Sucedem-se os casos de idosos encontrados mortos em casa. A solidão também pode matar
Reza a vizinhança que a luz da cozinha de Augusta Martinho resistiu acesa um ano. Durante esse ano a mesma vizinhança interrogou-se sobre o paradeiro da mulher "de poucas falas que não dispensava o batom vermelho garrido e o lápis preto nos olhos".
Mas um dia a luz apagou-se e a maioria foi apagando também da vida de todos os dias as interrogações sobre Augusta, afinal ainda ali tão perto de todos os moradores. Passou um ano, depois outro e outro e outro. Nos quase nove anos em que o corpo da idosa permaneceu sem vida no chão da cozinha do 4º andar direito no número 16 da praceta das Amoreiras, na Rinchoa, onde uma janela semiaberta deixava o ar entrar, muito mudou no edifício. Vizinhos foram, mudaram de poiso, outros vieram, sem suspeitar.
Nasceram crianças, muitos fizeram-se adultos, tantos outros envelheceram. Até as caixas de correio, antes na parede lateral, mudaram para as traseiras da porta de entrada depois de umas obras que não fizeram grande mossa, só barulho. Toda a gente apagou Augusta da memória depois da luz da cozinha se apagar, mas uma pessoa manteve firme uma convicção: Aida Martins sempre soube que a vizinha do 4º direito só poderia estar em casa - na casa de onde, desde que o companheiro morreu, só saía para abastecer a despensa de mercearias.
Atrás da história de Augusta, nascida a 12 de Fevereiro de 1915, veio a história de Ernesto. E a de José Jerónimo, a de Salomão, a de Januário. E a de tantos outros espalhados pelo País. Idosos que não se conheceram em vida mas partilharam uma morte igualmente só e silenciosa. Nomes que se tornaram retratos de um País envelhecido e sem laços.
A VIDA DE AUGUSTA
Na altura do desaparecimento de Augusta, Aida Martins administrava o condomínio. Trocava com a vizinha meia dúzia de palavras que não desvendavam estados de espírito ou qualquer saudade do passado. "Nunca me contou nada da vida dela. Só a vi aflita uma vez: o companheiro tinha caído na banheira e veio a correr chamar-me para a ajudar a tirá-lo de lá". Augusta nunca casou de papel passado. Também não teve filhos. Tinha seis irmãos, que deixou de ver quando abalou para Angola, onde esteve 40 anos.
"Era muito cumpridora e pagava sempre as quotas do condomínio a tempo e horas. Foi por isso que estranhei quando ela deixou de aparecer. Na altura disseram que ela estava no Algarve mas comecei a achar que era tempo a mais - ela que nem de casa saía - e comecei a minha luta", recorda Aida.
Durante anos, esta vizinha subia três andares de elevador, encostava-se à porta, tocava à campainha e cheirava. "Fartei-me de cheirar aquela porta para se ver notava alguma coisa de estranho. Mas nada: a entrada mantinha-se limpinha". A primeira tentativa que fez foi na GNR. "Fui lá e disse: ‘Estou preocupada, uma senhora do meu prédio não aparece e acho que pode estar doente'. E eles perguntavam: ‘Mas é sua familiar?'" Como não era, voltava sempre sem respostas das investidas que fazia.
E foram várias: ao tribunal, ao registo predial - a todos os sítios de que se lembrou. "Mas como eu não era família e o prédio não cheirava mal não fizeram nada. Foi aí que resolvi pegar na lista telefónica e ligar para todas as pessoas em Portugal que tivessem o apelido Martinho, como a Augusta, à procura de alguém que me ajudasse". Só quando o apartamento da idosa foi leiloado nas Finanças (por 30 mil euros) e a nova proprietária, uma mulher de nacionalidade ucraniana, se quis inteirar da casa é que descobriram finalmente Augusta. Deitada no chão da cozinha onde estava desde o Agosto quente de 2002.
"Um dos bombeiros que lá foi é daqueles que vai a todas, que dá o corpo às balas. Até ele ficou chocado com o facto do corpo estar ali há tantos anos", partilha o comandante Luís Pimentel, dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém - a corporação que foi chamada pela PSP para abrir a porta. Com décadas de experiência no ofício, a situação que mais marcou o comandante passou-se em Lisboa. "Um senhor, que estava embarcado, estranhou que a mulher não tivesse ligado durante a sua ausência e não conseguiu entrar em casa porque a porta estava trancada por dentro. Quando lá entrámos o cenário era de horror: a senhora estava a ser comida pelos 30 gatos que tinham. Tivemos de chamar uma equipa do Jardim Zoológico para ajudar com a situação".
HISTÓRICO DE SOLIDÃO
Augusta não terá cultivado grandes relações nem dentro nem fora da família. "Como ela morou em África mais de 40 anos, a maioria perdeu o contacto com ela. Veio de lá com o companheiro e raramente saía de casa", recorda o primo Armando Gaspar. "Tenho ideia de que ela foi regente escolar, que era uma espécie de professora primária mas sem habilitações. Tanto que depois foi auxiliar de educação", acrescenta Fernanda Borges, vizinha de prédio, que manteve um contacto mais constante com Augusta na altura em que o marido era o administrador do condomínio. "Às oito da manhã lá estava ela a pagar-nos, tão pontual como um relógio. E lembro-me de que certa vez teve uma infiltração de água e disse: ‘Se o seu marido não resolve deixo de pagar'". Pouco mais lhe ouviu.
