A 200 quilómetros de Lisboa, num Tejo sem cacilheiros apinhados de gente, um grupo de homens entrega os dias à pesca. São rostos de trabalho e histórias de gente, que ainda precisa do rio para viver.
Quatro e meia da manhã. O Tejo encontra-se submerso numa neblina intensa. O frio não convida a sair da cama, o negócio está fraco, mas é necessário “ganhar mais qualquer coisa para viver”. Sem acordar a mulher, Manuel Ramos abandona o conforto do leito, prepara o pequeno-almoço e parte, ainda o Sol não nasceu, em direcção ao rio. As águas estão serenas, apesar do nevoeiro. Num barco de madeira de pinho, sem muitas camisolas, porque não é homem de frio, inicia a pesca do lagostim. “Agora, não há muito e, mesmo aquele que existe, não se consegue despachar ”, queixa-se.
Este homem de 67 anos, reformado da Carris, é um dos cerca de 20 pescadores do Arneiro, uma aldeia do concelho de Nisa e a última do ‘além-Tejo’. A única terra da região em que a população ainda vive, essencialmente, do rio. Quase todos eles estiveram ausentes e regressaram após a reforma. “Trabalhei dez anos como ferroviário. Vivia no Entroncamento. Puseram-me na pré-reforma e, como já era a vida dos meus pais, vim para isto”, conta Manuel Ramos. Agora, é dos mais madrugadores e também dos mais pontuais a explorar estas águas tranquilas: “Venho de segunda a domingo. E não se pode falhar um dia nem uma hora. Só por altura da apanha da azeitona é que deixo isto”.
Nas primeiras horas da manhã, vários pescadores chegam ao rio. Libertam os barcos atracados no pequeno cais e começam a recolher as redes, onde foram depositados restos de comida, maçãs, sardinhas e outros detritos, que servem de isco para o lagostim. Ficam espalhadas pelo meio ou à beira do rio, com algumas pedras a segurá-las. É uma rotina diária. Cada pescador tem cerca de 50 redes, mas a quantidade de armadilhas depende, esclarecem os pescadores, “da vontade de cada um”. Da mesma forma que ninguém é obrigado a ir, pois cada homem está por sua conta e risco. Apesar da liberdade de horário, todos sabem que o dinheiro que ganham ao final da semana depende da dedicação que entregam à actividade.
Olívio Ramos, 72 anos, trabalhou numa fábrica de extracção de óleos de bagaço, em Vila Velha de Ródão. Com a falência da empresa, viu-se obrigado a encontrar outra forma de subsistência, a mesma que os seus pais lhe ensinaram: a pesca. “Antes apanhávamos de tudo: boga, lampreia, carpa, achigã. Agora, as pessoas já não procuram peixe do rio. E também já não abunda, pois os lagostins comem as ovas”. Olívio Ramos é pescador há 45 anos, mas nunca se perdeu de amores pela dureza da profissão: “Ando cá por gosto. É mais uma ajuda para a reforma. Com 247 euros, quem é que se governa?”. Embora não seja tão assíduo como Manuel Ramos, o irmão mais novo, ele sabe que não pode passar sem o trabalho: “No Inverno, venho mais ou menos, dia sim, dia não. Isto é uma actividade muito fraca, sobretudo até Março. Nem dá para comer, mas sempre é uma ajuda”.
O sentimento de desagrado que Olívio Ramos sente não é partilhado por Sérgio Rosa, um dos mais jovens pescadores do Arneiro. Completou a escolaridade obrigatória. Aos 17 anos, foi para a tropa. Quando regressou, não existiam muitos sítios onde trabalhar. No entanto, Sérgio saltou de obra em obra até decidir que não era essa a actividade onde queria permanecer: “Prefiro isto. Ninguém me chateia. Levanto-me às horas que quero. Entretenho-me com os lagostins. Aqui, uma pessoa anda sem ser mandada. Só que, no Inverno, são precisas duas ou três horas para pescar 15 quilos”. Na companhia do pai e do Preto, um cão rafeiro viciado em andar na água, parte na carrinha de caixa aberta, rumo ao rio, onde tem um pequeno barco a motor e outro artesanal. Sérgio Rosa é dos poucos jovens que ainda se mantém na profissão. “A maioria das pessoas trabalha em Castelo Branco ou Portalegre. Emprega-se em fábricas ou serviços públicos. Por exemplo, só do Arneiro saíram 57 polícias. Mas eu não me quero ir embora. Campo é campo. E ninguém me tira isto”, justifica-se.
Após uma manhã de trabalho, os pescadores regressam a casa. É tempo de tratar das hortas e dos outros afazeres longe do Tejo. Os lagostins ficam no rio, numa espécie de viveiro improvisado, onde se mantêm até quarta-feira, quando o comerciante, a quem chamam ‘patrão’, os vem buscar.
VENDAS À QUARTA-FEIRA
Chega o dia da venda. Assim que o Sol espreita, os homens do Arneiro dirigem-se ao rio. Retiram os lagostins e levam-nos para um espaço coberto, na aldeia, onde são pesados e distribuídos por caixas. Desde o Natal que o ‘patrão’ não vinha à terra. Mas mesmo assim, apenas calha cem quilos a cada um. “O consumo está fraco. Até dizem que, se calhar, vamos ter de parar por uns tempos. Há semanas que recebemos apenas três ou quatro contos (15 ou 20 euros)”, lamenta Olívio Ramos, enquanto se prepara para devolver as sobras dos lagostins ao viveiro.
