Há 57 anos que, o biquíni se reinventa todos os anos. Do modelo cintado, usado por Ursula Andress, passando pela moda do ‘topless’, até ao ‘fio dental’, as mulheres experimentaram de tudo. O que é que virá a seguir?
Todas as tardes a jovem Heloísa Mendes, de 14 anos, vestia o biquíni e saía de casa, no Rio de Janeiro, em direcção à Praia de Ipanema. E todos os dias, a adolescente passava em frente ao café ‘Veloso’, frequentado pelo compositor António Carlos Jobim e o poeta Vinicius de Moraes. A frescura desta rapariga, de cabelos compridos, captou a atenção dos dois brasileiros. Foi a pensar nesta ‘carioca’, que Jobim e Vinicius deram vida à canção ‘A Garota de Ipanema’, lançada em 1962. O tema tornou-se num autêntico fenómeno e contribuiu para democratizar o uso do biquíni no Brasil, um dos países que mais depressa aderiu à nova moda. Não foi por acaso que ali nasceu o ‘biquíni fio dental’, já na década de 70. Já o ‘topless’ não foi tão bem recebido, ao contrário do que se passava nas praias do sul de França.
Portugal, Espanha ou Itália, maioritariamente católicos, juntam-se à lista de países sem grande tradição pelo culto do corpo. Até à década de 60, o ‘cinzentismo’ era o tom predominante nas praias portuguesas, que resistiam aos ecos de modernidade que chegavam de Hollywood. Felizmente, a criação do francês Louis Réard acabou por derrubar todas as barreiras e vingar na costa portuguesa. Aos 57 anos – celebrados a 5 de Julho – este singelo objecto continua a ser o ‘rei das praias’. As duas peças que compõe o biquíni têm conseguido acompanhar as necessidades do público feminino, cumprindo o desejo de Louis Réard, que largou o seu trabalho como engenheiro mecânico, na fábrica Renault, para tornar a mulher mais sedutora.
E DEUS CRIOU A MULHER
Os dias de Réard eram passados na loja de ‘lingerie’ da sua mãe, em Paris, na esperança de inventar uma nova peça de roupa para ser usada na praia, mais sensual e confortável. Foi assim que nasceu o conceito do fato de banho de duas peças separadas, e que deixava o ventre à mostra. Quatro dias antes da apresentação à imprensa, Louis ainda não tinha baptizado a sua mais recente criação. Foi então que o exército americano lhe deu uma ‘mãozinha’, ao agendar para dia 1 de Julho de 1946 uma série de testes nucleares no pequeno Atol do Pacífico, Bikini. O mundo inteiro ficou chocado. Cinco dias depois, esse mesmo mundo voltou a abrir a boca de espanto quando viu pela primeira vez o irreverente traje de banho. A moda de praia estava a tornar-se ousada.
“Foi a invenção mais importante deste século, depois da bomba atómica”, escreveu a editora de moda Diana Vreeland. A partir desse dia, o fato de banho completo que se utilizava na época – pouco decotado, de alças e até às coxas – ficou com os dias contados.
Como todas as manequins se recusaram a vestir algo tão ‘minúsculo’, Louis não teve outro remédio senão pedir a colaboração da ‘stripper’ Micheline Bernardini.
Apesar das críticas, o sucesso do biquíni não se fez esperar. Recebeu uma boa ajuda da parte das estrelas de Hollywood e tornou-se numa poderosa arma de publicidade para algumas actrizes, como Marilyn Monroe, Jane Mansfield, Rita Hayworth, Joan Collins, Ursula Andress, ou Brigitte Bardot. Em 1956, a francesa, de 21 anos, foi a primeira a imortalizar o biquíni no grande ecrã, no filme de Roger Vadim, ‘E Deus Criou a Mulher’. Apesar da película ter sido arrasada, a Bardot foi-lhe atribuído o título de ‘sex symbol’, ao passear-se pelas praias do Sul de França com um pequeno biquíni de xadrez. Uma imagem que, ainda hoje, vale mais do que mil palavras. A partir desse momento, as jovens europeias passaram a olhar com menos desconfiança para a moderna peça . A bela italiana Sophia Loren seguiu-lhe os passos, e nos Estados Unidos, as loiras platinadas, Marylin e Jane Mansfield ‘despiram-se’ de preconceitos e saíram para a praia de biquíni. Passou a estar ‘in’ mostrar a boa forma física.
