Cinco operacionais foram engolidos pelas chamas. No terreno, muita coisa pode ter falhado.
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Cátia Pereira Silva, 21 anos, nasceu em Londres, adorava tatuagens e, de volta à terra, Carregal do Sal, quis ser bombeira. Bernardo Ribeiro, 23 anos, era um exemplo: bom aluno, vizinho prestável, desportista nato. Ana Rita Pereira, 23 anos, mãe extremosa, neta dedicada, uma "mulher de armas", segundo todos os homens da corporação de Alcabideche. Pedro Rodrigues, 41 anos, futuro socorrista, superou a deficiência para chegar aos bombeiros da Covilhã. António Ferreira, 38 anos, pai, marido, um "homem bom", nas palavras embargadas dos vizinhos de Miranda do Douro. Ficaram todos cercados. O fogo não quis saber.
O momento é de pesar, mas também de reflexão quanto à eficácia das estratégias que estão a ser usadas no combate aos grandes fogos florestais. "O que menos importa agora é a área ardida. Agora é preciso salvaguardar a vida dos bombeiros. É preciso fazer um combate defensivo, ou seja, não ir ao encontro do fogo mas fazer a sua contenção. Abrir aceiros, ou seja, caminhos para progredir e clareiras onde se possa não só montar o dispositivo operacional como confinar o incêndio. Nem que seja preciso usar máquinas de arrasto e motosserras, para deitar abaixo árvores. É preferível perder árvores, do que deixar arder as pessoas." As palavras contundentes são de Fernando Curto, presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais (ANBP), para quem é "inadmissível pôr bombeiros em frentes de fogo que são impossíveis de combater" e em áreas de floresta "impenetráveis".
Depois, para o responsável dos bombeiros profissionais, é preciso reorganizar o comando e as equipas. "Tem de haver sempre possibilidade de fuga, linhas de água, caminhos, tem de se esperar pelos meios aéreos", avisa. Em zonas íngremes, onde o efeito chaminé naturalmente ocorre, os bombeiros "não podem descer para os vales para serem engolidos pelo fogo que, nestes casos, galga com uma rapidez incrível as encostas de ambos os lados, deixando-os cercados".
Outra situação que Fernando Curto considera grave passa pela desadequação do EPI [Equipamento de Proteção Individual]. "A esmagadora maioria dos bombeiros não tem material adequado, nem mesmo os FEB [Força Especial de Bombeiros], pois o equipamento que lhes foi fornecido já está desgastado. O mais vergonhoso é que a maioria tem de comprar o seu próprio equipamento", frisa.
Os problemas dos bombeiros vão muito além das frentes de fogo. "A formação nos voluntários nem sempre é regular, organizada e suficiente. A maioria não tem hipótese de treinar a condição física, que tem de ser elevada, precisamente porque tem outras profissões e não tem tempo." Para ser aceite nos bombeiros profissionais são necessárias 1800 horas de formação e treino, para os voluntários apenas 350 mais um estágio de seis meses. Durante esses seis meses, o voluntário apresenta-se no quartel quando pode para os piquetes, e, muitas vezes, nesses períodos, não faz trabalho de operacional mas antes de transporte de doentes. Ainda assim, "tanto voluntários como profissionais fazem os exames para a progressão na carreira coordenados e regulamentados pela Escola Nacional de Bombeiros, no entanto, os profissionais ascendem consoante o número de vagas e os voluntários automaticamente, desde que tenham obtido nota positiva no exame", explica, por seu turno, Sérgio Carvalho, presidente do Sindicato de Bombeiros Profissionais.
Por isso, a questão da "profissionalização e da criação de um corpo único de bombeiros" também deve ser repensada.
