Com o Vitória de Setúbal a viver no fio da navalha e a morte do futebol profissional no Farense, são cada vez menos os clubes do Sul a darem toques na bola. Uma hecatombe sem fim à vista, acentuada nas últimas três décadas.
Jorge Madeira agarra-se à vedação enferrujada do Estádio de São Luís. Apoia os cotovelos no gradeamento e espreita por entre aqueles quadradinhos de onde noutros tempos via grande futebol. O relvado está deserto, as bancadas vazias, os holofotes apagados. Um silêncio sepulcral invade o recinto, cortado a espaços pelo latir dos seus cães, trancados num anexo a poucos metros de distância.
Olhos fixos no vazio, a mente salta os muros do estádio, viaja por aquela altura em que palmilhava a Europa num camião de longo curso. Passaram 20 anos desde que se deixou de tal vida para vestir a camisola do Sporting Clube Farense, tornar-se pau para toda a obra. “Nesta casa já fui homem dos sete ofícios. Estive como porteiro, fui mulher de lavandaria e de limpeza, roupeiro, motorista, guarda, e hoje cuido da relva. Só me falta ser médico.”
A nostalgia invade-lhe o rosto. Apesar da dureza da labuta, estava melhor agarrado ao volante, pensa para com os seus botões. Se soubesse as partidas do destino, nunca tinha abandonado o asfalto. Agora passa por aflições. Vai para nove meses que o ordenado não lhe cai nas mãos. As dívidas amontoam-se no restaurante onde mata a fome e morre de vergonha por não saber quando poderá pagar a factura.
Os olhos enchem-se de lágrimas ao falar de um recente jejum de três dias, quando o estômago lhe abraçou as costas. “Já viu o que é um tipo ser obrigado a mendigar por dez euros para comprar umas carcaças e 200 gramas de queijo e fiambre? Em 55 anos passei muitas crises, inclusive aqui, porque os problemas económicos não são novos, mas nenhuma tão grande e profunda.”
Jorge sente como ninguém o descalabro desportivo do Farense. Mora num cantinho do estádio há duas décadas, preso a quatro paredes onde o luxo se fica por uma televisão e uma máquina de lavar roupa. Foi dali que assistiu a grandes futeboladas, quando os ‘três grandes’ enchiam as bancadas. “A minha maior alegria foi ver o clube ganhar várias vezes ao Benfica. Aquilo é que eram tempos de ouro.”
Fernando Nobre, vice-presidente do Farense, também presenciou as batalhas de David contra Golias. “O meu pai tinha um historial muito grande neste clube, como enfermeiro e massagista, e quando ele morreu deixou-me o espírito de ajuda à instituição. Há 20 anos comecei a tratar esta casa como a criança que vi nascer, que passou pela adolescência, pela idade adulta e que agora está numa fase de velhice, prestes a morrer”, dizia a poucos dias do anúncio oficial do fim do futebol sénior.
Antes de enveredar pelo dirigismo, Fernando podia ter-se feito valer do curso de fisioterapeuta. Teve vários convites para mudar de ares, rumar à Luz, mas preferiu assentar arraiais no Sul, sentir ao vivo os intensos momentos de futebol no São Luís. “Houve muita alegria e muito choro neste estádio. Foram anos maravilhosos, de glórias, entre elas a ida à final da Taça de Portugal e às competições europeias. Hoje reconheço que a estrutura era muito pesada e que estamos a discutir tostões que naquela altura tinham sido muito importantes e não foram poupados.”
A fatiota de novo rico, corte fino, direitinho, que o Farense usou há uma década, quando espantou tudo e todos com um quinto lugar na tabela classificativa, não condizia com a sua verdadeira condição económica. E está gasta, coçada, rota mesmo. Ainda assim, em dois anos e meio a actual direcção conseguiu travar o descalabro financeiro, saldar algumas dívidas, adiar o enterro de um ‘doente’ terminal.
