Dina Gusmão, jornalista do ‘CM’, entrou no universo pessoal e 'transmissível' do escritor e jornalista Guilherme de Melo e escreveu 'Um Homem Sem Pressa'. Viagem pelas memórias de uma figura arrojada e sem medo
“Nasci no dia 20 de Janeiro de 1931, às 05h30, dois dias antes do previsto, o que podia ter sido uma premonição da minha avidez pela vida...” O livro ‘Um Homem Sem Pressa’, agora lançado pela Garrido Editores, começa assim, simples e revelador do trajecto pessoal de uma figura incontornável no panorama jornalístico português: Guilherme de Melo.
Escrito na primeira pessoa por Dina Gusmão, jornalista do ‘Correio da Manhã’ (CM), resulta num quase diário de uma existência feita de lutas. Pelos direitos dos homossexuais, pela criação de uma sociedade mais aberta, pela desmistificação de vários preconceitos e pelo entendimento do que foi e é África – Mocambique, em especial. Paira ainda sobre a obra a ideia de levar a vida ao sabor do vento e segundo total liberdade. Afinal, têm sido essas (e muitas outras) as batalhas de Guilherme de Melo. E é disso que fala este livro.
Dina Gusmão começou a escrevê-lo na sequência do convite do editor — que a conhecia das páginas do ‘CM’ — e tendo em conta que não se tinha cruzado com Guilherme Melo mais do que duas ou três vezes nos últimos dez anos. Ainda assim, assegura que nunca perdeu um título seu, nem a empatia do primeiro encontro. “A maior motivação de um trabalho destes é o prazer de dar a conhecer pessoas que me deram a mim o prazer de se deixarem conhecer”, revela Dina, que prossegue: “Entre tanta gente que chega e que parte, mais ou menos sem rasto e sem marca, há sempre alguém que fica”. O Guilherme ficou na memória da jornalista, que confirmou sem surpresa a existência de “uma pessoa de superior qualidade”.
Para escrever o livro, seguiu “o norte e às vezes o desnorte” da sua própria curiosidade, saciada em quatro sextas-feiras de Julho e 20 horas de gravação, às quais acabou por juntar um enorme trabalho de pesquisa.
A opção pelo discurso directo aconteceu porque teve consciência de que mais do que escrever uma biografia, ia rescrever, 20 anos depois, o romance autobiográfico. “Posto isto, eu lançava um tema que havia de ser capítulo e ele desenvolvia”. Tudo sob controlo, não? “Não, porque houve capítulos que sairam e outros que entraram como, por exemplo, os depoimentos da Mana Lisa, Maria Teresa Horta, Helena Marques e Urbano, ou a inclusão do poema inédito do primeiro livro de poesia do Guilherme, belíssimo, a sair por estes dias”, revela a autora, com a alegria de quem sente que cumpriu o seu dever.
Sem querer quebrar tabus, uma guerra antiga travada e vencida por Guilherme de Melo, Dina Gusmão sentiu-se empurrada por uma outra força. “A minha guerra era outra, e a quebrar alguma coisa seria, a um tempo, armários e biombos para mostrar, 20 anos depois e de uma vez por todas, o homem (além) do estandarte”. Fê-lo da melhor maneira.
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