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"Apaixonei-me pelos portugueses"

Irmã Carmen é freira há 75 anos.

09 de agosto de 2015 às 10:30

Cedo sentiu vontade de ser religiosa,

mas as agruras dos tempos ditaram outras urgências, como, por exemplo, ser enfermeira voluntária no tratamento de feridos da guerra civil espanhola, entre 1936 e 1939. Mas os desígnios de Deus ditaram que, nessa atividade de voluntariado, nos hospitais de campanha instalados em Ferrol (uma zona poupada aos combates, mas que recebeu milhares de feridos de outras regiões), contactasse com religiosas da congregação fundada por Santa Josepha, no século XIX, na cidade de Bilbao.

Tem 96 anos de idade e, na segunda-feira, fez 75 anos de vida religiosa. Nasceu em Ferrol, na Galiza, em 1919, mas vive em Braga desde 1942. Diz-se mais portuguesa do que espanhola. Passou a vida a cuidar de doentes e hoje reza nove terços por dia. É freira há uma longa vida.

Quando é que começou a pensar ser freira?

Foi uma ideia que se foi construindo, mas a decisão foi tomada em finais de 1939. Eu nasci a 1 de janeiro de 1919 e ingressei na vida religiosa a 3 de janeiro de 1940, em Bilbao.

A sua família é católica?

Muito católica. Quando decidi ser religiosa, o meu pai só me disse: filha, pensa bem no que vais fazer, olha que é uma coisa muito séria. Eu sei que ele ficou contente com a minha decisão.

Porquê nas Servas de Jesus da Caridade?

Na guerra civil de Espanha trabalhei como enfermeira voluntária, cuidando dos feridos que chegavam ao Hospital da Marina, em Ferrol. À minha cidade, a guerra não chegou com muita intensidade, mas recebeu feridos, aos milhares. Foi nessa atividade que contactei mais de perto com as Servas de Jesus, que também ajudavam no hospital.

Já conhecia a congregação?

Sim, já conhecia. Mas foi no hospital que contactei diretamente com as irmãs e que conheci melhor a Ordem e a sua missão, que é a de cuidar de doentes durante a noite.

O que recorda com mais intensidade da guerra civil espanhola?

A grande quantidade de feridos e as dificuldades económicas que toda a gente enfrentava. Não havia pão, nem outros bens essenciais. Era tudo racionado. Como em Ferrol não houve combates, o que me recordo é sobretudo isso. Para se obter um pouco de pão era necessário esperar horas numa fila enorme. Foi muito difícil.

Bilbao foi a sua primeira casa enquanto religiosa. Quanto tempo esteve lá?

Estive dois anos e meio, o tempo de fazer o noviciado e o postulantado.

E depois?

Depois, em 1942, vim logo para Braga e fiquei aqui. Deus permitiu que cá vivesse e que, nesta cidade que me acolheu, celebrasse as minhas bodas de diamante.

Escolheu vir para Braga?

Vim para cá porque me mandaram. A minha vinda foi um ato de obediência.

Que imagem guarda de Braga naquela altura, em plena II Guerra Mundial?

O que mais me impressionou, quando cá cheguei, foi ver toda a gente descalça na rua. Crianças e adultos. Não havia sapatos, nem uns tamanquinhos. Em Espanha também se passava mal, mas as pessoas andavam calçadas. Aqui, os meninos da escola levavam os livros numa sacola de serapilheira… vivia-se muito mal. As pessoas eram muito pobres e não havia dinheiro. A nós, muitas vezes, tiveram de nos mandar dinheiro e alimentos de Espanha. Os pobres eram tão pobres que os quartos das casas tinham o chão em terra. Estive em muitas casas assim. Havia muita tuberculose…não se comia mais do que um prato de sopa… Vivia-se mesmo muito mal.  Quando íamos para os doentes, davam-nos batatinhas guisadas, às vezes com um ovo cozido. Café, nem vê-lo. Nem na ordem. Só nos davam café quando morria uma irmã. Hoje toma-se café todos os dias…

Como passou a gostar de uma terra onde tudo era tão mau?