Desde a descida abrupta aos escalões inferiores que a história se repetia: no início de cada temporada os juniores assumiam o papel de seniores, até haver dinheiro para pagar as dívidas ao fisco. Este ano agigantaram-se ao cometerem a ousadia de aguentarem o ritmo desenfreado de jogos ao sábado e ao domingo durante sete jornadas. A história foi escrita assim até Pedro Moreira, treinador dos miúdos, dizer basta. “Esticámos a corda ao máximo, os índices físicos baixaram e às tantas tornou-se complicado aguentar dois campeonatos. Apareceram as lesões, as expulsões, e fomos perdendo atletas por causa de um escalão que não era o nosso. Era impossível continuarmos. ”
Cedo se percebeu que os jovens eram actores no filme errado. Apesar do esforço, os jogos na série F da Terceira Divisão em nome de uma equipa sénior fantasma, que treinava mas oficialmente nunca chegou a aparecer, mostraram-se dignos do programa ‘A Liga dos Últimos’: seis derrotas e uma vitória, dois golos marcados e 25 sofridos.
A oito quilómetros dali, em Olhão, respira-se ar mais saudável. O clube local faz uma longa travessia no deserto desde 1975, último ano em que militou na Primeira Divisão, mas não tem problemas de tesouraria e está em terceiro lugar na Liga de Honra. Isidoro de Sousa, 48 anos, responsável pelo departamento de futebol sénior, conta duas décadas ao serviço da instituição e orgulha-se de ter resistido à hecatombe que varreu o Sul. “O Olhanense passou um mau bocado mas hoje está bem de saúde, principalmente porque assegurámos sempre o património. Somos muito conservadores, crescemos com os pés assentes na terra”, explica.
Com a revolução em marcha, a ideia é transformar os ‘rubro-negros’ numa referência no panorama futebolístico em pouco tempo. Assim queiram os bons ventos do Mediterrâneo e a fé dos homens. “A breve trecho vamos constituir uma SAD, que passa pela aposta forte no futebol profissional e numa subida à Primeira Liga”, diz, convicto de que o Algarve poderá ter outro clube entre os grandes.
Olhanense e Portimonense (também na Liga de Honra) são casos raros por aquelas bandas, a remarem sozinhos contra a maré. A culpa de descalabros alheios está, segundo Isidoro, na inconsciência das pessoas que dirigem os clubes. “Muitos delapidaram o património, endividaram-se, construíram orçamentos maiores do que podiam. Agora pagam a factura. Nós, pelo contrário, acautelámos a questão financeira, com a máxima de que se temos dez nunca podemos gastar 15.”
Nos confins do país, encostada à fronteira com Espanha, Campo Maior também já sentiu a amargura de perder o futebol profissional. O adeus ao escalão principal aconteceu em 2001, quando o 16.º lugar na tabela levou João Nabeiro a colocar um ponto final numa bem sucedida aventura pelos relvados, voltando à estaca zero.
Quinze anos antes, ao assumir a presidência, herdara do pai, Rui Nabeiro, uma dívida de 60 mil contos e um emblema à espera de alguém que o empurrasse para cima. A tarefa trouxe-lhe muitas dores de cabeça e custou rios de dinheiro, nunca compensados pela venda diminuta de ‘merchadising’. Os ‘leões’ sofreram uma mutação, transformaram--se em galgos e nem assim se venderam mais ‘t-shirts’ ou se encontraram fontes alternativas de receita. “Tentámos de tudo, mas perdemos capital. Posso mesmo afirmar que durante o período em que o clube esteve na Primeira Divisão devo ter investido aqui entre três a quatro milhões de contos. Qual foi o retorno disso?”, questiona o ainda hoje presidente do Sporting Clube Campomaiorense antes disparar a resposta: “Praticamente nenhum.”
Paredes-meias com Badajoz, a pequena localidade de dez mil habitantes já não vibra com o rebuliço das centenas de forasteiros que quinzenalmente assistiam às jogatanas no Estádio Capitão César Correia, enchiam restaurantes e cafés, davam vida à terra. Pior, o cenário tristonho tornou-se perigosamente indiferente em quatro anos, porque João deixou de interpretar o papel do carola que injectava dinheiro sem olhar a meios para se transformar no empresário cauteloso que não podia perder mais: “Quando decidi acabar com o futebol profissional o presidente da Liga, major Valentim Loureiro, telefonava-me quase todos os dias a pedir para não fazer isso, a argumentar que devia aguentar mais uma época. Mas eu é que punha aqui o dinheiro, eu é que estava a perder, tinha uma situação deficitária e não dava para sustentar isto por mais tempo. Era uma bola de neve que tinha de ser travada.”
Hoje, o Campomaiorense tem 20 empregados, um orçamento modesto, mas continua a dar prejuízo. João é incapaz de fugir ao destino e continua a colocar dinheiro para saldar as dívidas, normalmente a rondarem os 25 mil euros mensais. “Ontem como hoje têm sido os Cafés Delta a tampar o buraco financeiro. O clube está nas mãos deste ramo da família Nabeiro há 40 anos e só a ligação afectiva faz com que continuemos aqui.”
