Vinte quilómetros separam dois bairros da capital colombiana que estão ainda mais distantes no que toca a condições de vida.
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As ruas não têm nome no Bairro Lisboa de Suba, na periferia de Bogotá, mas não é isso que o faz destoar do resto da cidade com mais de sete milhões de habitantes que é a capital da Colômbia, organizada ao longo de 307 quilómetros quadrados, numa rede imperfeita de artérias que correm de norte para sul e de oeste para leste, quase todas identificadas com números.
A diferença é que no bairro com nome lusitano há poucos buracos nas ruas, pois a maioria destas não tem asfalto ou qualquer outro tipo de pavimento, restando a peões, motociclistas e automobilistas a terra batida, transformada em lama quando as nuvens carregadas ultrapassam a cordilheira dos Andes.
Mas esse também não é o problema mais grave daquilo a que a imprensa colombiana chama "bomba-relógio". Construído numa curva do rio Juan Amarillo, cuja poluição é visível a olho nu, tornando essencial a estação de tratamento de águas residuais que lhe serve de porta de entrada, quando o Bairro Lisboa aparece nas notícias é provável que alguém tenha sido levado para o Instituto de Medicina Legal. A chegada de novos habitantes, forçados a abandonar outras partes do país sul-americano devido à guerrilha e às expropriações, fez-se acompanhar pelo aumento do número de traficantes e toxicodependentes. E dos homicídios, quase sempre ligados à droga.
Foi nessa parte da cidade, excluída da visita de Estado de Cavaco Silva à Colômbia e do programa da Feira do Livro de Bogotá, de que Portugal é convidado de honra até 1 de maio, que Catalina Jurado nasceu e passou os 24 anos de vida. Já então o Bairro Lisboa tinha os problemas que são enfrentados pelas dezenas de crianças, alinhadas duas a duas, que não desistem até ‘forçarem' o forasteiro cantar alguma coisa (acaba por ser o clássico ‘Atirei o Pau ao Gato') num idioma estrangeiro.
"É como um oásis no meio do deserto." Assim descreve Catalina a organização não-governamental Il Nido del Gufo (O Ninho do Mocho, em português), a que está ligada desde a adolescência. A associação italo-colombiana chegou numa altura em que "procurava respostas e amigos" e é ali que trabalha há dois anos a tempo inteiro, como gestora sociocultural e educativa. Durante todo esse tempo é a primeira vez que lhe aparece um português, pelo que é a primeira vez que confessa não saber o que leva o seu bairro a chamar-se Lisboa.
PORTUGUESA, COM CERTEZA
"Gostamos de dar nomes de outros países a bairros e edifícios. Para os colombianos, a Europa é muito importante. Isto agora está a mudar, mas antigamente as pessoas tinham de ser muito ricas para viajar", explica Alberto Granja, um pintor colombiano de 47 anos a quem só faltam alguns documentos para obter a dupla nacionalidade, pois é casado com a escultora portuguesa Cristina Matias, de 49, mãe dos seus dois filhos.
A vivenda geminada em que o casal recebe a Domingo está situada no Bairro Lisboa, mas basta espreitar pela janela para perceber que não se trata do mesmo. Cristina e Alberto vivem em Usaquén, zona privilegiada no norte de Bogotá, a cerca de 20 quilómetros das labirínticas ruas do bairro homónimo, que os dois só conhecem pela péssima fama.
O Bairro Lisboa em que vivem pode ter buracos no asfalto - "são os mesmos de há dois anos", comenta Cristina, filha de português e colombiana, que passou parte da infância no país sul-americano e voltou de uma vez por todas aos 22 anos -, mas as suas ruas distinguem-se pela pacatez que contrasta com o resto de Bogotá e por terem edifícios chamados ‘Rossio' (construído) e ‘Chiado' (em construção), muito embora não sejam fruto da iniciativa dos empresários do retângulo à beira-mar plantado que estão a investir no país sul-americano.
Realmente portuguesa, com certeza, é a casa em que o casal hasteia a bandeira verde e vermelha em ocasiões especiais. A ‘Casa Portuguesa', como assinala o azulejo do muro, serve de residência a Alberto, Cristina, Simão e Alexandre - o filho mais velho, de 21 anos, está a fazer o curso de Jornalismo, enquanto o mais novo, de 14 anos, estuda num colégio perto de casa -, de atelier à pintura dele e à escultura dela, mas também de ponto de encontro para uma comunidade portuguesa que irá em 500 ou 600 pessoas.
