Parti para Angola depois do 25 de Abril. Os combates já tinham acabado fora de Luanda, mas a capital foi tomada por uma espiral de violência
O 25 de Abril de 1974 apanhou-me em Chaves, onde se estava a formar o batalhão com o qual haveria de partir para Angola. Naqueles meses em que se repetiam nas ruas do País frases como "nem mais um soldado para as colónias", cheguei a ter esperança de não embarcar, mas o nosso destino era mesmo África.
Tinha feito a especialização de atirador de infantaria, pelo que sabia que não iria escapar aos combates. Em 14 de Agosto 1974, o pessoal do Batalhão 5017, onde se integrava a minha 2ª Companhia de Caçadores, partiu de Viana do Castelo num comboio especial para Lisboa, a fim de embarcar num Boeing 747 da TAP para Luanda.
CIDADE CALMA
Como todos os militares que vinham da metrópole, à chegada a Angola fomos encaminhados para o quartel do Grafanil, perto de Luanda, onde aguardávamos as ordens para seguir para outra região. Eu tive sorte, um amigo que estava mobilizado em África veio de férias a Portugal na altura da minha partida e emprestou-me as chaves de casa e da sua mota. Não fiquei assim a dormir nas casernas. Naqueles primeiros dias, conheci uma Luanda tranquila. Vivi as maravilhas da noite da cidade, conhecida pelos bares, as praias e os rituais de iniciação nas casas de meninas dos musseques.
A nossa companhia partiu para Cambamba, a norte de Luanda, relativamente perto de Carmona. À chegada, as diferenças saltavam à vista: os ‘maçaricos’ com um rosto fechado e desconfiado, os ‘velhinhos’ de sorriso aberto e foliões, aguardando o tempo de fazer o percurso inverso ao nosso. Tentávamos explicar ao inimigo que a guerra estava para acabar. Deixávamos panfletos nos trilhos dos guerrilheiros do FNLA, convidando-os a vir ter connosco. E, de facto, várias vezes convivemos com eles.
Vivíamos uma época especial e eu, com a ingenuidade própria dos 21 anos, acreditava que tudo se ia resolver pacificamente. Em Novembro de 74, fomos para Nambuangongo. Aí, a nossa acção já não passava tanto pela acção psicológica. Viviam-se tempos pacíficos. Os grandes inimigos eram o clima e o paludismo.
Tive durante a comissão no Ultramar um enorme apoio familiar e, sobretudo, uma grande cumplicidade com uma namorada que me aguardava serenamente em Lisboa, trocando comigo muitas palavras de encorajamento e confiança num regresso libertador, onde tudo acabaria em paz e amor.
LUANDA A FERRO E FOGO
No Verão de 1975, as coisas complicaram-se. Fomos para Luanda, com a missão de patrulhar as ruas. No início, fazíamos rondas com elementos da UNITA, MPLA e FNLA, mas rapidamente estalou o conflito entre eles. Os tiroteios repetiam-se nas ruas, e nós estávamos no meio. Os civis portugueses eram vítimas de todo o tipo de retaliações, e não tínhamos soldados suficientes para os proteger. Recordo com mágoa o ataque ao Hospital de S. Paulo. Havia mortos e feridos, e fomos deslocados para proteger o edifício. Um camarada morreu nesse tiroteio. Foi a única baixa em combate da nossa companhia.
Partimos de Luanda em 30 de Setembro de 1975. Fomos uma das últimas companhias a deixar Angola. Saímos com a certeza de que o país ia mergulhar numa guerra sangrenta, mas eu estava aliviado de ter sobrevivido. Receios e respeito pelos perigos, houve muitos em diversas circunstâncias em Angola, mas medos, esses ficaram na casa dos pais, nas noites por dormir da mãe que aguardou meses e meses de coração apertado.
PERFIL
Nome: Henrique Durão
Comissão: Angola (1974-75)
Força: Batalhão de Caçadores 5017
Actualidade: Casado e com dois filhos, vive em Alfornelos. Tem 60 anos e está reformado
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