Na Amadora, a poucos quilómetros de Augusta, Ernesto Fernandes Henriques, ex-PSP, também vivia sozinho e pouco falava. O saco com as compras da semana era passado pelo proprietário de uma mercearia do prédio onde morava na Mina, através de uma janela. Foi ele que estranhou a ausência e chamou a polícia. Nas duas associações onde o idoso estava inscrito, foram as notícias a desvendar o desaparecimento.
"Muitos idosos que vêm aqui não partilham nada da sua vida. Não dizem se andam bem, se andam mal", explica o secretário da associação de reformados onde Ernesto Henriques estava inscrito há dois anos. "O problema foi ele não ser muito assíduo. De vez em quando aparecia mas nem se interessava muito pelos filmes que nós temos aqui para eles estarem entretidos. Jogava às cartas, mas raramente abria a boca. Nunca lhe conhecemos família nem amigos". Diz-se que "ficou assim" depois de ter perdido a mulher.
"Acabou por fechar-se ainda mais. Apegou-se a viver sozinho e gostava de beber um copito. Bebia sozinho e sozinho ia". Henrique Monteiro, da mesma associação, revela que quando leu o nome de Ernesto nos jornais associou logo ao antigo polícia e foi confirmar aos registos. "Ainda temos o número de sócio: 564, apesar de ele não pagar as quotas desde Dezembro. Temos pena, mas não conseguimos adivinhar, ele não quis participar aquilo que estava a sofrer".
Já à União de Reformados, Pensionistas e Idosos da Amadora, Ernesto "vinha alimentar-se. Comer o almoço e o lanche. Mas não era regular, podia estar quatro, cinco dias sem aparecer nem dizer nada. Não sabíamos nada da vida dele, sentava-se quase sempre sozinho". Por isso ninguém estranhou a ausência de dez dias. Nem ninguém sequer suspeitou que o corpo de Ernesto jazia na casa onde morava sozinho.
VIZINHOS PAGAM FUNERAL
Salomão Oliveira teve fado igual na vida (pelo menos na velhice) e na morte. "Parecia ter um problema de solidão, quase uma revolta com a vida", conta o dono do café onde ia o idoso que esteve oito dias em casa morto sem ninguém saber. Sabe-se que trabalhou numa fábrica na Senhora da Hora, em Matosinhos, antes de imigrar para França, de onde regressou para cuidar da mãe. "Ele era muito autoritário e frio, mas com a mãe era um anjo. Esteve ao lado dela até a senhora morrer", conta Maria Pereira, vizinha de porta, que ajudou "com dez euros para pagar o enterro". Porque, "se cada um der o que tem pode ser que a gente consiga. Ele não se dava com ninguém em vida mas merece ter paz na morte".
A história de José Jesus Jerónimo repete os mesmos hábitos de eremita. Em Balsas, aldeia do concelho de Cantanhede, vizinhos e familiares já se tinham habituado às suas longas ausências. Com problemas de alcoolismo, ficava fechado em casa semanas a fio. "Uma das últimas vezes assustei-me e chamei a GNR para ir ver dele. Apareceu à porta, de boa saúde, e até me chamou parvo por ter chamado as autoridades. Desde aí, não voltei a procurá-lo quando ele ‘hibernava'", conta o primo, também chamado José Jerónimo.
Antigo sargento do Exército, José era uma pessoa difícil. "Não dava confiança a ninguém", conta o primo. Casado e com um filho, vivia afastado dos seus, que nunca saíram de Lisboa. Em meados de Novembro, o homem de 72 anos enfiou-se dentro de casa e nunca mais foi visto. Na semana passada, o cheiro pútrido alertou os vizinhos - bombeiros e GNR deram com um corpo em decomposição, parcialmente comido pelo cão que era a única companhia que José tolerava. A mulher e o filho continuam sem dar notícias e o corpo foi levado para o Instituto de Medicina Legal da Figueira da Foz, que vai tratar do funeral. José está sozinho na morte, como escolheu estar em vida.
BOMBEIROS PRONTOS A AJUDAR
"Connosco, não há porta que fique por abrir". O comandante dos Sapadores de Lisboa explica a forma como a corporação lida com os alertas que lhe chegam. O coronel Joaquim Leitão conta que são raros os casos em que encontram cadáveres fechados em casa, e mesmo esses são detectados ao fim de poucos dias.
Sempre que os bombeiros se deparam com alguém em isolamento, são activadas as equipas do Núcleo de Intervenção Social e Apoio ao Cidadão. "Identificamos as pessoas e avisamos a Segurança Social ou a Misericórdia. Mantemos o contacto com os idosos e já conseguimos convencer alguns a procurar ajuda ou a ir para um lar".
NOTAS
SOLIDÃO
Dados da Segurança Social dizem que há 630 mil pessoas a viver sozinhas - 390 mil têm mais de 65 anos.
SEM APOIO
25 a 27 mil pessoas idosas vivem sem qualquer tipo de apoio - nem familiar nem institucional.
AUMENTO
Até 2050, o número de pessoas com mais de 65 anos na UE vai crescer 70% e com mais de 80 anos aumenta 170 por cento.
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