A meio da sala, com as paredes pintadas em tons quentes a servirem de pano de fundo aos vasos com plantas típicas da Colômbia, uma imagem da Nossa Senhora de Fátima tem lugar de destaque. "O Alberto pediu à Virgem que nos levasse para um sítio melhor", diz Cristina Matias, recordando um tempo em que a florescente economia colombiana atravessava uma profunda crise. Em vez disso acabaram por descobrir a vivenda no Bairro Lisboa na qual vivem há seis anos, levando o missionário português José Manuel Salvador Duarte, amigo deles, que está agora a apoiar a população das favelas de Medellin, a dizer-lhes que "as preces deviam ser mais concretas".
PARÓQUIA NO CENTRO
"A devoção pela Nossa Senhora de Fátima é uma das raras ligações a Portugal", diz o padre Hernando Mendonza, responsável pela paróquia de Juan Bautista Scalabrini, cuja igreja e edifício de apoio se encontram numa zona "menos densa" do Bairro Lisboa de Suba, no final de uma avenida cheia de lojas, que está a ser alvo de obras de saneamento e pavimentação.
Enquanto lá fora há quem tente vender internet de banda larga num bairro cujos edifícios têm quase todos mais tijolos do que cimento e mais cimento do que estuque, Ciomara Cañon, que trabalha na paróquia, é realista perante aquilo que a rodeia: "Não podemos ignorar que existem aqui muitas situações de toxicodependência, de vandalismo e de roubos. Mas às vezes tipifica-se o bairro inteiro pelo que alguns fazem. Há gente muito trabalhadora, a quem a vida tratou muito mal, mas que continua a lutar."
Mais desconfiada, como quase todos os seus vizinhos, Sonia Rentería, vendedora ambulante de 33 anos, solta um riso quando a Domingo lhe pergunta quais são os maiores problemas de Lisboa. "Se fizessem alguma coisa pelo bairro não haveria tantos roubos e adolescentes metidos no vício. Há tantos que roubam, que matam e que consomem", afirma, confessando nada conhecer de Portugal. A lacuna é preenchida pelo jovem Jonathan, que avança o nome de Cristiano Ronaldo, mas acredita que o argentino Messi é o melhor futebolista do Mundo, enquanto o seu amigo José prefere o extremo do Real Madrid.
CAMISOLA DAS QUINAS
Quando Alexandre, filho mais novo de Cristina e Alberto, chega das aulas e descobre que tem um jornalista em casa - o que se vai tornando habitual, tendo em conta que o interesse pela Colômbia vai aumentando -, corre a buscar uma camisola de Portugal com o número 7, a de Ronaldo, cheia de assinaturas da maioria dos jogadores vice-campeões mundiais de sub-20 em 2011, derrotados pelo Brasil por um 3-2 que desanimou a família luso-colombiana, capaz de se fazer ouvir entre um número muito superior de torcedores da ‘canarinha'.
Ter os filhos a estudar o mais perto possível de casa, situada numa "bolha de segurança", foi a prioridade do casal, mas o Bairro Lisboa de Usaquén não é isento dos perigos de uma Bogotá patrulhada de metralhadora em punho. "Nesta cidade ninguém sabe quem é quem. O homem bem vestido parado na esquina pode ser o ladrão que observa as rotinas", diz Cristina, enquanto o marido recorda, em português com sotaque andino, a ocasião em que, recém-instalado na casa nova, perseguiu e derrubou um intruso. "Um de nós tinha deixado o cadeado do portão sem estar trancado e o homem tentou levar o nosso carro. Quando o Alberto e o Simão saíram, ainda disse que era o jardineiro", acrescenta a escultora, por entre risos.
As preocupações com a segurança levam a que muitos portugueses prefiram dormir junto ao emprego. "Muitos vivem perto da embaixada, pois trabalham em edifícios daquele bairro. Percorrem um ou dois quarteirões e só usam o carro ao fim de semana ou quando vão a um evento", diz Cristina Matias, que além das obras de arte já ensinou português a médicos colombianos recrutados pelo Serviço Nacional de Saúde, numa altura em que a crise ainda não tornara Portugal um destino menos atraente.
AQUELES QUE SE PERDEM
A crise também se faz sentir no Bairro Lisboa de Suba, muito embora seja a italiana e não a portuguesa. Foi devido à diminuição dos apoios que a organização Il Nido del Gufo cortou custos, passando a contar com apenas dois funcionários a tempo inteiro. Apesar disso, criar o hábito pela leitura em crianças que tocam pela primeira vez em livros ao chegarem ao edifício, com grades nas janelas e portas blindadas na rua e no terraço, continua a ser o sonho de Catalina Jurado, tal como criar "projetos de vida" para aqueles que conseguem não se perder num um caminho marcado "por um sistema que te mete abaixo".
Na cidade de contrastes, em que os ‘recicladores' usam a força dos braços e pernas para puxarem os carros que recolhem o lixo da população mais rica, aquela capaz de fazer da Colômbia a porta de entrada na América Latina que as empresas portuguesas procuram, há que seguir o exemplo do mocho e conseguir ver bem na mais profunda escuridão.
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