Mas a maioria, sejam profissionais ou voluntários, também combate as chamas muito para além do que deveria ser permitido: quatro horas, seguidas do triplo do descanso. "As equipas deveriam ser mistas (de bombeiros locais e ajudas externas), porque o bombeiro não pode ficar perdido no teatro de operações por não conhecer o terreno", acrescenta Fernando Curto. O presidente da ANBP reconhece ainda que poderiam ser usados meios mais eficazes: como a calda retardante (um pó colorido com que os meios aéreos pulverizam as labaredas e que ao colar-se à árvore impede a propagação e facilita a extinção do fogo), ou aditivos que se colocam nos tanques para que a água seja mais eficaz. "Só que custa caro e é muito raro ser usado em Portugal", frisa.
Pedro Mendes, antigo comandante de bombeiros, agora ligado à Proteção Civil, defende igualmente que há coisas que devem ser "repensadas para o futuro" mas que o presente tem de ser "uma atitude defensiva": "Mesmo que para isso ardam árvores e até casas. Se as pessoas tiverem limpo o mato em redor, tal como manda a legislação, não arde": O problema, para Pedro Mendes, reside cada vez mais no facto de "termos cada vez maiores extensões de floresta desordenada e que não é limpa, devido à desertificação e desaparecimento de zonas rurais", um meio de travagem natural dos incêndios.
VIDAS PERDIDAS
No prédio onde Bernardo Figueiredo morava, a saudade já enche os olhos de Rosário Varela Pinto, vizinha. "Era um bom menino. Sempre com um sorriso nos lábios, um bonacheirão. Tinha uma vocação inata para ajudar. Muitas vezes, carregou-me os sacos do supermercado. Vou ter saudades é das nossas longas conversas sobre cães, quando ambos passeávamos os nossos, nas traseiras do prédio", recorda.
Desde que soube da sua morte, Rosário tem matutado mais vezes sobre a razão que terá levado Bernardo a querer ser bombeiro. "Nunca lhe perguntei. Desconfio que talvez fosse para compensar o facto de não ter entrado para o curso de Enfermagem".
Bernardo combateu as chamas no infernal incêndio da Serra do Caramulo durante uma hora. Tinha-se oferecido para render os colegas. Ficou com 25 por cento do corpo queimado e sucumbiu aos efeitos da inalação do monóxido de carbono. Deixa, inconsoláveis, os pais e uma irmã gémea, Francisca, que assim se despediu dele no Facebook: "És o meu orgulho. Saudades".
Perto de casa, no Clube Nacional de Ginástica, na Parede, Bernardo sagrou-se campeão regional de voleibol. Radoslav Peytchevv, o treinador, lembra um atleta "persistente, exigente, muito vivo. Motivava muito os outros. Gostava de ajudar, de estar ao lado daqueles que amava", confessa o professor que, por isso, não estranha que Bernardo tenha seguido o destino dos bombeiros.
No Instituto Superior Técnico, onde Bernardo Figueiredo frequentava a licenciatura de Engenharia de Telecomunicações e Informática, era aluno dedicado, com média de 15. Carlos Coelho, o comandante dos Voluntários dos Estoris, a corporação que integrou aos 18 anos, conhecia bem o empenho escolar do soldado. "Quando ele tinha de fazer plantão noturno trazia muitas vezes o portátil para ir estudando. E ainda dava explicações de matemática a outros bombeiros", revela.
Na família não corria o sangue de mais nenhum bombeiro. Bernardo foi o primeiro. Já tinha experiência em grandes incêndios (em zonas como a Guarda, Viana do Castelo e Vila Real), mas isso não bastou para fintar a ira do fogo, o mesmo que levou também a bombeira de Alcabideche, Ana Rita Pereira. Bernardo ainda foi socorrido e transportado para o Hospital de São João, no Porto. O seu prognóstico foi sempre muito reservado. Estava rodeado pela família quando as máquinas foram desligadas.
João Récio era colega de Bernardo no Instituto Superior Técnico: "via-o sempre a sorrir, mesmo durante as noitadas de estudo. Não havia nada que o desanimasse", recorda.
