O espaço centenário foi testemunha de amores e espionagem, fugitivos e ilustres. Por detrás da fachada vitoriana do Grande Hotel do Porto, fundado pelo trisavô do cantor Pedro Abrunhosa, muitos descansaram, outros tantos se esconderam. A porta abriu em 1880
Uma grande parte das memórias de Pedro Abrunhosa está hospedada no Grande Hotel do Porto. Foi lá que os pais do cantor casaram. Ele próprio passeou a infância e adolescência por entre os corredores centenários, os salões e as ilustres figuras que fizeram parte da história do Hotel desde 1880.
Reinava D. Luís I em Portugal quando o trisavô de Pedro Abrunhosa, Daniel Martins Moura Guimarães, um aristocrata portuense que durante anos correu o Mundo a comprar e vender arte, fundou o Grande Hotel do Porto. Das mãos do ‘marchand’ o espaço passou para as da bisavó do cantor, Isabel, 'uma excelente pianista e cantora lírica nos salões dos amigos', e nos anos 30 viu nova passagem de testemunho: o avô de Abrunhosa, Álvaro Machado.
'Passei lá a minha infância e lembro-me do meu avô a perfilar os empregados todos os domingos de manhã, parecia um procedimento militar. No fim, batiam-se as palmas e as portas do salão abriam-se de par em par e entravam os hóspedes, pessoas muito distintas da aristocracia', recorda o cantor que se sentia no Hotel, que hoje já não pertence à família, 'como em casa'.
O Hotel foi recentemente renovado. Mas as janelas do sítio onde a presença do escritor Assis Pacheco era tão habitual que 'merecia ser considerado uma parte de mobiliário' continuam voltadas para a movida de Santa Catarina, a fazer companhia ao bulício das gentes apressadas que deambulam pela Baixa portuense. O jornalista e escritor foi só uma das muitas figuras que passaram pelo Hotel ao longo dos anos. Luís de Sttau Monteiro, por exemplo, era tão fiel cliente que nunca quis conhecer outro abrigo nas suas deslocações à Invicta. Do alto dos seus 128 anos de vida, o mais antigo hotel em funcionamento na cidade viu mudarem as leis e as cartilhas, viu reis e presidentes, viu poetas e barões, fugitivos e viajantes.
Nem às lides do coração escapou; testemunhou histórias de amor – foi lá que a violoncelista Guilhermina Suggia e o médico Carteado Mena pela primeira vez se viram e enamoraram, muito depois da separação de Suggia e do músico Pablo Casals, um romance que anos antes enchera as páginas dos jornais parisienses. Foi no Porto, em 1927, que a violoncelista e o médico do Hospital Militar casaram.
Nos entretantos da história centenária do Grande Hotel do Porto, páginas houve que se perderam com o folhear das circunstâncias. É o caso da estadia do então príncipe de Gales, o futuro Eduardo VIII: a prova da sua presença desapareceu do livro onde estava confiada. Uma recordação que apenas sobreviveu à conta do mediatismo da figura e circulou de memória em memória ao longo do tempo. Outras páginas há que permanecem. Pelo menos no Livro de Honra do Hotel, mais não seja a ajudar a lembrança e a atestar, através das dedicatórias, a história que desfilou dentro e fora das portas que abriram pela primeira vez a 27 de Março de 1880, sustentadas numa fachada vitoriana – na altura, a obra do arquitecto nortenho Silva Sardinha era o expoente máximo do luxo e do fausto.
Nessa altura abriram as portas mas não o Livro de Honra. Por isso, também a passagem dos ex-imperadores D. Pedro II e D. Teresa Cristina – que procuraram refúgio em Portugal depois da queda da monarquia no Brasil – ficou por escrever. Muito provavelmente, mesmo que existisse livro não teriam deixado nota: a estadia não foi feliz. A imperatriz padecia de uma lesão cardíaca e, quatro dias depois de se terem instalado no primeiro piso do hotel, na véspera de Natal de 1889, faleceu. A cama onde deu o último suspiro foi comprada por D. Pedro, que não aguentou a morte da mulher e logo seguiu, com a peça de mobiliário à pendura, caminho para Paris.
Desde o início da caminhada o espaço espreitou a vida de anónimos e ilustres. O que aconteceu dentro do Grande Hotel fica nas entrelinhas da História – nas linhas de Honra não se lêem as vidas dos que por lá passaram, apenas as palavras de quem quis marcar presença. Foi a assinatura do General Carmona, então Presidente da República, em 1934, que inaugurou as páginas do livro, quando o Porto recebeu a primeira exposição colonial portuguesa. A partir daí sucederam-se as visitas.
José Hermano Saraiva é uma delas. E assídua. 'Numa das últimas vezes que estive no Grande Hotel, chovia que Deus havia, tinha ido ao casamento de uma sobrinha que mora no Porto', recorda o historiador que considera o Hotel 'uma relíquia do passado, uma página do Eça de Queiroz'. E destaca a localização como motor do agrado.
'A rua de Santa Catarina é um dos locais mais simpáticos do Porto', considera. António Vitorino d’Almeida partilha da opinião. Ele que desde tenra idade conhece o Hotel – 'a primeira vez que lá fiquei hospedado foi em 1954, tinha 14 anos e ia dar o meu primeiro concerto'. A memória do maestro associa ainda hoje o espaço 'ao nervosismo' do momento. Mário Cláudio, associa à amizade. 'De todas as vezes que lá estive foi sempre para visitar pessoas conhecidas. 'Na infância ia com os meus pais. Recentemente ia visitar a minha amiga Eduarda Chiote'. Volta muitas vezes. O ministro de Salazar, António Ferro, também voltava. Para 'curar as feridas de Lisboa', confessou no livro para a posteridade.
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