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Cantigas de escárnio: erotismo para rir

Trovadores medievais ‘inventaram’ o vernáculo para “dizer mal”.

07 de julho de 2019 às 10:00

Desde o início da quase milenar existência de Portugal que os nossos antepassados seriam de histórias que misturavam sátira e sexo. Os trovadores que por cá adaptaram o modelo original do Sul de França criando as cantigas de amor e de amigo criaram as de escárnio e maldizer. A diferença entre estas duas reside no facto de as de escárnio satirizarem pessoas ou situações sem identificarem concretamente os alvos, enquanto que as de maldizer chamam ‘os bois pelos nomes’.

Sabe-se muito pouco dos trovadores que nos deixaram estas poesias de importância seminal para a nossa língua e para a nossa literatura, recolhidas em coleções como o ‘Cancioneiro da Biblioteca Nacional’ ou o ‘Cancioneiro da Vaticana’. Um dos raros conhecidos é o rei de Castela Afonso X, ‘o Sábio’ (1221-1284), autor de livros de história, de direito, de astronomia, de jogos, além de poesia religiosa e trovadoresca. Entre os mais representativos autores de cantigas de escárnio e maldizer conta-se o minhoto Martim Soares, ativo entre 1220 e 1260.

Da mesma época foi o galego Afonso Anes do Cotom, cujas cantigas foram escritas por volta da década de 1240. Segundo o livro ‘Cantigas medievais galego-portuguesas: corpus integral profano’, coordenado por Graça Videira Lopes (ed. Biblioteca Nacional de Portugal), terá pertencido à pequena nobreza e nascido próximo de Santiago de Compostela. Destaque ainda para Fernando Esquio, galego que terá escrito as suas trovas na viragem do século XIII para o século XIV. 

Do livro ‘Cantigas Medievais galego-portuguesas’, coord. Graça Videira Lopes, ed. Biblioteca Nacional de Portugal

De Fernando Esquio

"A um frade dizem escaralhado [impotente]

e faz pecado quem lho vai dizer,

Ca [porque], pois el sabe arreitar de [endireitar para] foder,

cuid’eu que gai [alegre] é, de piss’arreitado [pénis ereto];

e pois emprenha estas com que jaz [se deita]

e faze filhos e filhas assaz,

ante lhe dig’eu bem encaralhado [potente].

Escaralhado nunca eu diria, [...]

ao que tantas molheres de leite

tem, ca lhe parirom três em um dia,

e outras muitas prenhadas que tem;

e atal frade cuid’eu que mui bem

encaralhado per esto seria.

Escaralhado nom pode seer [...]

que tem ora outra pastorinha

prenhe, [...]

e outras muitas molheres que fode;

e atal frade bem cuid’eu que pode

encaralhado per esto seer."

De Afonso Anes do Cotom

"Mari’Mateu [Maria Mateu], ir-me quer’eu daquém [daqui],

porque nom poss’um cono baratar [arranjar]:

alguém que mi [me] o daria nõn’o [não o] tem,

e algu[ém] que o tem nom mi [não me] o quer dar

Mari’Mateu, Mari’Mateu

tam [tão] desejosa ch’ [tu] és de cono com’eu [como eu]! [...]"

 

De Afonso X de Castela

"Ao daiam [deão] de Cález [Cádiz, cidade conquistada aos mouros por Afonso X] eu achei

livros que lhe levavam de Berger,

e o que os tragia preguntei

por eles, e respondeu-m’el: - Senher [Senhor],

com estes livros que vós vedes, dous [dois],

e con’os outros que el tem dos sous [seus],

fod’el per eles quanto foder quer. […]"

 

De Martim Soares

"Pero Rodriguiz, da vossa molher

nom creades [acrediteis] mal que vos home diga,

ca [porque] entend’ [entendo] eu dela que bem vos quer,

e quem end’al [outra coisa] disser, dirá nemiga [calúnia];

e direi-vos em que lho entendi:

em outro dia, quando a fodi,

mostrou-xi-mi [mostrou-se-me] muito por voss’amiga.

Pois vos Deus deu bõa [boa] molher leal,

nom tenhades per nulha jograria [não aceiteis, nem por brincadeira]

de vos nulh’home dela dizer mal [que alguém vos diga mal dela],

ca lh’oí [ouvi] eu jurar em outro dia [...]

e, por veerdes ca vos quer gram bem,

nom sacou ende mi [nem me tirou para fora], que a fodia.

Galego-português

As cantigas de escárnio e maldizer foram escritas em galego-português, a língua comum a Portugal e à Galiza entre os séculos IX e XIV.

Reis trovadores

Marotice na catedral

Igrejas românicas e góticas em Portugal, Espanha e França exibem esculturas obscenas, segundo uns com intuitos didáticos, mas, segundo outros, satíricos.

Cornos à porta

Só em 1751 uma lei do Marquês de Pombal proibiu o costume de pôr cornos à porta de maridos enganados e de mulheres adúlteras.

Cantigas ao desafio

Esta manifestação do folclore em que se troça de vizinhos e conhecidos é uma sobrevivência das cantigas de escárnio e maldizer medievais.

‘O Nome da Rosa’

Os amores proibidos dos frades, como na cena erótica do filme baseado no livro de Umberto Eco, inspiraram cantigas de escárnio e maldizer.

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