Foi condenado a dez meses de prisão por conduzir sem carta, mas jura que é perseguido pela juíza. O caso do ‘peniqueiro’ divide Ferreira do Alentejo. Ele continua a acelerar, como um rebelde sem causa.
O ‘peniqueiro’ carrega no acelerador com a gana que o tornou herói das garraiadas. Os pneus do velhinho Opel Corsa levantam a poeira do chão como cascos de uma vaca irascível. Mas ele é cowboy exímio. A cento e tal à hora, tem o sangue frio para segurar as rédeas com firmeza, serpenteando curvas apertadas, trilhos de tractores e raízes de oliveiras. Quase sem pestanejar. Desta feita, não grita os ‘iiiaaas’ exaltados que espevitam os novilhos das arenas e lhe dão mais adrenalina em cima do selim.
Ao volante prefere manter-se em silêncio, ouvindo os roncos do motor a ecoar pelos arrabaldes de Ferreira. O chinfrim desperta da modorra alentejana os cavalos e as ovelhas que pastam em planícies minguadas de água. A sua cabeça fervilha à mesma velocidade dos galões da gasolina sem chumbo, bebidos pelo motor. O condutor de 23 anos foge de fantasmas do passado. Não tem escapatória. As imagens, já um pouco distorcidas pelo tempo, perseguem-no como uma maldição: num piscar de olhos vê a caçadeira do pai a fumegar, os lençóis manchados de sangue, a pólvora a pairar no quarto, a mãe em comoção com as mãos na cabeça, a irmã estendida como um anjo, sem vida na cama, as luzes intermitentes das sirenes da ambulância a ferirem-lhe a vista.
“O que foste fazer?”, ouve alguém a gritar-lhe, com incredulidade. “Foi um acidente!”, justifica aos berros, como se nesse momento tivesse pai, mãe e irmãos reunidos em seu redor, com esgares reprovadores. Ele não era mais do que um rapazinho de sete anos, assustado e curioso. Não pode acreditar que cometera aquele crime. Que tirou a vida à irmã preferida com um tiro seco. Que ela não irá brincar mais consigo por entre os fardos de palha. “Foi um acidente”, repete, em voz menos audível, sem reduzir a velocidade. Sem carta de condução e com uma pena de prisão à perna, ele continua a desafiar o acaso pelos trilhos de cabras do Alentejo profundo. De frente, sem freios, como faz habitualmente nas corridas de touros em Marvão. Que se danem as consequências.
JUÍZA MÁ OU FALTA DE JUÍZO?
Nas ruas de Ferreira, qualquer um conhece as desventuras do ‘peniqueiro’ – embora poucos saibam dizer de cor o seu nome verdadeiro: Eduardo Fialho. É que no Alentejo, as alcunhas colam-se à pele como tatuagens e não saem mais. A dele explica-se simplesmente porque a família trabalhou muitos anos no Monte dos Penicos. “Isso é gente que dá muitos problemas”, diz uma comerciante muito conhecida no centro da vila. “É preciso ter cuidado com eles”, vaticina antes de se afastar de mansinho pelas ruas empedradas com o saco das compras. A má-língua repete-se pelas diferentes capelas, embora com doses mais moderadas de veneno: “Não tem juízo nenhum. É um cabeça de vento”, afirma com condescendência um amigo um ano mais velho. “Só aprende quando for parar atrás das grades.” Poderia parecer profecia…. A 12 de Julho, a juíza Catarina Cabral, do Tribunal de Ferreira do Alentejo, leu em voz alta a sentença que muitos ferreirenses imaginavam em voz sumida: dez meses de prisão para o ‘peniqueiro’. Era a quarta e a mais grave condenação para o rapaz estouvado da terra. O crime? O de sempre. “Estou a ser perseguido por esta juíza”, queixou-se com nervosismo pouco depois de sair do tribunal. “Já fui detido duas vezes por ela. Agora até me seguiu de carro e deu-me a ordem de prisão”.
A teoria da conspiração faria sentido numa série de ficção, mas Eduardo não tem pinta de agente de FBI e Ferreira não se parece com Roswell, a terra dos discos voadores. Quem disse, no entanto, que no Alentejo não poderiam existir fenómenos paranormais? “No tribunal, o Eduardo não dizia nada com coerência. Limitava-se a encolher os ombros. Mas quando saiu da audiência, não parava de afirmar que se queria suicidar. Estava bastante alterado”, revela o seu advogado, Manuel Gonçalves, com estranheza. Nessa tarde abafada de Verão, o mundo parecia ter desabado em cima da cabeça do ‘peniqueiro’. Teria sido tudo tão diferente se não tivesse chumbado nos exames do código e mandado às urtigas as aulas de condução, há uns anitos. “Prometia-me todos os dias que iria voltar a tirar a carta. Mas ele é mesmo assim. Se se chateia muito com alguma coisa, muda logo de ideias e parte para outra”, revela a mãe, dona Margarida, caseira na herdade de Vale do Alarve, onde também vive o filho rebelde.