Cada homem descarrega o lagostim, que depois é pesado e acondicionado em caixas. Passam um recibo, pois - garantem - “aqui tudo é legal e documentado. Desde que ando nisto que aponto tudo num caderno. Por isso, sei dizer aquilo que ganho”. E não é muito ou quase nada. O valor do quilo varia de semana para semana, de estação para estação. “Tanto pode ser um euro como 50 ou 60 cêntimos. Mas é sempre pouco”, diz Francisco Pinto, 71 anos, pescador há meio século e um dos mais experientes. “Comecei com a idade de cinco anos. Conheço os rios todos: Minho, Douro, Guadiana… Já dei umas voltas; sempre por conta própria. Estive numa fábrica de têxteis, no Retaxo, como guarda-nocturno, mas só havia gatunos. Chegaram-me a roubar encapuçados. Os proprietários não me permitiam ter uma arma para me defender e larguei aquilo”, conta. Os filhos estão fora e a mulher já se habituou a esta vida, sem sobressaltos. “Aqui, o rio é pacífico. Nunca acontece nada.”
Francisco Pinto lembra-se dos tempos em que, no Arneiro, “toda a gente era pescador. Até as mulheres”. “A minha andava comigo todos os dias. Chegámos a dormir muitas noites no barco, mas desde que partiu a anca foi obrigada a deixar”, recorda Olívio Ramos.
A conversa passa de boca em boca, ao mesmo tempo que os homens, atarefados, embalam os lagostins. Almiro Fernandes, no negócio há 12 anos, vem todas as quartas-feiras de Salvaterra de Magos para ajustar contas com os pescadores do Arneiro. Compra lagostins do Sul do País até à região de Aveiro, mas confirma que “os melhores são estes e os da barragem do Alqueva”. “São diferentes. São limpos e cheios de carne. A espécie é maior ou menor, melhor ou pior, dependendo do meio ambiente. Tem que ver com a água; estes são mais esverdeados do que os lagostins do arroz.”
Os pescadores também se mostram peritos em avaliar a qualidade dos lagostins que pescam, mas apenas pela experiência da recolha nas águas do Tejo e da selecção final. Prová-los, dizem, “nem pensar”. Olívio Ramos confessa apenas ter comido uma vez, mas afirma que “foi a primeira e a última”. É que – confessa – “só de ver do que eles se alimentam me enoja”.
No local da venda, uma carrinha cheia de caixas com mil e tal quilos de lagostins vivos prepara-se para partir rumo ao Sul de Espanha. É para o país vizinho que, todas as semanas, segue a encomenda. Ao chegar ao destino, o sócio de Almiro Fernandes encarrega-se de distribuir os crustáceos por lojas, hipermercados e restaurantes. “Isto lá vende-se como as sardinhas em Portugal. É típico. Grelham-nos, cozem-nos, são confeccionados em paelhas. Os espanhóis, sobretudo, os do Norte e do Sul do país, dão-lhes imensas utilidades. Cá, quase não se consome.” Almiro Fernandes encerra os pagamentos.
Depois de receberem o salário da semana – no Inverno, nunca mais de 70 euros –, e limpar o local de venda, os pescadores regressam a casa ou vão beber um copo ao café. Até Março, o negócio será “naturalmente, fraco”. Mas a vida continua igual, com a azáfama da pesca do lagostim a aumentar a partir de Maio. Nessa altura, afiança Francisco Pinto, “a gente até acorda mais cedo e com mais gosto. Agora, quase não dá, mas temos de continuar”. É a vida.
LAGOSTIM DO LOUISIANA
A pesca ao lagostim, no Tejo, é uma actividade relativamente recente. Há 15 anos, um grupo de espanhóis percorreu a zona e encontrou vestígios da espécie “Procambarus Ckankil”, mais conhecida por 'lagostim do Louisiana'.
Apesar de não existir nenhum estudo, os especialistas suspeitam que estes exemplares tenham origem numa tentativa de povoamento há 30 anos, numa barragem do Guadalquivir, em Espanha. Na altura, 500 quilos de lagostins do Louisiana foram trazidos para o local. A teoria dos peritos é que as ovas se deverão ter espalhado por vários rios, agarradas às patas das aves.
Após a descoberta, foi necessário persuadir a comunidade local a pescar os crustáceos. Segundo Almiro Fernandes, "foram precisos dois anos para os convencer". Ainda por cima, a qualidade estava assegurada dadas as condições ambientais do rio. Curiosamente, os melhores lagostins da espécie, na opinião do empresário, "foram encontrados bem perto daqui. Mas desapareceram".
A ALDEIA DA ALEGRIA
Diz, quem lá mora, que na zona não existe aldeia mais animada do que o Arneiro. A aldeia, com cerca de 1200 habitantes, tem dois restaurantes, muitos cafés e, relata a população, "não há semana que aqui não venha um feirante ou que não haja uma festa". Ninguém sabe explicar o porquê desta aldeia não ter sofrido a mesma sina das povoações do interior, mas todos acreditam ser o rio Tejo, o motivo da jovialidade da terra. Apesar de muita gente ter partido, muitos regressam, assim que se reformam para continuarem a trabalhar, no rio.
Há ruas com nomes alusivos à actividade piscatória e não é difícil perceber que, aqui, a vida sempre girou à volta do Tejo. Um rio de tranquilidade arrebatadora, onde ainda existe um barqueiro para atravessar os passageiros que chegam à estação do Fratel, na Beira Baixa.
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