Não era tudo mau. As pessoas eram boas. Aliás, eu apaixonei-me pelos costumes dos portugueses. Era gente educada, com bons princípios. Marcou-me muito ver os filhos, alguns já casados, a pedir a bênção aos pais. Quando iam embora ou chegavam a casa, diziam: ‘Dê-me a sua bênção, meu pai’; e o pai respondia: ‘Deus te abençoe, meu filho’. Que coisa bonita!

Não eram muito fáceis, naquele tempo, as comunicações entre Portugal e Espanha…

Eram difíceis. As pessoas tinham de preencher montes de papelada e muitas vezes, tanto daqui para lá como de lá para cá, chegava-se à fronteira e não se passava. E também era complicado trazer mercadorias, mesmo bens básicos, como massa ou arroz. Além disso, as estradas eram fracas, enfim, não tinha nada a ver com o que acontece hoje.

Na altura havia mais irmãs?

Éramos 13. Hoje somos sete. Como sabe, não há vocações!

Em sua opinião, a que se deve a drástica redução das vocações religiosas?

A educação familiar, hoje, é muito diferente da de antigamente. No meu tempo, uma jovem solteira não chegava a casa à meia-noite, ou depois. Os pais não lho permitiam. É apenas um exemplo. Mas eu penso que a diminuição das vocações se deve sobretudo a isso, à educação familiar.

Considerando que acaba de passar à reforma, gostou de ser religiosa?

Fui e sou muito feliz. Se voltasse a nascer, seria outra vez serva de Jesus. Nunca me arrependi de ser religiosa. Sempre tive presente Jesus quando ajudava os outros.

Qual o momento mais difícil que viveu?

Foi quando tive de me despedir do meu pai, já bastante doente, quase com a certeza de que não o voltaria a ver. Ele sofria do coração e morreu com 60 anos. Parecia que me saía o coração pela boca. Nessa altura não podíamos ficar com os nossos pais, mesmo que eles estivessem a morrer. Quando terminassem as férias (15 dias de dois em dois anos), tínhamos de regressar ao convento. Eu a ver o meu pai tão doente, com a certeza quase absoluta de que não o voltaria a ver…custou-me muito. E uns meses depois morreu.

E o momento mais feliz?

Foi quando fiz os votos perpétuos, aqui em Braga, na igreja da Senhora-a-Branca, em 1942.

Hoje é mais portuguesa do que espanhola…

Claro. Saí de Espanha com 23 anos, tenho 96… é só fazer as contas. Eu fiquei, de todo, portuguesa. Até no futebol. Torço pelo Benfica e pela seleção portuguesa.

Como vê a Igreja hoje, com um novo papa e, por essa via, novas formas de interpretar a realidade?

Eu tinha e tenho uma enorme devoção por Bento XVI. Ele, que é humilde como a terra, entendeu que não tinha forças para continuar e, numa atitude muito nobre, de grande desprendimento, retirou-se. O papa Francisco é uma pessoa muito humana e com um notável espírito de pobreza. O Espírito Santo não dorme e eu penso que, nesta altura, este era o papa de que a Igreja necessitava. Se Deus me deixar, hei de vê-lo com muita alegria, pela televisão, a celebrar o centenário das aparições de Fátima.

Quantos terços já rezou?

Não faço ideia, mas felizmente não foram poucos. Agora, que só rezo como e durmo, rezo nove terços por dia. Por várias intenções: pela Casa Sacerdotal e pelos sacerdotes doentes; pelos benfeitores; pelas irmãs falecidas; pela minha família; pelas intenções que nos foram encomendadas; e por aí fora! São pelo menos nove.

Qual é o seu prato preferido?

Eu nunca dei grande importância à comida. À noite como sempre sopa e um iogurte. De resto, o que mais gosto é frango de churrasco, com um pouco de picante.

Qual foi o lugar que mais gos

Qual foi o lugar que mais gostou de visitar?

Fátima. Sempre me senti lá muito bem. Quando lá fui a primeira vez ainda era a capelinha das aparições pequenina…

Esta festa foi importante para si?

Importantíssima. São as bodas de diamante e se Deus me permitiu celebrá-las, pois faço-o com gosto e gratidão. Não é todos os dias que se fazem 75 anos de freira. Não é?

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