O secretário-geral do MRPP evadiu-se do Hospital Militar Principal, em Lisboa, onde estava internado sob prisão.
Arnaldo Matos tinha sido preso pelo COPCON, em 28 de Maio, juntamente com cerca de 400 militantes do MRPP. Esteva encarcerado no Forte de Caxias mas foi internado sob prisão no Hospital Militar Principal, na Estrela, em Lisboa, para ser tratadado a uma úlcera no estômago.
Fugiu. O COPCON, comandado por Otelo Saraiva de Carvalho, emitiu um mandado de captura. Arnaldo Matos entrou na clandestinidade. Ainda assim, “algures no País”, foi entrevistado pelo jornalista Rui Pimenta. A longa entrevista de duas páginas foi publicada pelo semanário ‘O Jornal’, em 18 de Julho de 1975. Aqui ficam algumas das mais interessantes passagens.
O JORNAL
Poderá contar, em linhas gerais, como se processou a sua fuga do Hospital Militar de Lisboa?
Arnaldo Matos - Não é possível revelar em pormenor como fui libertado do Hospital Militar Principal. A situação política agravou-se de um momento para o outro e não era possível continuar por mais tempo naquela situação. Teria que adoptar outras medidas de libertar e ser libertado. O MRPP organizou a minha libertação, que foi levada a cabo por um certo número de elementos das massas populares, sob a direcção do nosso Partido. É a única coisa sobre esta matéria que posso dizer.
A seguir à sua fuga surgiu um comunicado do COPCON dando a conhecer a libertação de grande parte de militantes do MRPP presos em Caxias e em Pinheiro da Cruz.
O ataque de que o MRPP foi alvo, no dia 28 de Maio, (...) prenunciava o desenvolvimento da luta de classes entre o proletariado e a burguesia (...) O inimigo julgou que era fácil aniquilar, em 24 horas, o MRPP. Apesar das 430 prisões, 24 horas depois o MRPP recuperou todas as sedes. Travou combates duríssimos com forças da repressão, embora estivéssemos desarmados (...) Dentro do Conselho da Revolução e do MFA, que decidiram a operação de cerco e de aniquilamento do MRPP, existiam diversas facções (...) Algumas dessas facções não estavam tão firmemente decididas a aniquilar o MRPP como outras. Nós pensamos que isso, contudo, foi obra inspirada no partido de Barreirinhas Cunhal e executada pelos seus militantes infiltrados, a todos os níveis, nas Forças Armadas. O comunicado que o COPCON publicou recentemente só vem provar que não lhes foi possível manter por mais tempo a quantidade de elementos do MRPP que estavam detidos (...)
Que pensa da mobilização realizada ultimamente pelo Partido Comunista?
Nós temos analisado a situação dos diversos sectores da burguesia, desde o Partido Comunista, até ao Partido Popular Democrático, passando pelo CDS e pelo PDC. Mas temos visto a questão, fundamentalmente do ponto de vista da classe operária. A classe operária perdeu muito nestes 14 meses depois do 25 de Abril (...) A classe operária está à procura de uma forma de se organizar para instaurar o poder que lhes compete a ela e aos camponeses (...)
Hove agora o reconhecimento oficial, por assim dizer, das comissões de trabalhadores, das comissões de moradores e de todas as organizações de base dos trabalhadores. Qual é a sua opinião sobre esse reconhecimento?
Desde Maio do ano passado, por ocasião da I Conferência Nacional do MRPP, que o nosso partido tratou dessa questão teórica (...) Para os dogmáticos e oportunistas de todas as matizes que agitam a bandeira do marxismo-leninismo, mas não fazem ideia do que isso seja, a forma de construir o poder da classe operária e dos camponeses tem sido seguida à risca por algum modelo do passado.
Eles não compreendem que, em cada país, a classe operária e os camponeses criam a forma exacta desse conteúdo revolucionário de poder. E em vez de analisarem a nossa situação, como nós fizemos na I Conferência Nacional, eles passam a aplicar dogmaticamente os arquétipos que estudaram nalgum sítio.
Adaptaram o pé ao sapato em vez de adaptarem o sapato ao pé. E não viram nem deram nenhuma importância às comissões de trabalhadores. E a nossa missão foi mostrar, junto da classe operária, que ali estava, em embrião, o núcleo fundamental do seu poder e que é preciso dedicar áquela forma nascente, genialmente criada pela classe operária portuguesa, toda a atenção dos comunistas para que, em breve prazo, viessem a poder exprimir o poder da classe operária contra esse poder da burguesia que estava cada vez mais corrupto, decadente e esfrangalhado (...)
A atitude dos revisionistas e de todos os oportunistas foi de esmagar à nascença esses órgãos, sob argumentações diversas. Se já existem delegados sindicais, para quê comissões de trabalhadores? (...) Mas a classe operária, no seu movimento revolucionário, não tem contemplações para com os filisteus e oportunistas e continuou a desenvolver a criação de comissões de trabalhadores (...)
PARTIDO SOCIALISTA ABANDONA GOVERNO
O Secretariado Partido Socialista decidiu que os seus ministros e secretários de Estado deveriam cessar imediatamente funções no Governo - revelou um comunicado do PS distribuído na madrugada de 18 de Julho de 1975. As razões do PS prenderam-se com o caso do jornal ‘República’. “Como é do conhecimento de todos, em 19 de Maio de 1975 - lembrava o comunicado - saiu uma edição pirata do ‘República’.
Raul Rêgo, director, e os redactores foram sequestrados e defenestrados. As instalações do jornal foram ocupadas por gorilas armados. E através destes processos de carácter puramente fascista, saiu um número pirata do ‘República’ nele figurando como director o senhor Belo Marques”.
O PS atribuía a ofensiva contra o jornal ao Partido Comunista , jornal esse que acabou por ser encerrado. O PS queria que o jornal fosse entregue aos legítimos proprietários, directores e jornalistas. Isso não veio a acontecer. Os Socialistas abandonaram o Governo”.
Coube-lhe um um momento único na História: anunciou, ao País e ao mundo, o Programa de Acção Política do Movimento das Forças Armadas, em 25 de Abril de 1974. Vítor Alves era major. Esteve desde a primeira hora com o grupo de oficiais que, com a bênção de Spínola, se preparavam para derrubar o regime.
Durante o PREC, opôs-se no Conselho da Revolução aos sectores militares mais destemperados: fez parte do ‘Grupo dos Nove’, que ao lado dos partidos democráticos travou a ala revolucionária e inspirou o golpe de 25 de Novembro de 1975.
REVOLUÇÃO DIA A DIA
10 de Julho -tido Socialista abandona o Governo.
11 de Julho - Encontrada uma bomba junto à Caixa Geral de Depósitos, na Baixa de Lisboa.
12 de Julho - Conselho da Revolução anuncia demissão de ministros e secretários de Estado do PS
13 de Julho - Família Mello abandona Portugal; Sede do PCP em Rio Maior é assaltada e destruída.
16 de Julho - Ministros e secretários de Estado do PPD saem do Governo; manifestações de extrema-esquerda em Lisboa e no Porto: “Governo provisório, não; governo popular, sim!”.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.