Uma foto de Bernardo correu o País nas redes sociais, nos jornais, nas televisões. O País que até então desconhecia o rosto do seu soldado ficou de luto. Na foto, Bernardo, como sempre, sorria.
A "MENINA" DA ATROUZELA
Na Atrouzela, aldeia perto de Alcabideche onde Ana Rita Pereira viveu toda a vida, os olhos fixam o chão à passagem de um carro de reportagem. Todos conheciam desde a meninice, todos anteciparam o "aperto no peito" que anda a consumir os dias de Joaquina Pereira Casquinha, a avó paterna que criou Ana Rita como filha. Por isso, mesmo quando todos já sabiam da tragédia nenhum correu ao casal de Santa Luzia para lhe contar. "Eu percebi logo que havia alguma coisa mal. Os meus compadres chegaram aqui e levaram a menina (Madalena, a filha de Ana Rita), a vizinha apressou-se para dentro de casa. Quando o meu filho chegou, a dizer-me que não conseguiam falar com a Rita, pedi-lhe logo que me contasse a verdade", suspira Joaquina, lágrimas embargadas porque "não pode chorar" à frente de Madalena, a filha de Ana Rita, que agora irá criar com a ajuda dos avós paternos da menina, Isabel e José Carvalho (bombeiro).
Ana Rita tinha entrado de férias do serviço de auxiliar de ação médica no Hospital de Cascais no dia em que se fez à estrada para o incêndio de Tondela. Fez a mala com roupas "que davam para mais cinco ou seis, iogurtes, dois pacotes de madalenas e montes de vernizes", recorda o primo João Pereira, igualmente criado pela avó Joaquina, na mesma casa. "Éramos como irmãos". Por isso, quando abriu a mala que veio sem dono de Tondela, descobrindo tanta e tão inadequada bagagem para um incêndio, não conseguiu deixar se sorrir. "Ela era mesmo assim: para onde quer que fosse ia carregada de roupas, maquilhagem, champôs e comida. Era muito vaidosa. Isto era mesmo coisa dela."
Caso tivesse regressado viva, nessa mesma mala, trazia uma boneca para a filha. Ana Rita tinha o 9º ano de escolaridade e um curso profissional de cabeleireira. Nos bombeiros tinha efetuado o exame para passar à categoria de segunda classe, no qual obteve nota máxima. O pai, José Pereira, ex-bombeiro, acrescenta outros predicados: "Tinha uma força bruta. Era capaz de arrastar quatro homens a puxar as mangueiras. Só que caiu, coitadinha, por causa do fumo". Quem lá esteve garante que não havia nada a fazer.
Desde o início do ano, morreram cinco bombeiros e dezenas ficaram feridos. A mortandade começou com o mês de agosto, dia 1, que foi o último para António Ferreira, levado pelo fogo em Miranda do Douro. Pedro Rodrigues morreu a combater um fogo na Covilhã no dia 15. Na última semana juntaram-se a eles Ana Rita, Bernardo e Cátia, que morreu esta quinta-feira.
UMA MENINA QUE TINHA NOS BOMBEIROS "A FAMÍLIA"
Da sorte não reza a história de vida de Ana Rita. Aos sete meses foi abandonada pela mãe, ficando aos cuidados da avó Joaquina, que "fazia-lhe chuchas de marmelada para que não chorasse quando sentia a falta do leite da mãe".
Os bombeiros eram a sua segunda casa, até porque dela faziam também parte o pai, os primos e os tios.
As colegas de farda puseram-lhe a alcunha de ‘Popota'. Ultimamente, andava feliz da vida. Estava a tirar a carta de condução e fazia planos para se juntar ao namorado debaixo do mesmo teto. O pai, José Pereira, lembra a sua maior traquinice: "Ter-me aparecido grávida, aos 18 anos. Era muito cedo. Ainda tinha muito por fazer." Não obstante, a neta, de 4 anos, foi "também a maior alegria que me deu, nove meses depois".
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