Com a questão do regresso à Primeira Liga posta de lado, o solitário mecenato consegue manter apenas as camadas jovens. Uma sorte. Que o diga Tiago Rasquete. Aos 18 anos, o guarda-redes dos juniores palmilha todos os dias 70 quilómetros para poder usar as luvas e não se lembra de ver os galgos morderem na Primeira Divisão. “Não estava cá nessa altura, era muito novo. Venho de longe, estou aqui vai para dois anos e é um bocado triste não termos nenhuma equipa do Alentejo no topo.”
Habituado a dividir o futebol com a escola, Tiago vale-se do gosto pela modalidade para continuar a correr todos os dias uma verdadeira maratona. O ano passado chumbou a Matemática, único tropeção em 12 anos de estudo. A acabar o secundário há noite e prestes a arranjar emprego, espera conseguir conciliar todas essas actividades para atingir o seu sonho: jogar no Benfica.
Manuel Henrique leva 22 anos de futebol, 20 dos quais com o símbolo do Campomaiorense ao peito. Actualmente coordena os juniores, dá-lhes ânimo para enfrentarem a adversidade, pensarem que a carreira não tem de acabar na fronteira. “Estamos para aqui desterrados mas tento incutir-lhes a ideia de que estão a ser formados para outros. Há alguns exemplos de sucesso e isso ajuda a motivá-los, embora não possa negar que existe um vazio difícil de gerir”, confessa. Todos os anos, os 22 jogadores do plantel repetem em uníssono: “Vamos começar com os seniores?” Manuel chuta a resposta para canto afirmando não depender dele, “porque se assim fosse eles já estavam a jogar, nem que fosse nos distritais.”
A razia aos clubes a Sul do Tejo tornou-se uma realidade cada vez mais dura desde o 25 de Abril de 1974. A Revolução dos Cravos não lhes fez bem, a começar por alguns dos que estavam encostados ao rio, então habituados a uma pequena travessia para defrontarem os gigantes do futebol nacional.
No mercado do peixe do Barreiro, Francisco Costa recorda a altura em que a cidade se engalanava de cada vez que o principal clube da terra recebia o Benfica, o Sporting e o Porto. Sócio ferrenho do Barreirense, assistiu de perto àquele período de ouro. A alegria da última subida à Primeira Divisão, em 1978, ainda faz parte das suas memórias. “Foi uma doidice. Andámos aí com os carros até às tantas. Parecia que Portugal tinha sido campeão da Europa. Lembro-me que ganhámos o último jogo em Almada, por um 1-0, com o golo do Arnaldo, um grande jogador.”
Foi sol de pouca dura já que na época seguinte o Barreirense desceu, para nunca mais voltar. Agora, na Liga de Honra, renasce a esperança. Está quase. “É possível, embora difícil, mas tenho de reconhecer que seria uma alegria enorme. Não queria morrer sem ver isso tornar-se realidade.” A uns quantos quilómetros de distância, o Clube Desportivo do Montijo também olha o Tejo mas não partilha tamanha esperança. Desde 1977, quando abandonou o escalão maior, que nunca mais se recompôs. Depois de vários anos na Segunda Divisão B, bateu no fundo do poço – parece quase impossível saltar da Terceira Divisão.
Carlos Dias esteve presente nos bons e nos maus momentos, antes como vogal, agora como presidente da colectividade, que se afundou nos anos em que ele decidiu afastar-se. “Entristece-me a situação actual. Se o futebol acabar o que vai acontecer a esta cidade, o que vai ser desta população ao domingo à tarde, único momento em que se vê alguma felicidade nas pessoas? Se não houver jogo isto é uma terra morta, fantasma.”
Noutros tempos o Montijo arrastava 20 ou 30 autocarros para as deslocações de Norte a Sul do País. Hoje nem dez automóveis compõem a caravana. O património, muito e valioso, desapareceu em passes de magia. Falta encontrar o ilusionista que deixou apenas um milhão e 500 mil euros para pagar aos fisco. “Quando aqui entrei fui à procura de papéis que justificassem tamanho prejuízo mas desapareceram. Muita gente deve ter ganho dinheiro à custa do clube. Só aceitei esta posição porque há aí uma facção interessada em ver isto fechado. Não lhes vou fazer a vontade.” No Montijo, ainda é a sua carolice que mantém o clube vivo.