UMA MODA PASSAGEIRA?
Com o passar dos anos, as mulheres exigiram um biquíni que se modelasse ao corpo, mais confortável e que secasse rapidamente. Nos anos 60, a marca DuPont inventou a ‘Lycra’ e a moda feminina nunca mais foi o mesma. Em 1962, as mulheres que ainda não tinham experimentado um biquíni correram para as lojas depois de terem visto a manequim Ursula Andress a emergir da água, com um modelo cintado, e extremamente ‘sexy’, no primeiro episódio da saga do espião inglês 007, ‘James Bond Contra Dr. No’. Quarenta anos depois, Halle Berry prestou homenagem a uma das ‘bond girls’ mais míticas de sempre, no recente filme ‘007 - Morre Noutro Dia’.
Como se pode comprovar, a história do biquíni não é só a evolução de uma peça de roupa, mas da própria moral da sociedade moderna. Só em 1965 é que a prestigiada revista ‘Marie Claire’ decidiu fazer uma produção de moda na Ilha Martinica, nas Bahamas, próxima do Atol ‘Bikini’, para captar imagens desta tendência, que se julgava ser passageira.
Em 1959, a americana ‘Modern Girl’ resumia numa frase o mais recente fenómeno: “Não vale a pena gastar mais tinta a falar do biquíni porque de certeza que todas as raparigas decentes nunca irão para a praia vestidas daquela maneira”. A revista estava redondamente enganada. À medida que Hollywood ia ‘descascando’ as suas actrizes, como aconteceu com Raquel Welch, Bo Derek ou Carrie Fisher, o sexo feminino foi-se mostrando cada vez mais fascinado pela criação de Louis Réard.
PAMELA NA PRAIA
O Maio de 68 e os ecos do movimento ‘hyppie’ trouxeram consigo a libertação da mulher e, consequentemente, a redução do biquíni, que passou a ser cortado de uma forma mais simples: dois triângulos em cima, dois em baixo. E tudo preso por cordéis. Resultado: o bronzeado era total. Nos anos 70, o ‘biquíni fio dental’ – um modelo tão pequeno que dava para fazer três iguais ao lançado em 1946 – já reinava nas praias cariocas e um pouco por toda a costa italiana e francesa. As mais corajosas seguiram as tendências ousadas do americano Rudi Gernreich, o homem por detrás do conceito do ‘topless’, e dispensaram a parte de cima do biquíni. As praias nunca mais foram as mesmas.
Com a chegada da década de 80, assistiu-se a um fenómeno no mínimo curioso: as vendas de biquínis e tangas decaíram mais de um terço. As mulheres viraram-se outra vez para os fatos de banho, mais conservadores, e deram sinais de estarem já cansadas das duas peças. Felizmente, em 1993, uma lufada de ar fresco invadiu o mercado dos biquínis. A americana Gabrielle Reece, praticante de voley na praia, tornou-se na imagem de marca desta nova vaga, ao trocar a ‘tanga’ cavada por um biquíni desportivo, 100% lycra, perfeito para a prática de desportos. Esta singela atitude influenciou as mulheres dos anos 90 que, de repente, tinham alternativa e podiam voltar a descobrir o umbigo sem ficarem ‘demodé’. Mas, nos anos 90, o fato de banho vermelho, cavado nas coxas e decotado, acabou mesmo por ser o ícone da época e um fenómeno de vendas. À custa de uma certa loura, de nome Pamela Anderson, a actriz da série ‘Marés Vivas’.
Em 57 anos, o biquíni conseguiu acompanhar a evolução da sociedade. E quando parece estar a perder terreno para a concorrência, eis que volta a surpreender. O que será que o futuro lhe reserva?
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