Na sua primeira edição, a 29 de Junho, a ‘Lisboa Parade vai reunir pais de família, ‘drag queens’, ‘ravers’ e curiosos. Um dia antes, o ‘Orgulho Gay’ também marcha na capital. As duas organizações não querem ‘misturas’...
A 29 de Junho, Lisboa vai dançar até de madrugada. À semelhança do que se passa durante a estação quente nas principais metrópoles europeias, a capital portuguesa também vai ter direito à sua ‘Love Parade’. Jovens de cabelo descolorido, bailarinas extravagantes de ‘piercings’ e tatuagens, ‘drag queens’ que deitam fogo pela boca, Dj’s musculados e manequins em ‘topless’, são algumas das atracções da primeira festa de música techno ao ar livre.
Inspirado em eventos internacionais como o ‘Love Parade’ - nascido em Berlim meses antes da queda do Muro - e o ‘Streetparade’, na cidade de Zurique, esta festa ‘alfacinha’ vai contar com a presença de consagrados Dj’s da cena internacional, como Erick Morillo, eleito o melhor DJ de música techno do mundo, que será acompanhado pelos portugueses Dj Vibe, Dj Jiggy, DL Costa, MC Jonhy Des, entre outros. Todos eles serão responsáveis pelas mais de vinte horas de animação que Lisboa vai viver nesse dia que se prevê muito longo. O momento alto do espectáculo terá lugar às 14 horas, com a realização de um desfile de 35 camiões, representando bares e discotecas, que animarão durante seis horas a zona ribeirinha, das Docas de Santo Amaro até à Torre de Belém. No mítico monumento evocativo dos Descobrimentos portugueses, vão ficar instaladas duas pistas de dança, rodeadas por oito bares. Com o cair do dia, prepare-se para um festival de pirotecnia, o ‘Aqua Show’.
AS NOVAS MARCHAS POPULARES
“Com a Lisboa Parade, queremos criar uma nova tradição. Eventualmente, um dia até poderá substituir as marchas populares”. As palavras são de Beto Perino, um dos responsáveis pela organização do ‘ano zero’ desta festa da música. Apesar de todos os esforços da produtora para que o evento pudesse descer a Avenida da Liberdade - à semelhança do que acontece com os festejos do Santo António, -a Câmara Municipal de Lisboa acabou por não ir em ‘cantigas’ e disse não. “Prometeram-nos que para o ano, o coração da cidade será nosso”, vaticina Perino. Mas nem esse percalço municipal desmotivou os responsáveis da Lisboa Parade, que sonham com a participação de mais de 100 mil pessoas a dançar na rua, efusivamente e sem complexos. “Será um fracasso se apenas comparecerem 30 mil”, remata com optimismo. No entanto, esta é uma realidade ainda muito distante dos dois milhões de ‘ravers’ que enchem as artérias da actual capital alemã, Berlim.
PISCAR O OLHO AOS ‘GAYS’
Curiosamente, ou talvez não, a 28 de Junho - um dia antes da mediática ‘Lisboa Parade’ - a comunidade LGBT (Lésbica, Gay, Bissexual e Transgender) sai para a rua para festejar o ‘Dia de Orgulho Gay’. A bizarra coincidência já está a fazer estalar o verniz entre as organizações dos dois eventos. “Acho este encontro de datas propositado é feito para esvaziar de sentido a nossa marcha”, dispara António Serzedelo, presidente da OpusGay.
Embora ‘Lisboa Parade’ não seja uma festa de cariz homossexual, desde os primeiros anos que este movimento sempre cativou a comunidade ‘gay’, pelo facto de fazer apologia ao amor, paz, respeito e tolerância. “Esta parada, que começou em Berlim, promove a diversidade sexual. É uma festa dos heterossexuais, e não tenho dúvidas que ‘piscam o olho’ aos homossexuais”, explica Serzedelo. Perante esta acusação, Beto Perino defende-se: “O encontro de datas não foi propositado”. Além disso, o produtor faz questão de demarcar a ‘sua’ ‘Lisboa Parade’ dos Arraiais ‘Gay’. “Isto é um evento popular. Quem quiser aderir, está à-vontade, independentemente da sua orientação sexual”, remata Beto.
O seu sócio, João Roquete, corrobora e vai mais longe: “É por sermos uma sociedade mais reprimida que se vêem alguns excessos neste tipo de festas. Conheço muitos homossexuais que não sentem confortáveis nos ‘Arraiais Pride’, onde muitos aproveitam para se comportarem de uma forma mais chocante”. Um comentário com o qual António Serzedelo não parece discordar. “Grande parte da comunidade ‘gay’ tem reserva a estas festas”. As razões contam-se pelos dedos de uma mão: Há quem receie confrontar-se com a sua identidade sexual, outros não gostam de dar nas vistas
e não apreciam este ‘Carnaval’, onde não faltam travestis, transexuais e ‘drag queens’.