Eduardo não abriu mais a boca sobre o caso. Só prometeu recorrer da sentença. Mas até Manuel Gonçalves, o seu advogado, deixa nas entrelinhas que seria mais fácil acertar no Euromilhões do que haver alterações na pena em Outubro: “Toda a gente sabia que ele não podia conduzir. A GNR até estava a ser paciente com ele. Parecia estar a brincar com eles”. E remata com contundência: “Já vi condenações mais injustas.”
DUAS MORTES, UMA DOR NA ALMA
À porta da vivenda com vista privilegiada para o estábulo, dona Margarida observa os saltos do seu gato de três pernas e os ziguezagues dos bezerros fugidios, entre tractores e alfaias agrícolas. O intenso cheiro a estrume chega mais rapidamente às narinas do que o mugido das vacas aos ouvidos. Podia ser um dia igual aos outros na herdade de Vale do Alarve, a poucos quilómetros de Ferreira do Alentejo: “Ele tem problemas no emprego, com as mulheres, com a condução…”, resume a caseira, que traz um avental vestido, as mãos calejadas da terra e um olhar endurecido. Abana a cabeça, resignada com a sina do seu rapaz mais velho, que lhe deu sempre mais trabalheira do que todos os filhos juntos. “Nunca mais ficou bom da cabeça depois dos acidentes com os irmãos. Sente-se culpado pelas suas mortes”, afirma em tom misterioso.
É preciso recuar até aos dias em que lavravam as terras no Monte do Penico, de sol a sol, para compreender os contornos do drama familiar. “Foi o tempo de saírmos de motorizada e comprar pão para um aniversário”, conta a caseira com uma lágrima furtiva à espreita. Eduardo tinha apenas sete anos e muita vontade de descobrir sensações. À socapa, empoleirou-se numa cadeira e tirou a espingarda do pai, pendurada na parede. Abriu a gaveta onde guardavam os cartuchos e foi a correr para o quarto da irmã de seis anos, a Sílvia, que estava deitada. Num gesto imitado aos adultos, introduziu os projécteis na arma e carregou no gatilho... “Quando chegámos a casa e vimos as luzes das ambulâncias, deu-se um abalo no meu coração. Nunca pensámos numa tragédia tão grande até a minha filha mais velha, a Jacinta, vir a correr até nós a gritar: ‘a Sílvia está morta’.” Encolhido a um canto da casa, Eduardo confessou o crime à família e à polícia. Nunca ninguém percebeu porque matara a irmã. O acidente é assunto tabu, mas permanece no subconsciente de todas as discussões familiares: “Ele pensa que o odiamos, mas não é verdade”, conta o pai, João Fialho, que guerreia dia sim, dia não, com o filho.
Se a infância ficou pintada em tons vermelhos de sangue, a juventude não foi menos traumática. Num outro dia festivo, a família Fialho decidiu confraternizar à beira da estrada da Ervideira. Os mais novos corriam de um lado para o outro, a brincar à apanhada e às escondidas. As risadas pueris tornaram-se num segundo em gritos de terror, quando o pequeno João Paulo pôs inadvertidamente o pé no asfalto e foi arrastado por uma carrinha que seguia a uma velocidade normal. Eduardo, que estava por perto, viu o embate fatal do irmão mais novo, sem tempo para reagir. Era tragédia a mais para uma pessoa só. “Quis ir a casa buscar a espingarda e fazer justiça com as próprias mãos. Ia matar o condutor. Nós não deixámos”, revela o pai, João Fialho, que hoje se diz arrependido de não ter feito nada. “Os tribunais disseram que a culpa era apenas do miúdo, que se tinha jogado à estrada.” Nem indemnizações ou psicólogos para atenuar a dor da perda. “Ficámos à nossa mercê.” Desde então, nunca mais houve dias de festa entre os ‘peniqueiros’.
