O meu Tio Alberto achava – sem adiantar qualquer razão – que a ocupação de botânico era uma das mais nobres no leque das chamadas “profissões relativamente inúteis”.
Ele passava grande parte do ano rodeado de árvores na sua casa de São Pedro de Arcos, transformada em cozinha (era um gastrónomo conservador e um cozinheiro inventivo), biblioteca, escritório de reclusão para o jurisconsulto, historiador amável e solitário imune à tentação do matrimónio. A sua paixão por árvores era prática: gostava de florestas (que acordavam nele teorias sobre a magia da terra), apreciava-lhes a sombra no Verão, aproveitava-as como cenário para passeios matinais ou crepusculares numa época em que as pessoas normais não vestiam roupas de ginástica para respirarem a ritmo acelerado – mas o seu conhecimento das espécies era diminuto; era acusado de confundir carvalhos (que nessa altura povoavam as colinas que levavam aos cumes das serras) com glicínias e, pior, de achar uma beleza superior nas araucárias de Viana.
Foi por ele que me tornei um ignorante em matéria botânica, coisa que me levou, nos meus períodos de maior ócio, a tentar escrever, precisamente, um resumo de botânica minhota. Um resto de sensatez, colhida de hábitos antigos e hoje raros na minha família, fez com que o projecto ficasse a meio ou a três quartos. Só uma classe de incompreensíveis fanáticos se dedica a apreciar árvores. Poucas pessoas se dedicaram a construir, planear, cuidar ou, apenas, a gozar a beleza de um jardim. O Tio Alberto, para escapar a observações sobre a sua incúria como hortelão, argumentava que o seu “jardim” era um repositório de causalidades que foram nascendo em redor da casa, contaminando os caminhos e ladeando o velhíssimo lago que ornamentava o seu pátio, amplamente dominado por uma mesa de refeições estivais de que ele gostava de relembrar que serviu para servir uma refeição a D. Ramón Otero Pedrayo (recordo que sardinhas fritas e ovos com chouriço foram o prato principal, juntamente com migas de acelga).
Agora que o Verão palmilha a estrada de regresso pela província fora, despedindo-se aqui e ali, volteando entre manhãs mais nebulosas e noites de mais ventania, a vida do botânico renasce com ironia. Ele anseia por terra preparada para o frio e para a germinação; quer limpar os resíduos de uma beleza rara que se perdeu e foi estiolando. Enquanto a generalidade das multidões chora o calor de Agosto, o botânico – malvado – sorri à ideia de um Outono moderado mas com vapores humedecendo a terra agradecida. É uma ocupação impopular. Nobre e, por isso, impopular.
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