“Essas pessoas, são a maioria. Se todos aderissem a estas festas, o número de participantes não se ficaria pelos dois mil, mas ascenderia aos 200 mil”, assegura o número um da OpusGay, que apesar das polémicas, não vai resistir aos altos decibeis dos 35 camiões da Lisboa Parade. “Eu também vou lá estar”, remata Serzedelo.
O ARRAIAL DA DISCÓRDIA
Se a ‘Lisboa Parade’ tem as suas raízes na capital alemã, Berlim, já o ‘Arraial Pride’ nasceu na cosmopolita Nova Iorque, na noite de 28 de Junho de 1969. Tudo começou no bar ‘gay’ ‘Stonewall Inn’, onde 200 frequentadores se revoltaram contra a discriminação sexual de que eram alvo e também contra a violência policial.
“A revolta de Stonewall constitui
um marco importante para a comunidade LGBT (Lésbica, Gay, Bissexual e Transgender)”, avança Joana Amaral, vice-presidente da ILGA. Todos os anos, esta associação promove uma manifestação pacífica pelas ruas da cidade do Porto e Lisboa. No ano passado, o recém-eleito Presidente da Câmara de Lisboa, Pedro Santana Lopes, ia estragando a 6ª edição do ‘Arraial Pride, anunciada para a Praça do Município, a 29 de Junho de 2002. À última hora, e após intensas negociações com os responsáveis autárquicos, a ‘onda rosa’ acabou por vencer o braço de ferro.
Já no Porto, embora os responsáveis autárquicos tenham dado o aval a esta iniciativa, o então desconhecido líder da distrital do Porto, da Juventude Popular, Miguel Barbosa, saltou para as primeiras páginas dos jornais quando proferiu um discurso politicamente incorrecto. A II Semana Cultural do Orgulho Gay, Lésbico, Transexual e Bissexual do Porto, que se realizou a 14 de Junho de 2002, foi apelidada de ‘ordinária’. O jovem político teceu ainda alguns comentários, no mínimo pouco ortodoxos, sobre a homossexualidade: “Uma doença que não é normal”. E acrescentou ainda: “Não é com desfiles ordinários que se consegue seja o que for. A sexualidade de cada um deve ser assumida na intimidade e recato do lar”. As suas declarações consternaram os vários grupos de trabalho homossexual, distribuídos pelo país, e até o próprio Partido Popular que, para não se comprometer, de imediato se demarcou das palavras de cariz homofóbico.
Se tudo correr sob feição, este ano a 7ª edição do ‘Arraial Pride’ - a iniciar-se na Praça Marquês do Pombal - vai contar com a participação de mais de 20 mil pessoas. Um número que poderá ficar na história desta festa, que desde 1997 tem vindo a cativar cada vez mais os participantes. Embora a maioria dos convivas não renegue a sua orientação sexual, este ‘mar de gente’ prova que o Arraial pode ser de todos, independentemente de estética ou modo de estar. “Isto demonstra que felizmente os tabus estão a diminuir na sociedade portuguesa”, refere Joana Amaral.
Nos dias 28 e 29 de Junho, seja branco, mulato, homem ou mulher, gay ou heterossexual, do Benfica, do Sporting ou do Porto, saiba dançar ou não, venha às duas festas mais coloridas da cidade de Lisboa. Até porque muito dificilmente poderá estar na capital portuguesa e não dar pela manifestação. N
OS PRIMEIROS ACORDES DA ‘LOVE PARADE’
Quatro meses antes da queda do Muro de Berlim, a 9 de Novembro de 1989, a zona ocidental da actual capital alemã foi o palco escolhido para a primeira experiência da ‘Love Parade’. Sob a batuta do mítico DJ alemão, Dr Motte, no dia 1 de Julho de 1989, as ruas de Berlim acolheram 150 participantes, dispostos a comemorar a música techno/house e a promover uma mensagem universal: “Paz, Amor, Respeito e Tolerância’. Um camião com mesas de mistura e uma aparelhagem potente, proporcionava a banda sonora desta festa, que em 2002 conseguiu reunir mais de dois milhões de pessoas, nas Portas de Brandenburgo. O evento globalizou-se mas o objectivo mantém-se. Diz DJ Dr Motte: “A música fala todos os idiomas e qualquer pessoa pode entendê-la”. A Love Parade nunca caiu na tentação de se tornar numa manifestação de cariz contestatário. Na Alemanha, França, Espanha, Áustria, Suíça, Inglaterra, África do Sul e até em Israel, os milhões de ‘ravers’ inundam as ruas com os seus trajes exóticos.
O ‘filósofo’ da Love Parade, Enric Nietzsche explica : “A música electrónica é um movimento cultural, feito por jovens, e não um desfile de moda. Graças ao sucesso da Love Parade, foi possível levá-la dos selectivos clubes nocturnos até às ruas das principais artérias das cidades”. Este ano, chegou a vez de Lisboa receber a festa da música.
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