam pela democracia no seu país. O que me surpreendeu foi eles terem continuado detidos sem haver culpa formada, e por o próprio presidente da República ter vindo a público falar sobre o caso e defender a tese de que estariam a planear um golpe de estado. O prazo de três meses de prisão preventiva, aquele que está previsto para os crimes de que são acusados, já terminou e eles estão agora presos ilegalmente e isso sim é uma novidade que assusta. 

O que o levou a envolver-se com o movimento de solidariedade para com o rapper Luaty e o que o levou a participar no vídeo que exige a sua libertação?

Foi um movimento que surgiu nas redes sociais e dessa forma chegou até mim. É urgente chamar a atenção do Mundo e também dessa forma pressionar o governo angolano para que proceda à libertação dos presos políticos. As pessoas envolvidas no movimento são de todos os quadrantes e organizaram-se através das redes sociais. Estão a tentar apoiar de todas as maneiras possíveis as famílias dos jovens que estão detidos, quer em termos financeiros, quer em termos jurídicos e, sobretudo, estão a dar-lhes o seu apoio moral.

Neste caso, os advogados pouco devem poder fazer…

Assim é. Estão a dar o apoio possível, até porque a situação é perfeitamente ilegal.

Conhece o rapper Luaty Beirão pessoalmente?

Sim, há vários anos. É uma ótima pessoa, um idealista, claro, superdeterminado, que tem uma paixão por Angola e por África. Também é muito culto. Tem uma licenciatura tirada em Inglaterra e outra em França.

Como se tem inteirado da situação dele?

Através de pessoas que estão periodicamente com ele. Sei que está muito enfraquecido.

É o único do grupo de ativistas em greve de fome?

Inicialmente eram quatro, mas os outros acabaram por desistir. Sei que entretanto houve um outro preso político que entrou em greve de fome.

O que acha que levou o governo angolano a reagir de forma inflexível?

É a resposta inequívoca a uma inquietação social crescente. A crise económica chegou a Angola também com a quebra do preço do petróleo. Todas as grandes empresas multinacionais estão com dificuldades, muitas fecham e vão embora. O governo angolano tem vivido sempre da redistribuição do dinheiro dos cofres do Estado, mas agora já não há mais dinheiro. Depois, em vez de dialogar com as forças sociais, em vez de ouvir o povo que quer a democracia, reprime. Acredito que o governo de José Eduardo dos Santos está por um fio. Só não sabemos quando vai cair nem como vai ser.

O que inevitavelmente acarreta preocupação...

Claro. Há a noção de que Angola vive numa situação altamente explosiva.

Que pessoas reúne o Movimento Revolucionário de Angola?

O importante é que este é um movimento democrático e reúne pessoas dos mais variados quadrantes de Angola, incluindo muitas pessoas ligadas ao poder e militantes do próprio MPLA.

Já alguma vez sentiu na pele consequências da repressão política?

Nenhum angolano que tenha uma opinião contrária e que levante a voz para a expressar  pode esperar fazê-lo sem sofrer consequências graves. Felizmente, tenho uma situação financeira estável e não dependo do governo angolano, ao contrário de muitos outros artistas, e por isso sempre pude defender um desenvolvimento mais justo e democrático para o país. Mesmo quando vivia em Angola mantive a minha posição. Mas com a noção de que poderia ter de enfrentar as consequências por isso.

O que desejaria que acontecesse agora em Angola?

Primeiro que todos os presos políticos fossem libertados em condições e depois que o presidente ouvisse a voz da população e que conduzisse o país para uma verdadeira democracia.

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