REALIDADES DIFERENTES
1 - Fernando Nobre pertence à direcção do Farense e diz que não havia maneira de travar o fim do futebol profissional.
2 - O apoio da população, visível nas paredes do São Luís, não valeu para saldar os 600 mil euros de dívidas que permitiriam inscrever os seniores.
3 - Isidoro de Sousa dirige o futebol do Olhanense e vive uma realidade diferente: espera chegar à I Liga em breve.
PERÍODO PÓS-25 DE ABRIL DE 1974
REVOLUÇÃO MADRASTA PARA VÁRIAS EQUIPAS
O Olhanense foi o primeiro clube do Sul a claudicar no período pós-25 de Abril, ao descer à Segunda Divisão logo na época de 1974/75. Depois o descalabro de resultados chegou às formações banhadas pelo Tejo, casos do Montijo, Barreirense, CUF e Amora. O Alentejo foi o último a sofrer tão grande razia.
CLUBES E ÚLTIMO ANO NA SUPERLIGA
- Sporting Clube Olhanense (1974/75)
- Grupo Desportivo da Cuf (1975/76)
- Futebol Clube Barreirense (1978/79)
- Portimonense Futebol Clube (1989/90)
- Clube Desportivo do Montijo (1976/77)
- Amora Futebol Clube (1982/83)
- O Elvas (1987/88)
- Sporting Clube Farense (2001/02)
- Sporting Clube Campomaiorense (1987/88)
1- Manuel Henrique, 20 anos no clube, treina os juniores e costuma ouvir os miúdos fazerem a pergunta: “Quando é que vamos ter equipa de seniores?”
2 - O relvado do Estádio Capitão César Correia, em Campo Maior, deixou de ser palco de grandes jogos em 2001. Hoje serve mais o râguebi do que o futebol.
3 - João Nabeiro tentou várias formas de financiamento além do mecenato do Café Delta. Foi mal sucedido e ainda hoje injecta dinheiro no Campomaiorense.
Carlos Dias da saudosa equipa do Clube Desportivo do Montijo que tantas alegrias lhe deu na Primeira Divisão. No passado vogal da direcção, hoje presidente, não sabe o que é feito do dinheiro que outros dirigentes geriram.
1 - Na Liga de Honra, o Barreirense tem feito várias acções para injectar dinheiro fresco e chamar novas caras ao estádio. O escalão principal deixou de ser miragem.
2 - Francisco Costa continua fiel ao clube do seu coração, recordando ainda hoje a alegria da cidade quando o Barreirense esteve em 1978 no olimpo do futebol luso.
NORTE TAMBÉM TEM MUITAS DIFICULDADES
A sangria nos clubes da Primeira Divisão não se fica pelo Farense e muito menos pelo Sul. Nas últimas décadas foram vários os do Norte que não resistiram às dificuldades económicas e tiveram de se contentar com a presença em escalões inferiores, caso do Desportivo de Chaves, do Sporting da Covilhã e do Leixões. Outros nem essa sorte tiveram, como aconteceu ao Académico de Viseu e ao Felgueiras.
Contudo, o maior pesadelo abateu-se sob o Salgueiros, que após 15 épocas no topo (21 no total) a fazer vida difícil aos ‘grandes’, fechou portas ao futebol profissional. Fundado em 1911, o clube conheceu o sabor amargo da descida em 2001/02. A partir de então tem passado por um verdadeiro calvário, numa crise financeira sem precedentes, ao ponto de chegar à Terceira Divisão. Em Vidal Pinheiro, estádio de tantas alegrias para a ‘Alma Salgueirista’, os tempos têm sido conturbados e as providências cautelares interpostas por ex-atletas que reclamam o pagamento de salários em atraso de várias épocas levaram este ano ao fim do futebol sénior no clube portuense que equipa de vermelho.
AS CONTAS NEGRAS DO FUTEBOL PORTUGUÊS
250 MIL EUROS
É o montante em euros que o Tirsense deve ao fisco e aos jogadores com salários em atraso.
2.62 EUROS
A cotação actual de uma acção do Sporting vendida em Junho de 1998 a 6.50 euros.
30 POR CENTO
É a percentagem do seu salário que os jogadores da Ovarense receberam até à data.
10 MILHÕES DE EUROS
O valor total das hipotecas e penhoras dos terrenos Salgueiros.
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