O PINGA-AMOR DO ALENTEJO
Aos 13 anos, Eduardo já tinha arrumado os livros da escola na gaveta. Decorar a tabuada dos nove ou fazer ditados não era com ele. Aprendeu a profissão de electricista com o ‘Caga Luz’, o mestre do ofício da terra. Mas à primeira centelha de crispação, fugia sem dar cavaco ao patrão. Nos anos seguintes, foi visto ao volante de tractores, a arranjar pivots de rega, pendurado em postes de alta tensão ou a ajudar o pai a mungir o gado. Nunca por muito tempo. “Deu-nos sempre o ordenado que ganhava”, regozija-se a mãe. “Mas o dinheiro vinha com muita irregularidade.” Não é pessoa para más vidas. Nas horas livres gosta de dançar nas boites, correr nas garraiadas ou fumar os seus charros, como qualquer rapaz saído da idade da inocência. Só não pode ver um rabo de saias. As gaiatas da terra também se pelam pelo rapaz magro, de fibra rija e boa aparência. Impetuoso por natureza, já viveu com seis namoradas diferentes, mas tanto Cidália, Tânia, Minda, Francisca ou Vera saíram da relação amorosa a perder. “Ele farta-se depressa das raparigas. Quando elas se sentem rejeitadas, choram, arranham-se e esgatanham-se por ele”, conta a mãe com indisfarçável orgulho. Uma delas chegou a persegui-lo até ao seu local de trabalho, desfiando cenas dignas de novela venezuelana. Eduardo não teve outro remédio senão despedir-se.
Com tanto amor para dar, não é de estranhar que aos 23 anos conte já com um filho no currículo: só que João Paulo – hoje com seis anos – fruto de um desses namoricos sem história, prefere viver em casa da mãe, chorando baba e ranho sempre que vem passar uns dias com a família Fialho. “Não está habituado a nós”, conta dona Margarida com pena. “O Eduardo não tem muito tempo para ele…”
COITADINHO DO ‘PENIQUEIRO’
Se a vida deste misto de Romeu e Fangio do Alentejo já corria aos solavancos, em Julho acabaria mesmo por ‘gripar’. O filme dos acontecimentos parece demasiado fantasioso para parecer real: pela manhãzinha foi ao Tribunal para resolver a questão do poder paternal: resultado, foi condenado a pagar uma pensão mensal de 100 euros ao filho. Horas mais tarde, era mandado directamente para os calabouços, sem passar pela casa de partida. “A juíza viu-o a sair do tribunal ao volante de um carro. Como sabia que ele não tinha carta de condução, perseguiu--o ela mesmo”, conta o seu advogado Manuel Gonçalves. Triste fado o de Eduardo. Não pôde comer nem beber nada nas quatro horas seguintes. A família Fialho jura ainda a pés juntos que a juíza se fartou de gozar na cara dele durante a audiência. “Da última vez, fui condenado a uma pena de prisão de três meses, que cumpria aos fins-de-semana para não faltar ao trabalho”, contaria Eduardo. A sentença seguinte foi um pouco mais pesada: dez meses de prisão. É que para além de não ter carta, o alentejano envolveu-se num imbróglio que metia um ‘leasing’ de um carro que comprara a meias com a ex-namorada. Uma cadeia de confusões que não podia ter ‘happy end’ possível.
Apesar da condenação ainda estar fresca na memória, o ‘peniqueiro’ continua a acelerar no seu Opel, escondendo-se de polícias e jornalistas por caminhos de cabras. Os pais pedem compreensão. “Ele não tem outra maneira de se deslocar à herdadinha, onde trabalha. Só anda por caminhos secundários”, juram. Desde o dia do julgamento, o jipe da GNR é presença assídua junto à herdade, passando por lá em marcha lenta. “Não nos intimidam”, afiança Margarida. Carlos, o filho mais novo, de 14 anos, também apanhou por tabela. Há poucas semanas foi acusado de um crime hediondo: o de roubar um presunto de um talho de Ferreira. “À hora do furto, ele estava no Carvalhal, em casa da irmã”, defende-se dona Margarida, com as garras afiadas de uma mãe a proteger a sua ninhada. “Foi a sorte dele. Senão ainda o prendiam.”
Acreditando nas palavras de um colega, Eduardo não irá descansar enquanto não der uma lição à juíza que virou a sua vida de pernas para o ar. Só que Catarina Pires – incontactável em tempo de férias judiciais – irá mudar de comarca depois do Verão. Lisboa é o seu destino. Em Outubro, será outro magistrado a tratar do caso que mais dá que falar nos botequins de Ferreira. Entre um gole em copos de três, todos se questionam: Qual será o fim do ‘peniqueiro’?
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